Questões sobre aborto

Somos um país em que 51,4% da população é mulher, que tem 39% dos seus lares em zona urbana comandados por mulheres, em que 70% dos nascimentos na zona urbana aconteceu por um oops e não por planejamento. Não parece absurdo imaginar que a criminalização do aborto é um dos motivos que contribui pra sermos um país subdesenvolvido, no time do Haiti, África, Cuba, Nicarágua, Oriente Médio (que proíbem ou restringem o aborto), em vez de Europa, Estados Unidos, Austrália, Canadá (que permitem o aborto).

Qual é uma quantidade razoável de abortos clandestinos e mortes decorrentes do aborto para que esses números possam ser usados numa discussão?

Não se sabe quantos abortos clandestinos são feitos no Brasil por ano, não há como ter estatística sobre isso. Li vários textos. Os conservadores garantem que é na casa dos 100 mil. Quem não é tão conservador estima na casa de 650 mil a 1 milhão.

A Organização Mundial de Saúde estima que por ano haja uns 50 milhões de abortos no mundo, sendo que uns 20 milhões acontecem em condições inseguras, e cerca de 70 mil mulheres morram em decorrência dos abortos clandestinos, principalmente em países em desenvolvimento. A estimativa no Brasil é de umas 180 mortes por ano.

Sinceramente. Qual a diferença se são 100 mil ou 1 milhão de abortos? E qual a diferença se morrem 180 ou 1 mulher? Uma morte já não é intolerável?

É o fim da picada que mulheres morram e tenham que se sujeitar a açougueiros e traumas diversos, ou que tenham que se sujeitar a ter filhos num momento em que não estavam preparadas, e assim muitas vezes ter a vida revirada de pernas pro ar, às vezes acabando com as oportunidades de educação, trabalho e ascensão social – tudo porque tem um bando de fanáticos religiosos que acham que têm o direito de mandar na vida dos outros.

 

Putaqueopariu.

Você é contra o aborto? É simples, você não pratica. Engravidou num momento errado da vida? Assuma as questões da sua fé, suas crenças e adapte sua vida à chegada da criança.

Mas é apenas isso: suas escolhas. Você pode tentar influenciar seus filhos e amigos, mas fora as decisões sobre sua própria vida, as dos outros deviam ficar no nível de influência sobre conhecidos e parentes, no máximo.

O que dá o direito de alguém querer proibir por lei, com base nas suas crenças religiosas, algo que só o indivíduo devia ter o poder de decidir?

E sabem o que é mais triste?

Não é só a questão do fanatismo religioso. É a dor no coração de pensar como esses mecanismos de controle contribuem pra desigualdade social. Claro, quem sempre se fode? Os pobres. E mulher-pobre-negra se fode mais ainda. O aborto que não é por estupro, má formação do feto ou risco pra vida da mãe é proibido por lei, dá cadeia. Mas há ene outras situações em que a mulher quer praticar um aborto. Quantas? 100 mil ou 1 milhão é só o número de quantas fizeram o aborto, mas sabe quantas mulheres declararam que o filho veio no momento errado, que não foi uma gravidez planejada? Um número da OMS fala de uma taxa de 56% das mães da América Latina dizem que a gravidez não foi planejada, e achei um artigo que diz que 50% das mães brasileiras em zonas rurais, e 70% das mães em zona urbana disseram que a gravidez não foi planejada. Nas cidades elas queriam ter o filho em outro momento no futuro (61%), ou então não queriam ter filhos (9%), mas aconteceu mesmo assim. (Brinde pros cretinos que falam que hoje em dia só engravida quem quer).

Em 2014 nasceram 2,8 milhões de bebês. Nem sempre o fato da gravidez ser um oops leva a um aborto, então é errado pensar que teríamos 1,5 milhão de abortos. Mas que porcaria pensar que a mulher nem tem a chance de escolher. Quer dizer, que a mulher pobre tem que enfrentar açougueiros, o preço do aborto, os riscos – ou então ferrar com a vida toda. E a mulher que pode pagar pelo aborto num local seguro precisa agir como criminosa.

