Questões de resiliência

“A resiliência é a capacidade de o indivíduo lidar com problemas, adaptar-se a mudanças, superar obstáculos ou resistir à pressão de situações adversas – choque, estresse etc. – sem entrar em surto psicológico, emocional ou físico, por encontrar soluções estratégicas para enfrentar e superar as adversidades. Nas organizações, a resiliência se trata de uma tomada de decisão quando alguém se depara com um contexto entre a tensão do ambiente e a vontade de vencer. Essas decisões propiciam forças estratégicas na pessoa para enfrentar a adversidade.” – Wikipedia

Misantropos em geral são pessoas resilientes. Pensamos muito, estamos acostumados a sofrer, a ser maltratados, desprezados, subestimados. Sabemos enfrentar as adversidades e dar a volta por cima, sem precisar de vingança ou drama. A gente só supera.

Certo?

Eu achava que era assim, mas graças a um jogo descobri que não sou. Faz mais de um ano que jogo Ark Survival Evolved, um jogo de sobrevivência multiplayer, em que você constrói coisas e pode domar dinossauros e criaturas míticas como dragões. O Cris encontrou o jogo, e em vários períodos é a principal atividade minha, do Cris e do Daniel. Construímos nossa casa, domamos bichos. Você pode escolher jogar em servidores PVP ou PVE. Descobrimos que não vemos graça em atacar, roubar e lutar com os outros. Mas por algum motivo, o Daniel e o Cris querem ser uma tribo pacífica em servidores PVP. E assim, constantemente somos atacados, mortos, temos nossa base destruída, nossos bichos assassinados. Quando você é morto basta nascer de novo. Mas se matam seu bicho, ele não volta. E é fácil desenvolver uma relação emocional com os animais. O primeiro bicho nosso que morreu foi por acidente, o Cris o expos a perigos e ele foi morto por outros bichos. O Daniel chorou. O primeiro pteranodon que eu perdi também fiquei abalada, era meu companheiro, eu viajava a ilha toda com ele e tive que vê-lo morrer afogado em meio a uma construção que demorou pra aparecer, e quando apareceu prendeu-o em meio a pilastras e ele morreu.

 

É um jogo incrível pra mexer com as emoções. A gente achou que ajudou bastante o Daniel a ser menos sanguíneo nas reações. Ele tem aceitado bem as adversidades e ataques, muitas vezes ele é o mais cool de nós três “tudo bem, é só um jogo”, e a gente torce pra que seja um aprendizado pra vida, que os perrengues que a gente passa no jogo vão ajudá-lo na vida real quando ele lidar com problemas, agressividade, frustrações.

Eu não tenho problema em “somos uma tribo pequena, é um jogo PVP, fomos atacados, vamos reconstruir”. Mas descobri que não tenho capacidade de lidar com a violência in loco. Encontrar nossa casa destruída? Ok. Reconstruímos. Ver alguém destruindo nossa casa, ou ver alguém atacando o Cris ou o Daniel? Nada ok. Fico tensa e com o coração acelerado, não sei como lutar, o que fazer, o que falar. Em geral é o Daniel que lida com essas situações, ele vai pro chat global e implora pro agressor parar. E geralmente ele para, às vezes depois de esnobar seu poder. Eu sou orgulhosa e não me vejo pedindo nada. E também me vejo sem ação, incapaz de lidar com essa violência tão gratuita e desproporcional. Na maioria das vezes fomos atacados por jogadores muito mais fortes, com muito mais recursos, de tribos grandes, o que a gente tinha em casa não pagava a dinamite que eles usaram pra destruir as paredes. E às vezes eles matam nossos bichos que estavam no modo passivo, ou seja, programados pra não agredir ninguém.

Sou uma pessoa bem razoável pra discutir num mundo civilizado. Não tenho receio de mal estar, de saia justa, de discussões, de argumentações. Consigo lidar com essas tensões melhor do que a maioria das pessoas que eu conheço.

Mas sou imprestável pra lidar com gente estúpida. Não sei o que fazer com violência gratuita, o puro prazer da maldade, o “estou fazendo isso só porque eu posso, porque eu quero, isso me diverte”.

Muitos anos atrás, quando eu ainda trabalhava na consultoria, a gente tinha impresso um material que precisava ser entregue antes do Natal. Contratamos uma das maiores gráficas de São Paulo. A gráfica não cumpriu o prazo, e quando liguei pra falar com o contato a resposta foi “não imprimimos, e não sei quando vamos imprimir”. Nossa, eu queria comer o fígado do homem, não conseguia entender como uma empresa teoricamente de respeito podia dar uma resposta tão irresponsável. Eu estava pilhada, era uma época que minha equipe virava noites pra acompanhar o ritmo de uns economistas que faziam trabalhos pra outros países, com outro fuso horário. Eu simplesmente reconheci minha incapacidade pra lidar com a situação. Procurei um diretor e expliquei a situação, ele colocou uma mulher bem mais casca grossa pra resolver a situação.

Também foi um momento de ver minha fragilidade. Que eu sou uma fresca frufru acostumada com tratamento vip, atendentes bem treinados, inteligentes, educados. E que quando topo com gente tosca, sem honra, sem palavra, sem caráter – eu bugo. Fico passada de desgosto e não sei o que fazer. De certa forma foi o que aconteceu no birdwatching. Quando topei com colegas fazendo coisas desonradas, com mentiras, aquilo me chocou tanto que me afastei e nunca consegui voltar de verdade. Nada resiliente.

Se eu fosse obrigada a lidar com essas situações com frequência, desenvolveria as habilidades pra encarar gente tosca, violenta, mentirosa, desonrada. Eu acho. Mas como na maior parte do tempo posso ficar na torre misantropa (certo, Leandro? 🙂 ), não consigo me desenvolver. Eu lido com fracasso, com desprezo, com pequenas maldades. Mas as grandes, a violência gratuita