Racismo e outras discriminações imbecis

Qualquer manifestação racista é uma demonstração do quanto a pessoa é um grande cabeça de bagre. Não encontramos os tais seres de outro planeta, mas dispomos do privilégio de viver num mundo em que há uma certa variedade de cor de pele, de cabelo, de porte, de formatos, de olhos, de línguagem, de vivências. Acho uma pena não haver uma variedade maior ainda de cores de pele. É tão legal topar ou se relacionar com pessoas que têm aparências tão diferentes da minha. O máximo de gostinho que vou ter de confederações intergalácticas.

Tratar mal alguém porque a pessoa não tem pele clara é querer alardear pro mundo que você tem meia ervilha no lugar do cérebro. Há poucos jeitos tão eficazes de dizer “sou um idiota, sem cultura, sem vivência, vivo num mundinho fechado, uma vida mesquinha, sou altamente influenciável pelos meios de comunicação e por isso acho que só quem tem jeito de europeu ou gringo presta, não tenho capacidade de pensar e analisar, só ligo para aparências, não sei olhar as pessoas como pessoas, humilho os mais fracos sempre que posso, mas é claro que não faria o que faço se a pessoa pudesse revidar, sou um merda”.

Meus avós chamavam os negros de kuros, que é palavra para negro, mas não vejo diferença entre chamar alguém de lemão, portuga, grego, turco. Nunca vi tratarem mal uma pessoa de pele escura e, diferente de outras famílias japonesas, os filhos puderam casar com quem quiseram. Dos cinco, só minha mãe casou com um descendente de japoneses, todos os outros casaram com brasileiros. Entretanto, meus pais tiveram quatro filhos, sendo que uma casou com um muçulmano marroquinho, e a outra com um judeu filho de romenos.

Sempre acho estranho quando alguém me censura ou diz que não se pode chamar alguém de negro. Como se fosse ofensivo. Só é ofensivo pra alguém que acha que há algo de errado em ser negro.

Claro que entendo todo o contexto histórico, e é claro que já me senti muito infeliz por não ser branca – entendendo muito bem frases de personagens do Cold Case, um jogador negro de beisebol, que falou “eu esfolaria minha pele com uma bucha de aço, se isso me fizesse deixar de ser negro”. Mas somos o que somos, melhor sorte na próxima vida. Quando estou conversando com negros, às vezes me pego pensando “como é possível tratar mal uma pessoa só pela cor da pele”. E como as pessoas podem ser incapazes de ver a beleza dos negros? Tantos negros e negras maravilhosos. Ah, se o Derek Morgan caísse no meu quintal…

E a polêmica do Facebook de uma semana atrás, a foto da garota negra com o namorado branco. Foi trolada com frases do tipo “onde você comprou essa?”, “ela é sua escrava?”. Que tipo de gente pensa ou escreve essas coisas? Provavelmente cretinos bem invejosos, porque a garota é linda, eles devem ter pensado “quem me dera”.

Se você tem amizade ou influência sobre qualquer um que demonstre pensamentos de meia ervilha, bombardeie seu amigo sempre que puder. Converse, faça a pessoa deixar de ser tapada e idiota. Não tem nada que justifique humilhar e tratar mal as pessoas por qualquer motivo que seja, especialmente aquilo que é ligado com aparência: ser negro, ou indiano, ou nordestino, ou japonês, ou gordo, ou muito magro, ou baixinho. Mesmo que você tenha crescido em um meio que propagava o preconceito e o bullying, já está mais do que na hora de pensar com sua própria cabeça. Pare e pense.