O Brasil tem 300 mil meninas, entre 15 e 17 anos, que tiveram que largar estudo e trabalho por causa do filho. E dessas 300 mil, 55% não completaram o ensino fundamental.

Um filho traz muitas alegrias, mas também muitas responsabilidades e gastos. E quando você é pobre, sem escolaridade, os problemas se multiplicam. Menos tempo, menos dinheiro e menos oportunidades pra subir na vida. Claro que alguns conseguem, mas vai negar que a chegada da criança (em geral das crianças, raramente fica só em um filho) complica tudo, ainda mais pra quem não tem babá, empregada, plano de saúde particular, motorista, secretária?

Não se fala sobre educação sexual, planejamento familiar. Pelo contrário: temos uma população de 76% de católicos ou evangélicos, com padres e pastores que dizem que a caminhisinha é o instrumento do demônio, que é errado tomar pílula. Mas isso não impede que as mulheres abortem. Uma pesquisa realizada em 2010 pela UNB e Ibope mostra que o perfil da mulher que aborta é este: “Ela é casada, tem filhos, religião e pertence a todas as classes sociais (…) 81% têm filhos, 88% têm religião, 64% são casadas”. http://www.unb.br/noticias/unbagencia/unbagencia.php?id=3404

Os discursos do pastor, do padre dos centros espiritualistas não impedem que uma mulher aborte. Com certeza desincentivam muitas, mas não impede que 100 mil ou 1 milhão de brasileiras abortem todos os anos. Mas os discursos sobre o que é o certo, a única verdade, têm conseguido fazer com que nossos políticos, homens, tirem da mulher o poder de decisão sobre o próprio corpo, ameacem com cadeia quem for pega praticando aborto, e sujeitem as mulheres pobres a uma vida muito mais difícil economicamente, ou aos açougueiros, à humilhação e à morte.

Eu não me importo que 77% dos brasileiros se declarem contra o aborto (procurei muito e não consegui achar esse número aberto por gênero, alguém tinha me falado que as respostas são muito diferentes entre homens e mulheres. O máximo que consegui achar é um gráfico que mostra que 65% das pessoas se dizem a favor de que a lei continue como está, e que 15% disseram ser a favor de que o aborto seja permitido em mais situações, e que 10% disseram ser a favor do aborto em qualquer situação). Quem é contra o aborto basta não fazer, é simples. Eu não estou fodendo a vida de ninguém, nunca obrigaria uma mulher a fazer um aborto, a decisão é dela. Mas quando você coloca uma lei que diz que abortar é crime, só porque você acredita que é pecado, você está fodendo a minha vida com base na sua crença do que é certo ou errado.

Ah, e não venha me dizer que é uma questão jurídica de proteção à vida e científica sobre o conceito de que a partir da união do óvulo com o espermatozoide já é vida. Não. Desde quando as leis e a ciência valem tanto pra você? É tão conveninente escolher quando vale e quando não vale. É óbvio que as pessoas que são contra o aborto o fazem por uma questão moral-religiosa.

Não. Eu vou abrigar e nutrir um feto por 9 meses, e depois vou ter que mudar radicalmente minha vida por 20 anos. É o meu direito decidir se quero ou não interromper aquela gravidez antes das 12 semanas, quando o procedimento oferece baixo risco pra saúde da mãe.

Meu corpo. Quem decide sou eu, ninguém mais pode decidir. O pai da criança pode tentar me convencer, no máximo. Mas a decisão é minha. Eu não sou um hospedeiro abrigando um alien, sou um ser humano, o corpo é meu, a decisão devia ser minha. Como o Estado, que devia ser laico, permite que as crenças religiosas dos políticos interfiram na minha liberdade como ser humano?

Estados Unidos e Austrália permitem. Em 31 dos 47 países da União Europeia também, a mulher pode abortar no primeiro trimestre, sem precisar ter sido estuprada ou estar com risco de morrer. Um dos países que não permite é a católica Irlanda, que não permite nem quando há riscos pra saúde da mãe – pra ser permitido, só se for comprovado que há risco dela se matar.

