Quem é contra a descriminalização do aborto contribui pra pobreza e violência no Brasil

Perguntas e respostas sobre o aborto

1  – Aborto é assassinato?

Depende das suas crenças.

Se você é católico rigoroso, aborto é assassinato.

Mas se você é católico rigoroso e faz sexo sem ser casado, ainda mais se usar camisinha pra se proteger de DSTs e gravidez indesejada, ou é casado e usa pílula ou camisinha em vez de ter quantos filhos o Senhor quiser te enviar, você já não é tão rigoroso assim, na verdade você está só escolhendo que pedaços da religião você quer seguir.

Pra ciência, há várias respostas possíveis sobre quando a vida começa, e a maioria delas não concorda que é quando o óvulo encontra o espermatozoide. Nos países desenvolvidos é consenso de que antes de 12 semanas o feto não sente dor, não tem nenhuma atividade cerebral, não passa de um aglomerado de células. Alguns estudos falam até de 24 semanas. Ou melhor dizendo: um óvulo é vida, um espermatozoide é vida, as células da sua pele são vida. Mas o que é uma pessoa? Você pode dizer que um óvulo que se encontrou com um espermatozoide automaticamente se tornou uma pessoa?

http://www.bbc.com/portuguese/ciencia/2010/06/100625_feto_dor_mv.shtml

http://www.nacaojuridica.com.br/2016/11/turma-do-stf-decide-que-aborto-nos-tres.html

 

Juridicamente, temos a declaração da atual presidente do Supremo Tribunal Federal, a sra. Carmem Lúcia:

Quando se põe em debate o aborto, o que se oferece, num primeiro lance de discussões, é se o embrião e o feto seriam pessoas, porque, a se responder afirmativamente, eles titularizariam o primeiro de todos como é o direito à vida digna, a qual, como antes lembrado, é intangível e inviolável. Mas não se há de ignorar que a vida é o direito que se exerce com o outro, no espaço das relações entre sujeitos, não se podendo anular, portando, a condição de pessoa-mulher que, em sua dignidade, é livre para exercer a escolha da maternidade ou não”, escreveu a ministra no livro.

— Carmem Lúcia, presidente do Supremo Tribunal Federal, no livro Direito à Vida Digna, 2004.

http://www.bbc.com/portuguese/brasil-39190495

A mãe é uma pessoa, com certeza, sem nenhuma dúvida. Dizer que o aglomerado de células também é uma pessoa, com mais direitos do que a mãe é a visão de quem não enxerga a mulher como um ser humano.

 

2 – Aborto não é ceifar a vida de um inocente?

Um inocente pressupõe uma pessoa. Há diversos conceitos de quando o aglomerado de células pode ser chamado de pessoa, e na maioria desses conceitos, antes de 12 semanas não há nenhum inocente pra ser ceifado, são apenas células, assim como um espermatozoide é uma célula e você mata 20 milhões deles toda vez que ejacula.

É preciso entender: dizer que a vida do inocente começa a partir do momento em que o óvulo encontra com o espermatozoide é apenas a visão que a Igreja Católica decidiu aderir. O conceito de vida é polêmico, mas a maioria dos cientistas discorda que antes de 12 semanas o aglomerado de células possa ser considerado uma pessoa. Na esfera religiosa, o catolicismo é a única grande religião que decidiu que a vida começa no instante do encontro do óvulo com o espermatozoide.

2. Judaísmo

“A vida começa apenas no 40º dia, quando acreditamos que o feto começa a adquirir forma humana”, diz o rabino Shamai, de São Paulo. “Antes disso, a interrupção da gravidez não é considerada homicídio.”

  1. Islamismo

O início da vida acontece quando a alma é soprada por Alá no feto, cerca de 120 dias após a fecundação.”

Quando a vida começa?

 

3 – Essas feministas ficam falando de meu corpo, minhas regras. E o direito dos inocentes??

Antes de 12 semanas, talvez até antes de 24 semanas, não existe nenhuma criança, nem mesmo um bebê. Não há consciência, não há dor, não há atividade cerebral.

Um aborto antes dos 3 meses não tem nenhuma semelhança com um aborto aos 9 meses.

 

4 – Provocar um aborto é antinatural

Os seres humanos fazem muitas coisas antinaturais. Me diga se o seu celular, a internet, uma prótese, avião, chegar à lua, satélites, uma cirurgia pra catarata, um transplante do coração parecem coisas naturais.

