Questões misantropas. Nascer velho e ou pensar demais – parte 1

Sabem a frase do Jap, em A Grande Beleza? “Descobri que não tenho mais idade pra fazer o que eu não quero fazer?”.

Então, é isso. É isso e mais aquela ideia sobre a última fase de Beethoven, que ser mais áspero e romper com as convenções é algo típico de artistas na fase final da carreira.

A diferença é que a gente não precisa esperar o fim da vida porque nos sentimos rodados. Aos 15 você já se sente rodado. Aos 25 muito mais. Imaginem eu que tenho quase 40.

Provavelmente desde criança você já repara que é diferente das pessoas normais. Ficamos lá, invejando a cuca fresca, espontaneidade e capacidade dos nossos colegas de fazer e falar as coisas mais idiotas, engraçadas ou adoráveis. Enquanto a gente, de tanto pensar em tantas coisas o tempo todo… Pensamos demais e fazemos de menos.

O Jap estava fazendo 70. Mas se você é misantropo tem permissão pro “não tenho mais idade pra…” mesmo que você ainda não tenha chegado aos 25.

Se você estiver preparado pras consequências, é claro.

Mas provavelmente está.

As consequências são o isolamento. Pouco convívio social. Ter imagem de gente metida, esquisita, chata – pra quem vê de longe, porque quem te conhece de perto sabe que você é um docinho, ou melhor, no mínimo que você tem um senso de humor bem peculiar, que é uma pessoa gentil, divertida, franca, honesta, sem firulas, sem falsidades. Mas rompido com convenções sociais.

As pessoas que estão mais próximas da curva da normalidade (e da decência, diriam alguns), entendem que a vida em sociedade depende de diversas interações, que relacionamentos precisam ser cultivados, e que tem coisas que você preferia estar fazendo outra coisa, mas é melhor ir fazer “pra não ficar chato”.

Sei que é errado não fazer social. Sei que devia passar mais tempo being humane, e sendo capaz de só papear sobre assuntos inócuos. Que eu devia fazer mais visitas sociais, olhar o Facebook ou o Wikiaves ou o Instagram ou os blogs dos outros, e comentar, falar coisas legais, porque com certeza tem assuntos bons entre pessoas de quem eu gosto.

Mas e pra competir com a solidão misantropa? Como parar de fazer o que você está fazendo, se sempre tem tantas coisas legais e imersivas?

Os outros misantropos também se sentem assim? Facilmente mergulhando em alguma coisa e se deliciando com aquele trabalho, ou estudo, ou leitura, análise de fotos e ilustrações, e você não quer parar por nada?

Um outro aspecto da misantropia é a grande dificuldade de se encaixar num grupo. Acho que esse defeito tem como origem principal pensar demais, perceber demais, reparar demais e, portanto, ser fresco demais.

Preciso deixar claro: ser fresco não significa tratar mal as pessoas, de jeito nenhum. Estou falando da frescura interior, dos nossos pensamentos. Nas nossas ações, buscamos sempre ser muito polidos e gentis. Não somos burros e não gostamos de machucar inocentes (gente besta é outra história). Tentamos sempre agir de forma correta e decente. Mas nos nossos pensamentos, se não estamos aprovando uma situação ou um grupo ou uma pessoa, na próxima vez vamos usar nosso precioso tempo de outra forma, e é por isso que em geral estamos sozinhos.

Há pessoas que eu veria sempre e mais vezes mas não é toda vez que os astros se alinham pra gente se encontrar.

Quanto mais velha eu fico, aumenta a inércia e pra te tirar de uma trajetória de rotina pré-estabelecida exigem forças cada vez maiores. No fim talvez eu fique como os meus avós, que adoravam ficar em casa. Podiam sair pra passeios curtos, mas a ideia de viagem significava sofrimento. As outras pessoas da família podiam pensar que meus pais eram os anti-sociais (o que eles também são, é verdade), mas muitas viagens que não fizemos tinham como motivo principal o fato de que meus avós não queriam sair de casa.

A cara de criança feliz do meu avô assistindo ao canal japonês. Minha vó tomando a fresca no fim da tarde, as mãos repousando sobre as pernas, aquela cara de placitude e às vezes cantarolando uma música.

Eu gosto muito de viajar, mas consigo me imaginar bem numa vida caseira com meu computador, meus livros, cozinhando, desenhando, às vezes fazendo algum passeio.