Quem pede “Fora Temer” quer o PT de volta ao poder ou apenas não se importa com o que vai acontecer num cenário de eleições antecipadas?

Primeiro é preciso reafirmar: não sou a favor do Temer, nem acho que ele é a solução. Sempre falei que pra mim ele era só o que tem pra hoje.

Sou a favor de que, então? De mudança. De turbinar a crença de que é possível lutar contra a corrupção e que o corrupto pode ser preso e no mínimo passar um perrengue na imprensa, às vezes até ao vivo. Sou a favor da gente chacoalhar a arrogância e empáfia dos que têm certeza de que nunca serão pegos, e de acender nos honestos a esperança de que o Brasil tem jeito.

Fui e sou a favor do impeachment porque pra mim pesava o caos econômico fruto de um presidente que não tem mais nenhuma base, e que teria que fazer mais e mais concessões em troca de votos. Um caos sem perspectiva de melhora, cuja fragilidade política empurrava o país cada vez mais fundo no buraco de dívidas e distanciamento das reformas e ajustes que são extremamente antipopulares mas essenciais.

Não sei se Temer dará conta de fazer o que é preciso fazer. Mas eu tinha certeza de que Dilma e PT é que não fariam, pelo contrário, eles iriam caprichar nos endividamentos, pacotes de bondades e outras estratégias pra comprar o apoio popular. Mas no cerne o país continuaria ladeira abaixo.

Eu sei que Temer é um panaca arrogante, agora cada vez mais de manguinhas pra fora. Capaz de falar “bateu, levou”, de falar que os protestos que movimentam dezenas de milhares de pessoas no país são coisa de 40, 50 pessoas. Ou numa entrevista esquecer de mencionar a secretaria de promoção de igualdade social e dos direitos de pessoas com deficiências –porque pra ele essas coisas não significam nada. Não nutro nenhuma simpatia por esse homem. Só espero que a equipe econômica dele seja capaz de fazer o que tem que ser feito.

 

Não conversei e não pretendo discutir com ninguém que é contra o impeachment. Teria com quem falar, tenho gente próxima pra quem eu ligo e antes do alô me fala “Fora Temer”, mas faço de conta que não ouvi. Então não tenho como ter certeza do que move as pessoas que falam que o impeachment é golpe, mas estas são minhas elucubrações:

– “arranha a democracia” e agora com mais frequência “rasga a constituição” são expressões comuns. O impeachment está previsto na constituição. A mágoa é pela manipulação da mídia em tornar algo que teria passado em branco se o país estivesse próspero em motivo pra tirar o presidente.

– o impeachment nunca teria acontecido se não houvesse grupos ricos e poderosos pondo lenha na fogueira, claro que eu sei. Mas nesse caso eu também tinha interesse em ver o PT fora do poder.

– “o argumento jurídico é frágil, os outros presidentes sempre fizeram e ninguém sofreu impeachment por isso”. Eu sei. Mas não me importo. Al Capone matou um monte de gente mas foi preso por sonegação de impostos. O PT tem feito atrocidades e grandes barbeiragens com o Brasil e contra o povo brasileiro. Tanta riqueza dissipada em meio à corrupção e incompetência. Não que os outros governos não tenham sido corruptos, claro que foram. Mas as barbeiragens na condução da economia, somadas com as denúncias de tanto desvio de verba, são como os assassinatos de pessoas. Ou mais cruéis, tem sido morte lenta pra muita gente há anos. Sinceramente, não me incomoda que o motivo oficial sejam as pedaladas. Porque eu concordava com a ideia de que eles precisavam sair do poder.

– então vem o argumento sobre o desrespeito à constituição, a abertura de precedentes. Ha. Ha-ha. Ha-ha-ha. Putaqueopariu. Essa é a minha risada triste. Vocês já leram a constituição? Leiam, especialmente o artigo 5º, e pensem quantas vezes você já viu a constituição sendo desrespeitada por dia, na sua frente. Vou colar aqui alguns trechos:

“Art. 5º Todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza, garantindo-se aos brasileiros e aos estrangeiros residentes no País a inviolabilidade do direito à vida, à liberdade, à igualdade, à segurança e à propriedade, nos termos seguintes:

I – homens e mulheres são iguais em direitos e obrigações, nos termos desta Constituição;

II – ninguém será obrigado a fazer ou deixar de fazer alguma coisa senão em virtude de lei;

III – ninguém será submetido a tortura nem a tratamento desumano ou degradante;

(…)

X – são invioláveis a intimidade, a vida privada, a honra e a imagem das pessoas, assegurado o direito a indenização pelo dano material ou moral decorrente de sua violação;

XI – a casa é asilo inviolável do indivíduo, ninguém nela podendo penetrar sem consentimento do morador, salvo em caso de flagrante delito ou desastre, ou para prestar socorro, ou, durante o dia, por determinação judicial;

XII – é inviolável o sigilo da correspondência e das comunicações telegráficas, de dados e das comunicações telefônicas, salvo, no último caso, por ordem judicial, nas hipóteses e na forma que a lei estabelecer para fins de investigação criminal ou instrução processual penal;

(…)

XVI – todos podem reunir-se pacificamente, sem armas, em locais abertos ao público, independentemente de autorização, desde que não frustrem outra reunião anteriormente convocada para o mesmo local, sendo apenas exigido prévio aviso à autoridade competente;

(…)

XXXIII – todos têm direito a receber dos órgãos públicos informações de seu interesse particular, ou de interesse coletivo ou geral, que serão prestadas no prazo da lei, sob pena de responsabilidade, ressalvadas aquelas cujo sigilo seja imprescindível à segurança da sociedade e do Estado;

– O argumento dos 54 milhões de votos. 54 milhões de pessoas parece um montão, não? Mas e se a gente pensa que foram 54 entre 142 milhões? Ela teve 38,2% dos votos, Aécio 35,7%. Dilma teve 54 milhões de votos, Aécio 51 milhões de votos, e 37 milhões de pessoas não votaram, ou votaram branco ou nulo.

