Quando dois vagabundos se encontram. Fim de semana em Gonçalves – MG na pousada Bicho do Mato

Fotos de aves: Nikon D800 com Nikkor 300 f4 (a velha), tele 1.4. Macro e paisagem: Olympus TG3 à prova d´água.

Passarinhar do jeito que eu faço deve parecer, aos olhos de quem observa, uma das atividades mais estranhas e pouco produtivas que alguém poderia fazer. Sozinha, andando com velocidade de lesma ou imóvel observando árvores, ou então abaixada no chão, olhando essas florzinhas silvestres, essas pequenas que as pessoas pisoteiam como mato. Some-se a isso o fato de que chovia – às vezes uma garoa, às vezes chuva mesmo, e é fácil entender por que o cachorro teve pena de mim e achou que eu precisava de companhia.

Estava em Gonçalves – MG, na Pousada Bicho do Mato. Em frente à pousada, do outro lado da estrada, há uma área de mata em recuperação. Um pasto quando compraram, e agora a mata volta a tomar conta.

Havia alguns bichos típicos dessa vegetação de araucárias. Trepadorzinho, arredio-pálido, borboletinha, piolhinho, choca-da-mata,quete, abre-asa-de-cabeça-cinza, arapaçu-verde, sanhaçu-frade, maria-preta-de-bico-azulado, gralhas-do-campo, tucano-de-bico-verde. Pelo céu cruzavam psitacídeos barulhentos, provavelmente maitacas-verdes e tiribas-de-testa-vermelha, além de caracarás, carrapateiros, urubus, gaviões-de-rabo-branco. Mas na terra mesmo, era neblina, chuva, silêncio, fotos difíceis, bichos longe.

Claro que nada disso seria motivo pra voltar pro chalé. Não vou dizer que estava uma delícia, ou que eu não ficava pensando que talvez o certo fosse voltar. Mas fazia tanto tempo que eu não tinha a oportunidade do silêncio da mata, e ficava lembrando da frase do Vincent Munier, sobre também gostar quando ele não encontra nada pra fotografar, que o fato de ser difícil é um dos prazeres da atividade.

Por isso fiquei.

Quando meu chapa apareceu, primeiro pensei que pudesse ser um dos cachorros da pousada. No dia anterior, quando fui conhecer a trilha na companhia da Isabel, um cachorro começou a nos seguir e ela voltou para prendê-lo. Mas olhei de novo, e reparei nas costelas. Altivo, sem sarnas, sem machucados, mas magro demais. Um digno vira-latas.

Vocês devem saber que tradicionalmente birdwatchers votam contra cães e gatos que podem andar pela mata. Nossas queridas companhias domésticas matam aves. Dizem que gatos matam muito, que são causa de milhões de aves mortas por ano. E um cão vai afugentar qualquer chance de inhambu, macuco, tovacas, jaós, jacutingas, jacupembas, mutuns. Como a minha chance de topar com esses bichos era entre muito baixa ou nula, nem pensei em afugentar o cão.

Não o acariciei, não falei com ele. Mas não o enxotei. Uma hora que ajoelhei pra fotografar um desses matinhos, ele se aproximou, e sei que se eu tivesse feito a expressão certa ele teria lambido minha cara. Mas só continuei concentrada na foto, ele passou ao meu lado, sempre em silêncio.

Caminhamos pela trilha, em geral ele na frente. De vez em quando parava pra me esperar, e se eu estava num desses momentos de ficar imóvel olhando árvores e flores, ele até sentava ou deitava, com aquela pose de cabeça apoiada nas patinhas em total resignação.

Houve um momento em que latiu. Me assustou, eu estava fotografando um cogumelo, de um ângulo de baixo pra cima e minhas mãos tremeram. O latido não parecia ser exatamente pra mim, e sim uma exclamação de entusiasmo. Andava agitado, cheirando o chão, como quem encontrou o rastro de algo. “ah, se for uma onça parda!”. Mas só voltou a latir mais uma vez, depois ficou quieto, e logo parou de farejar. Alarme falso.

Em nenhum momento pensei que ele atrapalhava meu passeio, e sim o admirava por me entender tão bem, sem precisar de explicação alguma.

Já tomávamos o caminho de volta à estrada. Dizem que os bichos entendem… talvez ele soubesse que eu o levaria comigo, se morasse numa casa em vez de um apartamento, se não viajasse com tanta frequência. Perto da entrada da trilha encontrei o Evaldo, num raro momento em que também havia topado com um bando misto (um grupo de aves, de espécies diversas, que saltitam juntas pelas árvores, fazendo um arrastão pra comer insetos e frutas). O Evaldo viu o cão e falou “ah, não, cachorro não”. Logo as aves tinham sumido. Meu chapa também desapareceu. Ele não teria motivo algum pra ter se despedido de mim antes de ir. Já eu, me sinto em falta com ele.

Você pode saber bastante das pessoas, dependendo se gostam de gatos ou de cachorros. Eu sou do tipo que tinha cachorros em Limeira, mas nunca me senti dona deles, eram cães de guarda do quintal. Tive uma gata, uma lindeza vira-latas de olhos verdes, pelo totalmente branco, nariz rosadinho – enfim, o demônio. Pegamos como um filhote, cresceu sozinha, miava de cortar o coração enquanto a gente esperava o elevador, mas tínhamos que ir pra USP, e tornou-se obviamente uma gatinha anti-social, dessas que não gostam de carinho nem de gente. Voltaria a ter gatos, ou até mesmo pegaria a Lucca de volta, se não fosse a questão das viagens frequentes.

Nunca pensei em ter cachorros. Não me identifico com a carência, o amor incondicional, a necessidade de cuidados e atenção constante. Mas aquele vira-latas… tão silencioso, altivo, digno… que não pulava, não latia, não vinha lamber as mãos, caminhavam mantendo distância. Se eu vivesse de outro jeito, eu o convidaria pra ter um lar, comida, passeios na mata.

Não me despedi, não agradeci. Mas agradeço agora, com a melhor homenagem que consigo fazer, que é escrever no blog. Obrigada pela companhia. Quem sabe nos reencontramos em outra vida.