Mas se for pra pensar nos seres humanos como meros animais e comparar com o que os outros animais fazem, a natureza tem vários exemplos de animais que abortam e também de animais que comem ou matam suas crias recém-nascidas se elas representam qualquer tipo de risco pra sobrevivência do adulto. Quando um novo leão macho ganha um território e as fêmeas, ele mata os filhotes (os inocentes leõezinhos) porque eles contém a carga genética de outro leão. Matando os filhotes a fêmea entra no cio e ele poderá engravidá-la e passar os seus genes.

 

5 – Por que a mulher não fez o parceiro usar camisinha, ou por que ela não toma pílula? Hoje em dia há tantas formas de não engravidar, não é verdade que só engravida quem quer?

Não, não é verdade, esse é um argumento fantasioso e maldoso criado pelas pessoas que são contra o direito de abortar.

Qualquer um que tenha o mínimo de vida sexual ativa sabe como é fácil a mulher não estar tomando pílula, ou no calor do momento os dois ignorarem os riscos de uma gravidez ou DSTs e fazerem sexo sem camisinha, ou mesmo ter alguma falha como camisinha mal colocada.

Também existe a questão da pobreza: a maioria das jovens mães, em geral negras e pobres, que engravidaram sem querer, não tinham acesso a pílula, camisinha e informação.

Mesmo quem tem informação e dinheiro, como médicas ginecologistas, podem engravidar sem querer.

Sabe quantas mães brasileiras engravidaram por um oops, e não porque queriam o filho? 55%.

http://brasil.estadao.com.br/noticias/geral,55-das-maes-nao-queriam-ter-filhos-aponta-pesquisa,10000092047

“Estudo feito com 24 mil mulheres que tiveram crianças em 2011 e 2012 revela que gravidez não planejada predomina entre jovens pobres”

 

6 – Por que as feministas lutam tanto pela descriminalização do aborto? Elas são um bando de assassinas vagabundas que querem ficar trepando com qualquer um, engravidando e podendo matar o inocente a qualquer hora?

Feminismo é um rótulo amplo, mas a maioria das feministas são mulheres que atingiram um grau de informação e consciência capaz de enxergar os mecanismos que tentam manter a mulher como uma sub-pessoa, com diversos limites e restrições que existem só porque agir diferente traz algum incômodo aos homens.

Lutamos por diversos motivos, todos eles têm como conceito a noção radical de que mulher também é ser humano. Lutamos pelo direito de não ser assassinadas porque terminei o namoro, de não jogarem ácido no meu rosto ou tentarem me queimar viva porque falei “não quero namorar com você”, de não ser espancada, mutilada, estuprada. O direito de andar na rua sem medo de que um desconhecido vai se aproximar de mim com o pau pra fora batendo punheta, ou tentar me agarrar, ou me estuprar. O direito de ir a uma festa e não ter medo de que se eu ficar bêbada um colega vai me estuprar. O direito de não ganhar um salário menor só porque eu sou mulher, mesmo quando eu tenho as mesmas ou até mais competências e responsabilidades do que meus colegas homens.

Lutamos pelo direito de sermos vistas como pessoas, não como objetos pra enfiar o pau, pra ter prazer, pra tirar sarro, pra cuidar da casa, ou pra ser um receptáculo de esperma, ter que largar a escola, ser mãe solteira e deixar os bons cristãos com a consciência tranquila de que estão protegendo a vida dos inocentes.

 

Acredito que a maioria das feministas que panfletam pela descriminalização do aborto são como eu: têm informação, conhecimento, usam algum método contraceptivo (eu tomo pílula, e talvez neste ano implante o DIU Mirena. Enquanto não era casada, além de tomar pílula só fazia sexo com camisinha pra me proteger de DSTs). E se ainda assim eu tivesse um oops, como uma falha da pílula, e engravidasse, eu poderia pagar uma clínica e fazer um aborto com segurança.

Não estou lutando pelo meu direito de abortar.

Estou lutando pelas 1,6 milhão de brasileiras que tiveram filhos no ano passado, mas não queriam ter engravidado (os nascimentos são na casa de 3 milhões, com 55% de gravidez indesejada). A maioria delas meninas jovens, negras e pobres que têm que largar a escola e criar os filhos sozinha.

Estou panfletando não só pra que uma mulher não precise mais ter a vida virada de pernas pro ar porque o filho veio na hora errada, como também pra que os filhos não precisem crescer num ambiente tão precário, pobre, despreparado, que muitas vezes entrar pro mundo do crime parece ser a única solução.

