Quem não tem vida sexual devia ser proibido de opinar sobre gravidez e aborto

Virgens, celibatários, assexuados, múmias, os que praticam sexo no casamento ou no namoro por mera obrigação e qualquer outro que não consegue enxergar a gafe do “só engravida quem quer, não tenho dó de quem engravida sem querer”: vocês não têm direito de opinar.

Quem é ignorante sobre um assunto não pode falar como se soubesse, você simplesmente perde o direito de se manifestar sobre algo que você não tem conhecimento.

Tudo bem não ter vida sexual. Nem todo mundo precisa ter vida sexual. Mas a questão é: se você não tem vida sexual, você não pode opinar sobre as questões que envolvem gravidez e aborto.

Só engravida quem quer?

Bastava ter usado camisinha?

Hoje em dia há tantos métodos de se prevenir, há tantas fontes de informação, é impossível alguém que não saiba se prevenir.

Pessoas que falam esse tipo de coisa com certeza não têm vida sexual. Me dá raiva, mas até entendo que esse povo tenha zero de consideração com o outro, de imaginar a realidade de pessoas que vivem na pobreza, miséria, violência. Mas esse tipo de comentário evidencia outro fato: esse povo não transa! Quem fala que só engravida quem quer com certeza não tem vida sexual, não entende o que é desejo.

E tem outra: muitas vezes não tem nada a ver com falta de informação ou de dinheiro pra comprar uma camisinha ou pílula. Como Drauzio Varella falou, até médicas ginecologistas engravidam sem querer. Por quê? Porque é muito fácil engravidar sem querer.

Eu já coloquei esse dado e coloco de novo: pesquisa feita em 2016 com 24 mil brasileiras que tinham acabado de dar a luz. Sabem quantas planejaram ter o filho? 45%. Pra 55% foi um oops. Desses 55%, 25% queria que fosse em outro momento, e 30% não queria ter filho em nenhum momento da vida.

https://g1.globo.com/bemestar/noticia/mais-de-55-das-brasileiras-com-filhos-nao-planejaram-engravidar.ghtml

Uns dias atrás o The Guardian publicou uma reportagem contando que em mais da metade dos estados americanos não há idade mínima pra casamento. Um cara de 40 pode se casar com uma garota de 5. Sherry Johnson está lutando pra ter uma idade mínima, 18 anos. É algo pessoal. Quando Sherry tinha 11 anos ela foi estuprada por um cara de 19, e engravidou. A família achou melhor exigir o casamento, para evitar o escândalo. Bonito, não?

Quando Sherry começou a luta para criarem uma lei, ela achou que não seria difícil. Que os políticos ouviriam as histórias e imediatamente concordariam que era preciso ter uma lei que proíba situações como a dela. Mas ela descobriu que não! Uma das políticas pra quem ela expôs a situação falou que não era a favor, porque “isso não vai elevar a taxa de aborto entre adolescentes?” — afinal, mulher é receptáculo de esperma e parideira, não uma pessoa.  Não importa o que uma gravidez indesejada ou mesmo vinda de um estupro cause pra vida da garota, só o que importa é não abortar, com a graça de Deus.

No ano passado a escoteira Cassandra Levesque (17 anos) iniciou uma campanha em New Hampshire, pra que a idade mínima do casamento seja 18, e sabem o que aconteceu? Os políticos bloquearam, colocaram uma lei pra impedir que o tema seja discutido pelos próximos anos, e falaram que ela não tem idade pra discutir esses temas.

Os dados nos EUA:

“Girls who get married before 18 have a significantly higher risk of heart attacks, cancer, diabetes and strokes and a higher risk of psychiatric disorders. They are 50% more likely to drop out of high school and run a higher risk of living in poverty. They are also three times more likely to become victims of domestic violence. Really, child marriage helps no one. The only people who benefit are paedophiles.”

https://www.theguardian.com/inequality/2018/feb/06/it-put-an-end-to-my-childhood-the-hidden-scandal-of-us-child-marriage

No Brasil é bem pior. http://g1.globo.com/educacao/noticia/2015/03/no-brasil-75-das-adolescentes-que-tem-filhos-estao-fora-da-escola.html. 75% das adolescentes que engravidam param  de estudar.

Uma reportagem do G1 de dezembro de 2017 traz estes números: 1 em cada 5 bebês nascem de meninas entre 10 e 19 anos. Em algumas regiões do país é 1 em cada 3.

“São muitas as histórias de gravidez precoce na Ilha do Marajó: Shirlene Alcântara, de 15 anos, ficou grávida com 13. Ela é casada com Claudiu Guedes, de 36 anos, que não é o pai de sua filha. Thais engravidou do primeiro filho aos 11 anos. Quando estava grávida do segundo filho, descobriu que tinha sífilis, mas não vai ao médico, pois o marido, de 18 anos, tem ciúmes.”

(…)

“Raimunda Vieira é agente de saúde na ilha e tem duas filhas adolescentes. A mais velha engravidou aos 15 anos. A mais nova, de 14 anos, está grávida.”

“Meu sonho era fazer intercâmbio, estudar e falar bem inglês. Mas esse sonho já foi. Eu sinto falta da minha liberdade”, lamenta Camila. Ela está em busca de emprego, mas está difícil conseguir uma vaga: “Quando engravidei, perdi todas as oportunidades de trabalhar”.

http://g1.globo.com/profissao-reporter/noticia/2017/12/uma-em-cada-5-criancas-no-brasil-e-filha-de-meninas-entre-10-e-19-anos.html

E tem a caixa de comentários. Que dá vontade de vomitar.

Se vocês não fazem sexo, se vocês não sabem o que é desejo e tesão, vocês não podem opinar. Criatura, se você realmente não acha horrível imaginar uma menina de 10, 11, 12 anos grávida, você é uma pessoa totalmente desalmada.

Tenho nojo de pensar em gente que lê uma história sobre meninas que engravidaram aos 11 anos, e só o que conseguem falar é “os agentes de saúde dão instruções, elas são culpadas porque tiveram relação sem proteção”. Tenho nojo da sua burrice e total falta de consideração pelo ser humano. Não sei o que é pior, a burrice ou total falta de empatia, de capacidade de imaginar o que é essa situação. “Os agentes de saúde dão instruções”, claro, nossos sistema de saúde é o melhor do mundo, os agentes de saúde são incríveis, cobrem tudo. Se os seus pais não conversam sobre sexo com você quando você tem 9 anos, aparece um agente de saúde na sua casa pra te explicar como não ficar grávida, pra te implantar um diu, ou pra te dar 2.000 camisinhas, pra fazer um treinamento emocional de como controlar o desejo e nunca fazer sexo sem proteção, ou técnicas de negociação com seu estuprador, para exigir que ele use camisinha.