Questões misantropas – parte 2 – Momentos Blade Runner

Dentro da nossa cabeça somos velhos e ficamos cada vez mais velhos. Não é o velho de amargurado ou sem esperança, é o velho de se sentir cada vez mais distanciado do palco das angústias e desejos dos pobres bípedes sem plumas. Não com um sentimento de desprezo ou de superioridade, só um de pouca identificação.

E muitas vezes um carinho pela humanidade, vontade de poder tocar o rosto das pessoas e contar pra elas “está tudo bem, isso não tem importância”. Observar gente bonita e gente feia, gordos ou magros, brancos ou negros ou amarelos, ricos e pobres, crianças e velhos, e tudo parece tão normal. Uma pessoa que não está dentro de um padrão de beleza, ou que é feia mesmo, ou que tem a cor da pele errada – eu sei que as pessoas que não são ricas e bonitonas como nas revistas têm tantos momentos pra se sentir miseráveis, mas é comum andar pelas ruas e tudo parece tão certo, “por que você precisa emagrecer? Como alguém pode te destratar só porque sua pele é escura, como alguém pode mesmo pensar que você é menos gente só por causa da cor da sua pele? Por que as pessoas são capazes de falar ou fazer coisas pra machucar ou ofender alguém que não fez nada contra elas?”.

Ontem fomos ao mercado da Lapa. A gente adora lamen, e pensamos que pelo menos uma vez na vida temos que tentar fazer o nosso próprio. Pegamos a receita da Marisa Ono, um caldo de porco que exige ossos de pernil de porco e umas 8h cozinhando. Essa etapa fizemos ontem, hoje será preparar o lombo do porco. E temos nori e compramos um macarrão importado que ficava dentro de geladeira. A receita da Marisa Ono da massa de lamen parece ótima, mas fazer sua própria massa parece um estágio avançado demais pra gente. Ainda.

 

Mas o que eu queria contar do mercado da Lapa é sobre ir pra um lugar desse tipo, estar com fome, não saber o que ou onde comer. Entre os vários botecos só com salgados, de repente vi um que tinha travessas com carnes cozidas, pelo menos uns três tipos. Entrei, daqueles lugares que têm garçons super-eficientes que já te perguntam o que você quer e arrumam um lugar pra você sentar. Eles vendiam por prato ou porção e tinha costela, dobradinha, joelho de porco e… acho que alguma outra coisa, mas escolhi a costela.

Estava deliciosa. Bem temperada com cebola e pimentão amarelo, muito macia. Pedimos também uma água com gás, e pedi um pão. “Quer que fatie?”, “por favor”, e vi que ele levou nosso pão pra chapa pra esquentar um pouco.

Lugar pequeno, quente, abafado, com algum desses shows ao vivo de pop-forró tocando bem alto. E ainda assim nada disso incomodava. Eu estava feliz, nesses momentos de sentir que está tudo certo com o mundo.

Teria pedido mais uma porção de costela, mas olhei pro Cris e vi que ele não estava tão feliz quanto eu, então saímos de lá, (a conta ficou em R$ 12), logo estávamos com fome de novo, e dentro do mercado pegamos umas empadinhas e água de coco. Mas a empada era ruim. E é preciso registrar que não fui eu que escolhi comer empada.

Fizemos as compras. Papeamos um pouco com alguns dos vendedores, gente honesta e gentil que sabia que os ossos eram pra caldo, e nos disse que muita gente procura, um outro pra quem pedi patinho pra bife a rolê, ele cortou uma fatia e trouxe pra gente ver, estendeu a fatia sobre o balcão e mostrou que a peça tinha uma falha que fazia o bife ficar com um buraco, que era melhor a gente pegar outro tipo de carne, o peixeiro japonês pra quem perguntei sobre peixes pra sashimi, e depois sobre ouriço, e que nos explicou que o ouriço está mesmo em extinção. O empório onde finalmente achamos um conhaque de verdade, mais um momento de orgulho porque o vendedor falou que não tinha, enquanto ele subiu pra pegar as alheiras olhei ao acaso pras prateleiras e de repente vi um Fundador. Cris “como é que você viu?”, “sou birdwatcher”.

Claro, sou capaz de cruzar na rua com um conhecido e não ver a pessoa. Mas pra animais e objetos em geral tenho um bom campo de visão.

A incursão pra comprar os ossos, conhaque, costelinhas e várias outras carnes foi bem cansativa, mas valeu a pena. Tanto pelas aventuras culinárias, como pra poder ter esses momentos de se sentir numa comunidade. Cansa muito, mas é bem mais divertido do que fazer compra em supermercado.