Estou panfletando contra os 60 mil assassinatos por ano no Brasil, a maioria de jovens negros pobres de periferia, filhos de mães jovens, negras, pobres que tiveram o filho na hora errada e não tinham estrutura familiar pra criar bem esse filho.

 

Este texto é escrito por uma mulher que se preocupou menos ainda em esconder a raiva e frustração sobre o assunto https://www.cartacapital.com.br/blogs/escritorio-feminista/faq-do-aborto-legal-7594.html, mas tem informações importantes:

Pesquisa feita pela Universidade de Brasília constatou que a maioria das mulheres que abortam no Brasil tem de 25 a 39 anos, é casada, tem filhos e é cristã.

Jovens abortam, solteiras abortam, casadas abortam, mães abortam, evangélicas abortam, desempregadas abortam, trabalhadoras abortam, ricas abortam, pobres abortam. Se for prender todas as mulheres que abortam (e sobrevivem), vai faltar cadeia.

Mulheres que abortam não são criminosas, assassinas, monstras. São suas amigas, colegas, mães, filhas, primas, tias, namoradas, esposas, professoras, chefes, vizinhas. São cidadãs, são pessoas como você.”

 

Três perguntas pra quem é contra a descriminalização do aborto:

Por que a vida só é sagrada enquanto está dentro da barriga? Vocês lutam pra que o aborto seja proibido em qualquer circunstância (seja estupro, risco pra vida da mãe, má formação genética), mas a partir do momento que o bebê nasce, não há mais interesse por ele. Em que condições ele vai viver, se ele vai ter o que comer, se haverá pessoas pra cuidar dele, educá-lo, ajudá-lo a se tornar uma pessoa digna. Não importa que ele vá viver de forma tão sofrida e precária que é fácil entrar pro mundo do crime e morrer assassinado antes dos 30 anos. Por que a vida não é mais sagrada depois que deixa o útero?

Por que o direito do aglomerado de células, que sua crença religiosa diz já ser uma pessoa, se sobrepõe ao direito de alguém que não existe dúvida alguma de já ser uma pessoa, que é a mãe? A gravidez no momento errado diminui drasticamente as chances da jovem ter uma vida boa. Em geral são jovens pobres, que têm que largar a escola, trabalhar em subempregos ou viver de assistencialismo. Isso é justo? É justo destruir a vida de uma pessoa só porque você tem determinadas crenças?

Se você é contra o aborto, por que não é suficiente simplesmente você não praticar? Caso você tenha uma gravidez que veio fora da hora, você segue sua crença religiosa e leva a gravidez adiante, pronto. Por que você quer ferrar a vida de todo mundo? E todo mundo inclui a mãe que tem que largar os estudos e viver de sub-emprego ou de bolsa família, a criança que vai crescer num ambiente tão precário que muitos decidem entrar pro mundo do crime e morrer antes dos 30, e também as pessoas que serão roubadas, espancadas, estupradas ou assassinadas por alguém que sofreu tanto na vida que acabou indo pra esse caminho. Você está ferrando a vida de todo mundo. Todo mundo.

É por que você quer proteger os inocentes?

Por que o aglomerado de células é mais importante do que, por exemplo, trabalhar contra a pedofilia, a violência doméstica contra crianças, a exposição a drogas, o bullying, educação precária, pobreza, e tantas doenças e deficiências que as crianças – já nascidas, aí sim com certeza pessoas e não mais um aglomerado de células – sofrem diariamente?

Uma criança de 7 anos é menos inocente do que um bebê recém-nascido? Um trombadinha de 9 anos que bateu sua carteira e pegou o dinheiro pra comprar cola, passa fome, apanha da mãe, o pai nunca apareceu, esse também não é mais um inocente? Você é capaz de olhar pro seu filho, ou pra alguma criança querida, e imaginar como seria a vida dela se ela tivesse que passar fome, apanhar com frequência, não tomar banho sempre, não ter roupas bonitas, não ter dentista, não ter médico bom, não ter ninguém vendo se ela está indo bem na escola, se ela fez a lição de casa, se ela tem algum problema ou dificuldade. Em alguns casos sofrendo abuso sexual.

É isso que você está fazendo com centenas de milhares de crianças ao proibir legalmente e culturalmente as mulheres pobres de optarem pelo aborto.

Gravidez indesejada pode acontecer com qualquer mulher, mesmo médicas ginecologistas, como disse Dráuzio Varella. Quem tem informação e dinheiro paga uma clínica e resolve a questão. Quem não tem dinheiro e/ou sofre a culpa pelo discurso cristão tem o filho, de qualquer jeito.