Já na América Latina, dos 20 países só 4 permitem o aborto por decisão da mulher.

Pra variar estamos junto com Bolívia, Chile, Cuba, Nicaragua, Haiti, Suriname, África, Oriente Médio, Ásia Meridional. E não com Europa, Estados Unidos, Canadá e Austrália.

Aliás esse artigo do El País que fala da divisão do mundo entre os países que permitem e os que proíbem ou restringem o aborto dá o que pensar… Mais da metade das pessoas do mundo são mulheres. No Brasil somos 51,4% da população, que dá 5 milhões a mais de mulheres. A pesquisa do IBGE divulgada em 2015 diz que 39% dos lares urbanos têm a mulher como responsável pelo sustento do lar (nas áreas rurais esse número cai para 25%). E temos essa informação de que 70% dos bebês nascidos em zona urbana não vieram de uma gravidez planejada.

Em algum momento vou pesquisar se alguém já especulou que essa intromissão da religião sobre o Estado, enfiando a ideia de pecado, tornando aborto crime, também contribuem pra gente fazer parte do time Haiti-África-Oriente-Médio. Não sei se tem como medir, mas não parece absurdo.

— Referências:

“Segundo a Organização Mundial da Saúde, o abortamento inseguro representa um importante problema de saúde pública em todo mundo, particularmente mais grave nos países em desenvolvimento. Constitui-se também como questão de justiça social de grande amplitude e complexa cadeia, envolvendo fatores legais, econômicos, sociais e psicológicos. Estima-se que cerca de 210 milhões de gestações ocorram no mundo, a cada ano. Deste total, 75 milhões são não previstas ou indesejadas, conduzindo a quase 46 milhões de abortamentos induzidos, a cada ano (Alan Guttmacher Institute, 1999). Dentre estas interrupções de gestação, 20 milhões são praticadas em condições inseguras, implicando graves riscos para a vida e a saúde da mulher. Cerca de 95% dos abortamentos inseguros são realizados em países em desenvolvimento com restrições legais ao abortamento. Quase 13% das mortes maternas no mundo estão relacionadas ao abortamento inseguro, resultando em 67 mil mortes de mulheres, a cada ano (WHO, 1998).”

http://bvsms.saude.gov.br/bvs/publicacoes/magnitude_aborto_brasil.pdf

 

“No Brasil, as mulheres são maioria da população, passaram a viver mais, têm tido menos filhos, ocupam cada vez mais espaço no mercado de trabalho e, atualmente, são responsáveis pelo sustento de 37,3% das famílias.

(…)

De acordo com a ferramenta Estatísticas de Gênero, também do IBGE, das 50 milhões de famílias (únicas e conviventes principais) que residiam em domicílios particulares em 2010, 37,3% tinham a mulher como responsável.

O critério para definir a pessoa responsável pela família é de que seja aquela pessoa reconhecida como tal pelos demais membros da unidade doméstica. Este indicador se eleva ligeiramente a 39,3% para famílias em áreas urbanas e diminuiu consideravelmente (24,8%) para famílias em áreas rurais.”

http://www.brasil.gov.br/cidadania-e-justica/2015/03/mulheres-sao-maioria-da-populacao-e-ocupam-mais-espaco-no-mercado-de-trabalho

 

“Estimativas de 2005 da Organização Mundial da Saúde (OMS) indicam que ocorrem a cada ano no planeta cerca de 87 milhões de casos de gravidez indesejada. Desses resultam entre 46 milhões e 55 milhões de abortos.”

http://cienciahoje.uol.com.br/colunas/por-dentro-das-celulas/aborto-no-brasil-mortes-em-silencio

 

“Anualmente, acontecem até 3,2 milhões de abortos inseguros em países em desenvolvimento envolvendo adolescentes de 15 a 19 anos. Estima-se que 70 mil adolescentes em países em desenvolvimento morrem a cada ano por complicações durante a gravidez ou o parto.”

