Quem nunca chorou de desgosto por causa de um loteamento, que atire a primeira pedra

Zanzando sozinha pelas zuas de Campos do Jordão, ou melhor, pelas estradinhas. Dias de chuva, no primeiro não dava nem pra sair de casa, no segundo saí à tarde quando a chuva deu trégua, no terceiro saí cedo, com neblina e tudo, pra contribuir com a fama de que birdwatchers têm parafusos a menos. O último dia foi o de sol e eu tinha algumas opções, mas decidi ir para um lugar novo, o Forest Hill, no Alto da Boa Vista, dica do Rodrigo Popiel.

Quando cheguei, descobri que já havia passeado por lá com o Thiago Carneiro. Mas as estradas estavam melhor cuidadas, sem nenhum buraco, e cheias de pedregulhos nos trechos mais íngremes. Em alguns lugares era possível ver umas estacas brancas. O Rodrigo estava certo. Um loteamento ativo, mas ainda sem obras.

Muitos sons na mata, especialmente do pula-pula-assobiador e quetes, os dois que reconheço com facilidade. Saíras-lagarta, trepardozinho, arredio-pálido, arapaçu-de-garganta-branca, saíra-viúva. A patota típica, mas no alto, e eu ainda na onda de sem playback, então quase nada de fotos, só ouvir os sons, absorver o verde. O luxo do ar frio, de andar de fleece o tempo todo, ar frio e fresco, cheiro de baunilha das orquídeas silvestres. Algumas araucárias tão altas, tão altas, que era impossível não querer tocar o tronco, saudar a árvore.

Zanzando solitária feliz, subindo as estradas, e de repente chego no topo. Casas. Várias, umas cinco, no topo do morro, naquele estilo de casa teoricamente chique, mas sem jardim, bem próximas uma da outra. E não bastava isso: todo o topo estava com cerca de arame, uma cerca comum e também aqueles rolos de arame no estilo campo de concentração.

Passei pelas casas, não tirei nenhuma foto, só parei o carro mais pra frente. Não sentia ânsia de vômito, mas pensei que podia vomitar. Pensava na cena de Quem quer ser um milionário, quando cegam o garoto-cantor, e o irmão-bandido vomita.

É isso que esses fihosdaputa vão fazer? Vão destruir o lar das saíras, dos arapaçus, dos limpa-folhas, dos picapauzinhos, das marias-pretas, dos gaturamos pra fazer essas casas cafonas ridículas uma grudada na outra e gramado de whitepeoplelike, com cercas de campo de concentração?

Frio, tanto frio, não era o frio agradável do início do passeio, era um frio que vinha de dentro, sentia meu peito gelado, as pernas arrepiadas.

Parei o carro em frente a um dente-de-leão já um pouco no fim. A luz não estava bonita, mas era um dente-de-leão solitário e eu pensando se o frio era só da minha raiva, ou se é porque a mata também sabia que aquele era um lugar condenado.

Que cacete.

Não tem nada pra fazer. Nada. É um loteamento, e nesse país de merda não tem nenhuma regulação que exija conservação da mata, ainda mais pra lugares que não são lar de espécies ameaçadas de extinção.

Claro que não precisava ser assim, é possível fazer projetos que mantêm corredores de mata, mas duvido que seja o caso. Lá do alto do morro era possível ver os arredores: plantação grande de eucalipto, casas novas nesse estilo de uma quase colada na outra, gramado, nada de mata. E aquele pedacinho de mata que em poucos anos não vai mais existir, substituído pelas abominações.

Abominações.

Por que esses calhordas compram um terreno no meio da mata se é pra desmatar tudo? Pra ficar com uma araucária, plantar um monte de grama em volta, ter o relevo, e se sentir no meio da nature?

Não sei nada sobre o loteamento. De repente aquele topo de morro é uma exceção, e o resto será um loteamento com regras sobre o quanto pode ser desmatado, para manter o estilo, pra que o nome Forest Hill não seja uma piada. Talvez.

Não pensei em tudo isso na hora. Só descobri como tinha ficado abalada com a visão do campo de concentração pra retardados porque na volta pra São Paulo, ao ouvir “the age of miracles, it hadn’t passed”, caíram umas lágrimas, e quando cheguei aqui e o Cris perguntou como eu estava, comecei a falar do loteamento e voltei a chorar, muito, o Cris preparando um almoço rápido pra gente e eu uma inútil sentada na cadeira da cozinha, chorando sem parar.

Mas a era dos milagres não acabou. E talvez o Forest Hill não vire um lugar idiota cheio de casas monstruosas sem quintal.

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