Reflexões sobre a felicidade e o luto

Ainda pensando na morte do Edmar. Pensando se uma psicopata como a do último episódio do Criminal Minds (o original, não o Beyond Borders, pelo amor, que seriado ruim), se ela poderia olhar pra mim e ver meu pesar. Sempre sonho com essas coisas. Gente muito inteligente e perspicaz, capaz de ver você. Mas que sejam humanos ao mesmo tempo. Não do tipo que aproveita a perspicácia pra conseguir sexo fácil (história muita antiga, Cris, don’t worry).

A morte do Edmar me deixou triste, triste, triste de chorar até agora. Uma mistura de coisas. Por ele ser mais novo que eu. Pela relação com a Rosa. Por pensar que poderia ser comigo? Talvez. Mas principalmente por lembrar do riso alegre dele, e de como tudo parecia tão bem encaminhado na vida dele. INJUSTIÇA filhadaputa. Se houvesse algum sentido no mundo. Mas não. Não há.

Na segunda-feira encontrei os brancos. A Juliana e o Luccas. A Juliana falou de um primo do marido, que teve infarto fulminante aos 50. E ontem apareceu a notícia do filho do Maurício de Souza, provavelmente infarto também. Aos 44. Putaqueopariu.

 

E apesar de ainda sentir o luto pela morte do Edmar, de me sentir triste das lágrimas escorrerem, ao mesmo tempo é a felicidade. Felicidade, orgulho, satisfação. Poder pensar na minha família, na minha rotina, nas viagens, no jeito como o Daniel vai crescendo como um garoto bondoso, responsável, ponderado. Sentindo orgulho pelas nossas escolhas de vida.

E sair pra jantar com o Cris. Jantar com entrada, vinho, prato principal, sobremesa, risos. Tudo isso misturado com a sombra da morte. Eu dou risada com ele e não deixo de pensar no quanto a vida é efêmera, lembro da minha amiga indiana, a querida Aditi. Uma moça que conheci porque ela viu algum dos meus inúmeros blogs, me mandou um email “oi, vi seu blog sobre birdwatching, sou uma indiana que se mudou há pouco tempo pra São Paulo, será que a gente poderia se encontrar pra fazer algum passeio juntas?”. Fofura. E fomos, pra inesquecível Guainumbi. E uma das coisas que ela me contou foi sobre o cunhado dela, um velejador que amava a vida, que amava velejar, que estava sempre muito feliz. E morreu atropelado na Paulista quando andava de bicicleta.

Também penso na queridíssima Claudia Covolan, que enfrentou a dor de perder uma enteada-filha num acidente de carro. Me contou que estava com o marido, vendo uma noite estrelada, e de repente chegou a notícia. E se pergunta se um dia vai conseguir ver um céu estrelado sem doer.

Então estou lá num restaurante bonito tomando vinho com o homem que é o amor da minha vida, e rindo por alguma bobagem qualquer, mas ao mesmo tempo sentindo o luto, e o luto não é só uma tristeza, é também uma celebração da vida. De cada segundo bom que temos na companhia das pessoas amadas.

Se o luto não vai pro lado da amargura – o que pra mim é bem mais fácil, já que não era meu irmão, não era meu filho, não era o meu noivo – se o luto não cai pro lado da amargura, ele tem um lado que é o de tornar a vida e os momentos felizes mais valiosos ainda.

Dourados.

Como a luz de fim de tarde, como algo brilhando contra o sol. Incrivelmente bonito. E você sabe que um dia acaba, uma hora acaba, num segundo pode acabar. Mas ficar pensando no fim é morrer louca, e tudo que a gente deve fazer é aproveitar cada segundo da felicidade.

Edmar, como você faz falta. Bianca, como você faz falta. Cunhado da Aditi, que eu não sabia o nome, como você faz falta. Shiba, primo da Lara, namorado da Cássia, que um dia eu vi num ônibus de uma excursão, rindo com tanta gente, e num outro soube que te acharam morto na estrada, ao lado da moto, talvez fechado por um carro, como você faz falta. Mazé, empregada da minha sogra, que morreu assassinada pelo marido, como você faz falta. Pai da Mariana da APJ, a garota com os olhos mais incríveis que já vi, você que estava correndo numa pista de cooper e de repente teve um infarto. Tinha 40 anos – como você faz falta. Meu tio Ki que viveu dois anos emparedado na pior prisão do mundo, e que poderia ter feito tantas viagens com meu pai, como você faz falta. Ditchan e Batchan, que tinham idade e várias doenças da idade, mas que eu nunca achei que fossem morrer, como vocês me fazem falta. Paulão, quando nos conhecemos você já parecia ser um homem velho, mas mesmo assim saber da sua morte foi uma tristeza. Ainda hoje tenho sua voz falando pra classe “sempre dê razão para as mocinhas”. Carlos Avighi, nosso professor mais erudito da Editoração, que falava sobre os livros eróticos com tanta alegria com o Luiz e o Marcelo, você também faz falta. Marido da Rosemarí, que falava pra ela “Rosenha, eu vou ficar bom, eu vou sarar e aí a gente vai viajar pra onde você quiser” – não consigo lembrar dessa história sem ficar com os olhos molhados – como você faz falta. Padrinho da Taty, que amava tanto a vida e era zoeira como os Ferlin são, como você faz falta. Aka, mãe da Matiana, quando você estava doente a Matiana dizia que se você morresse ela morreria também – como você faz falta. Batchan da Nathalia, como você faz falta. Pai do Murilo, de quem não sei nada, mas deve ser avassalador perder o pai ainda criança, como você faz falta. Vó da Maria Gabriela, que eu tive a honra e a triste missão de receber um telefonema da família, sua filha, imagino, que me chamou e pediu pra eu contar pra Maria que você tinha falecido, e eu fui lá, tremendo por dentro, pensando na morte dos meus avós, mas também me sentindo honrada, como você faz falta.

Tantas pessoas que se foram, e que fazem tanta falta.

Mas vocês eram pessoas tão boas, tão brilhantes, que mesmo a ausência de vocês é capaz de trazer coisas boas.

Edmar, hoje fiz um brinde pra você. E pelos outros.

Esteja bem, onde você estiver.