(Relatório de 2013).

http://nacoesunidas.org/ate-32-milhoes-de-abortos-inseguros-de-adolescentes-acontecem-todo-ano-em-paises-em-desenvolvimento/

 

“Brasil tinha 309 mil meninas de 15 a 17 anos nessa situação em 2013. Mais de 257 mil delas não estudam nem trabalham, segundo levantamento.

O estudo mostra que as mães adolescentes que não trabalham nem estudam apresentam os piores índices de escolaridade entre a população de 15 a 17 anos fora da escola. A maioria delas (55,4%) não chegaram a completar o ensino fundamental. Considerando todos os jovens dessa idade que não trabalham nem estudam, a porcentagem média dos que não têm instrução, ou têm o fundamental incompleto, cai para 47,2%.”

http://g1.globo.com/educacao/noticia/2015/03/no-brasil-75-das-adolescentes-que-tem-filhos-estao-fora-da-escola.html

 

“87% das mulheres entre 18 e 48 anos já ficaram grávidas alguma vez na vida, entre aquelas que não têm escolaridade ou ensino fundamental incompleto. Entre as mulheres com ensino superior, essa taxa é de 56%.

A maioria das grávidas atendidas são negras, oriundas das favelas da região, por volta dos 18 anos.”

http://www1.folha.uol.com.br/cotidiano/2015/08/1671609-gravidez-precoce-e-baixa-escolaridade-continuam-relacionadas-aponta-ibge.shtml

 

Mais informações sobre aborto, e comparações com a situação nos Estados Unidos, onde o aborto é legal há 40 anos, mas os conservadores têm ganhado terreno: http://mdemulher.abril.com.br/saude/brasil-post/aborto-10-mitos-sobre-o-assunto-que-precisam-ser-esquecidos

 

O Brasil possui alto índice de gravidez indesejada ou não planejada. Na área rural, em 2006, metade (50,7%) das mulheres tinham planejado engravidar naquele momento e a outra metada teve falha na reprodução, se denominamos esta como a porcentagem que queria ter esperado mais tempo (37%) mais a porcentagem que disse que não queria ter mais filhos quando engravidaram (12,5%). Na área urbana, a porcentagem de grávidas que disseram ter os filhos no momento errado ou que não queriam mais superava os índices da área rural, pois 70% das mulheres estavam nesta situação, onde 61,6% engravidaram no tempo não planejado e 8,8% não queriam ter filhos.

http://www.ecodebate.com.br/2014/05/16/a-fecundidade-na-adolescencia-no-brasil-artigo-de-jose-eustaquio-diniz-alves/

 

“O acesso à interrupção voluntária da gravidez também é um equador que divide o planeta. Mais de 60% da população mundial vive em países onde o aborto é permitido diversos motivos —se incluem as razões sociais ou econômicas, por exemplo — ou onde é um direito da mulher durante as primeiras semanas de gestação. Europa, Austrália, Estados Unidos… isto é, a maioria dos países desenvolvidos situados no hemisfério Norte — salvo exceções — são guiados por este modelo. No outro lado da balança, e também no outro extremo do Equador —porque são Estados que se concentram no hemisfério Sul—, cerca do 40% da população mundial vive em países com enquadramentos normativos restritivos, onde o aborto é totalmente proibido ou permitido por razões restritas, como para salvar a vida da mulher. É o caso da maior parte de África, América Latina, Oriente Médio ou o Ásia meridional, segundo a radiografia do acesso a esta prestação sanitária elaborada pela ONU em 2013”. http://brasil.elpais.com/brasil/2013/12/24/sociedad/1387906733_953783.html

 

“Quando a gravidez oferece riscos de saúde para a mulher, a quantidade de países europeus que permite a interrupção da gravidez aumenta ainda mais: 42. Desses, em 35 países o bem-estar da grávida justifica o aborto. Na Irlanda, considerado um país rígido em termos de aborto, o bem-estar da mãe não justifica a interrupção da gravidez, mas se há riscos de que a grávida de tão abalada cometa suicídio, o aborto é autorizado.”

http://www.conjur.com.br/2012-abr-12/maioria-paises-europeus-permite-aborto-feto-anencefalo