Quero saber mais sobre você

– Vamos almoçar no shopping?

– Vamos. Quem mais vai?

– Ninguém. É só nós dois. Não gosto dessa história de almoço com um monte de gente, não dá pra conversar direito com as pessoas.

– Tá bom.

Não fui em quem chamei pra almoçar a dois. Foi o …, um cara que trabalhava na consultoria na época, e que depois se tornou um amigo muito querido. Fazia pouco tempo que eu tinha começado a namorar o Cris e eu sentia que isso deixava as pessoas bem curiosas. O Cris é sócio-diretor da empresa, eu era alguém do baixo clero com nada vistoso. Imagine, eu nem era ruiva naquela época, meu cabelo era preto e curto. Depois soube que uma das mulheres com quem eu trabalhava costumava falar “o Cristian é louco de namorar a Claudia, isso é um absurdo”. Ah, as alegrias de chocar a burguesia…

Eu e o Cris gostávamos muito do …  O Cris já o conhecia, de um jeito engraçado, mesmo antes do …. ter ido pra consultoria. Uma vez o Cris estava numa loja de móveis, respondendo perguntas do vendedor pro cadastro, e o … ouviu o nome do Cris e foi falar com ele. “Você é o Cristian Andrei?” Eu leio as coisas que você escreve. (Cris não bloga, eles estavam falando de um material sobre economia.)

Eu e o … fofocávamos muito, eu estava a par das aventuras amorosas dele. Ele era bem mulherengo. Uma vez uma das namoradas dele, com quem ele ficou, terminou (e acho que isso enquanto estava namorando outra, mas não tenho certeza), de repente estava namorando um outro cara, um conhecido muito bom moço e simpático. Ele me contou que a fulana estava namorando o fulano, e eu respondi “Que legal. Muito bom pra ela”. “NÃAAAAAOOO! Não é isso que você tem que dizer, porra, me ajuda”. “Vou te falar o quê? Acho que ela vai ser bem feliz com ele” (pra não falar, ‘bem mais feliz do que com você’, não quis jogar isso na cara). Ele me xingou bastante naquele dia, mas o fato é que eu estava certa. A fulana e o fulano casaram e estão juntos até hoje.

O … mudou de emprego, depois de cidade, perdemos contato. Sinto saudades dele.

E o que eu queria contar é que esse jeito despachado é uma inspiração. Se você quiser conhecer alguém, não tenha receio de chamar a pessoa pra fazer algo. Nessa linha de “só nós dois, em grupos não dá pra conversar direito”.

É verdade que eu passei minha adolescência inteira sendo anta em perceber interesse por mim. Mas nessa época acho que eu já tinha aprendido algo da vida… ou não, sei lá, no fundo acho que ainda sou imbecil pra isso e desde que comecei a namorar com o Cris, simplesmente não importa. Mas o que eu queria dizer é que pra mim isso não soou nada como uma cantada, achei legal alguém dizer que queria almoçar só comigo pra gente poder conversar.

Fica a dica. Quer conhecer alguém, convide a pessoa pra fazer algo que não pareça romântico. Um almoço, um café, uma exposição, se ela perguntar quem mais vai você diz que são só vocês, que você acha que nesses encontros com um monte de gente nunca dá pra conversar direito com as pessoas.

 

Exemplo de abordagem ruim: muitos anos atrás, na época do meu blog anônimo relativamente famoso, eu saía com um grupo de outros blogueiros de São Paulo. Uma vez um deles me convidou pra sair à noite. “Quem mais vai?”, “Ninguém. Só nós dois, eu quero ter um encontro com você”.

Nossa, que horror. Sei que tenho minha história de vida, minhas tacanhices, mas posso dizer que isso foi bem ruim de ouvir. Não quis sair com ele. Eu não tinha nenhum interesse especial por ele, mas mesmo que tivesse, acho que não iria. Mas se ele tivesse me chamado pra algo informal durante o dia, e não falar que era um encontro, e que seriam só nós dois porque num grupo com várias pessoas nunca dá pra conversar direito (como o … fez), provavelmente eu teria ido.

 

Se houver uma desculpa junto então, acho que cola melhor ainda. Vamos ver a exposição tal? Vamos dar uma volta, conhecer a sorveteria tal? E eu precisava comprar um presente pra minha irmã, você me ajuda?

Pra primeiros encontros, qualquer coisa que seja de preferência de dia, em ambientes seguros e tranquilos, imagino que funciona pros dois lados. Todo mundo gosta do inesperado (do bem) http://claudiakomesu.club/todo-mundo-gosta-inesperado/. Vocês passam um tempo juntos e descobrem se rola sintonia. Se gostaram da companhia um do outro, combinam outro passeio, e por aí vai. Sem peso, responsabilidade, expectativas.

Repare que o seguro e tranquilo é especialmente importante se você for um homem convidando uma mulher. A gente gosta de receber convites, mesmo que não haja nenhum interesse em namoro, é um ponto de honra feminista dizer “qual o problema de fazer um passeio com fulano? Homens e mulheres não podem ser amigos?”. Mas é preciso ter uma sensação de segurança. De dia, lugares públicos movimentados.

A não ser que vocês façam parte de alguma comunidade muito específica em que todos se conhecem… no birdwatching por exemplo o Facebook e o Wikiaves são nossa praça romana, isso te dá uma segurança de que todo mundo tem uma vida pública e uma reputação a zelar, então algo muito errado não vai acontecer. No birdwatching eu posso marcar passeios com gente que eu nunca vi e que até conversei pouco, porque eles têm uma reputação. Minha mãe fica horrorizada de saber que eu passo uns dias no meio do mato com um recém-conhecido. Já tentei explicar pra ela, mas depois, só parei de contar detalhes dos meus passeios.