“Dilma se reelegeu com 38% dos votos totais. Dos 142 milhões de eleitores aptos a votar, mais de 37 milhões não escolheram candidato. Mais de 27% dos eleitores não apareceram para votar, anularam ou votaram em branco. Entre abstenções, brancos e nulos, mais de 37 milhões eleitores não escolheram um candidato.

Dilma se reelegeu na disputa mais apertada desde 1989. A petista alcançou 54.501.118 votos (51,64% dos válidos) contra 51.041.155 do tucano Aécio Neves (48,36%). Dos 142.821.358 eleitores brasileiros, 30.137.479 (21,10%) se abstiveram, outros 5.219.787 (4,63%) votaram nulo e 1.921.819 (1,71%) escolheram branco. Ou seja, no total, 37.279.085 não escolheram candidatos.”

http://congressoemfoco.uol.com.br/noticias/dilma-se-reelegeu-com-38-dos-votos-totais/

Ou seja, é verdade que muita gente votou nela. Mas não dá pra ignorar que mais gente ainda, 62% da população não votou nela. E na fogueira das denúncias de corrupção, uma boa parte da dos 54 milhões se arrependeu. No final de março, uma pesquisa do Ibope dizia que metade das pessoas que disseram ter votado em Dilma consideravam o governo ruim ou péssimo. http://www.cartacapital.com.br/blogs/parlatorio/69-consideram-governo-dilma-ruim-ou-pessimo-diz-ibope

 

Quando panfletei a favor do impeachment, eu tinha estas crenças:

– Dilma não conseguia mais governar, era um mastro quebrado afundando o país inteiro;

– Lula não deveria virar o presidente de bastidores, porque depois de tantas denúncias de corrupção do PT, manter o PT no governo era dizer que a gente nunca vai vencer a corrupção, que o poder sempre vai falar mais alto;

– Considerava e considero altamente improvável o Brasil se tornar uma ditadura, como os meus colegas contra o impeachment me falavam. Dizer que o impeachment é golpe e que a ditadura vai voltar. Mas nunca conseguiram me explicar como isso vai acontecer. A grande mídia pode ser enviesada e ostensivamente tratar de forma diferente as notícias a favor ou contra o PT. Mas se pessoas começassem a ser presas, torturadas ou assassinadas por expressarem suas opiniões políticas contrárias ao governo (isso é uma ditadura), graças às redes sociais não teria como calar isso, seria o estopim para manifestações sérias e grandes, unindo todo mundo.

– Temer e sua equipe não são a melhor solução pro país, e sim apenas aquela disponível. Mas que ainda assim, seriam melhores do que o PT, que na situação frágil em que se encontrava só afundaria mais as dívidas e concessões.

Quem pede o Fora Temer e eleições gerais acredita em que, torce pelo o quê? Acredito que essas pessoas ou torcem pela volta do PT, ou não se importam com o que vai acontecer após as eleições, simplesmente querem marcar seu ponto quanto à (detesto isso, mas vou usar o duplo coelhinho) “defesa da democracia”.

Quem poderia ganhar de Lula se tivéssemos eleições agora? Ninguém. Lula tem seus eleitores fiéis, as pessoas que temem o fim dos programas assistencialistas, e provavelmente tem cada vez mais adeptos entre os que não precisam das bolsas, mas consideram o impeachment golpe. Fora o PT, entre os outros políticos não há nenhuma figura forte e carismática o suficiente para reunir votos. Sim, tem muita gente que é PT nunca mais, mas essas pessoas não conseguiriam se unir em torno de uma figura. Os votos ficariam pulverizados entre candidatos diversos, ou na cesta dos nulos ou abstenções.

A não ser que consigam prender Lula ou torná-lo inelegível, ele é o candidato mais forte para 2018. Se o governo Temer fizer o que tem que ser feito, que é principalmente o ajuste na previdência e outros temas considerados direitos adquiridos dos trabalhadores, mas que estão totalmente errados na estrutura e nas projeções de custos, e vão enfiando o país cada vez mais pra baixo, se a equipe conseguir fazer isso é o certo, mas dezenas de milhões de pessoas vão odiá-los.

Talvez o PT volte ao poder em 2018. Dizendo-se renovado, aprendi com meus erros, acabamos com a corrupção no partido, estamos atentos a qualquer desvio ou abuso. Não sei dizer se isso será bom ou não, se será melhor ou pior do que as alternativas.

Tudo que sei é que hoje eu detestaria ver eleições gerais antecipadas, ter que engolir a vitória do PT. Não odeio o PT, nem sou do tipo que fala “PT nunca mais”. Só acho que vê-lo de volta ao poder poucos meses depois de tudo que foi denunciado alimentaria minha desesperança no país.

Talvez o PT volte em 2018. Mas daí haveria pelo menos o faz de conta de que houve reformas sérias, que não é o mesmo PT que vemos agora, que tudo mudou, talvez nem chame mais PT. Mas não hoje. Hoje não.