Qual a importância de incentivar a fotografia e divulgação dos parques e por que a mentalidade de fichas e controles é extremamente prejudicial a essa divulgação

No geral os gestores já entendem que a fotografia e divulgação do parque é algo positivo e desejável. Eles costumam nos falar “somos a favor da fotografia, podem fotografar, gostamos da divulgação”.

Podem fotografar. Basta preencher esse formulário dando seu nome, RG, CPF, endereço e declarando que você não fará uso comercial dessas imagens.

 

A exigência do formulário não é feita para qualquer pessoa que esteja fotografando, só àqueles que portam “câmeras profissionais ou semi-profissionais” — termos usados pelos gestores para nos explicar qual o critério para ser abordado.

Respondemos que:

1 – Não existe equipamento profissional. Profissional é a pessoa, caso ela consiga fotos boas o suficiente pra viver de fotografia. Um bom fotógrafo consegue fotos ótimas com uma compacta, com um celular.

2 – A mera posse de um equipamento top não transforma um amador num profissional, a câmera não tira fotos sozinha.

3 – Mesmo quando um amador consegue fotos de ótima qualidade, isso não significa que ele fará uso comercial daquelas imagens.

 

Sabemos que há uma lei federal que exige controle e pagamento de taxas no caso de fotografia comercial. Mas no caso específico de fotografia de natureza, o mercado brasileiro é tão pífio que essa obsessão por controle e formulários não faz o menor sentido.

– O Brasil não tem uma tradição cultural de pessoas que compram fotos, ainda mais fotos de natureza.

– Não existe fotógrafo de natureza que tenha ficado rico vendendo fotos ou livros. Sei do caso de um fotógrafo que conseguiu levantar bastante dinheiro com livros, mas por causa de uma licitação do governo. De outra forma, fotos ou livros de natureza são sempre um mercado difícil e incerto.  Aliás, qualquer publicação no Brasil é uma aventura.

– Quantos fotógrafos profissionais de renome existem no Brasil? Pouquíssimos. E o nome mais famoso, Sebastião Salgado, não fez a fama fotografando natureza brasileira. A estimativa é de mais de 50 mil fotógrafos de aves, amadores. Muitos deles têm fotos lindas, mas isso não é suficiente pra transformar a pessoa num profissional.

– A grande prova do quanto o mercado de fotos de natureza é pífio é a pequena quantidade de fotógrafos famosos e o deserto de publicações. Entre numa livraria e veja quantos livros há no país com a maior biodiversidade do mundo. Tenham certeza disso: existe muita gente apaixonada por fotografia de natureza, e que conseguem fotos bonitas. Mas isso não transforma a pessoa num profissional, não há mercado.

– Leiam entrevistas dos profissionais. Mesmo quem conseguiu algum renome, publicar livros, dá conselhos como “não largue o seu trabalho para virar fotógrafo de natureza, você tem que ter uma atividade que paga as contas”.

– O mercado publicitário pode pagar valores altos por uma foto. Mas não num volume suficiente pra criar um mercado, fora que em geral é muito raro uma agência comprar uma foto, ela vai contratar um fotógrafo para produzir uma foto com as características tais.

 

Não há mercado de fotografia de natureza no Brasil, e a tendência é piorar. A cada ano, a cada mês, há muito mais pessoas comprando câmeras, ou melhorando o equipamento que já têm, e tirando suas próprias fotos. Vocês têm ideia do valor sentimental de uma foto feita por você mesmo? A do colega, ou do profissional, pode ser perfeita tecnicamente, muito mais impressionante, mas ela nunca vai superar o valor sentimental da sua própria foto.

O Wikiaves recebe apenas uma fração das fotos produzidas no país, e mesmo assim já está casa dos 2 milhões de fotos. Como alguém pode ganhar dinheiro com algo tão abundante?

Não há mercado pra fotos de natureza. Pessoas físicas não compram fotos, elas querem tirar suas próprias fotos. Empresas compram imagens, mas os bancos de imagem são cada vez mais abrangentes e baratos. A natureza brasileira é apenas um tema entre milhares.

Qualquer pessoa com um mínimo de conhecimento de fotografia de natureza sabe dessas coisas, e esse é um dos motivos da gente ficar tão revoltado com as restrições à fotografia de natureza, com o discurso “sua câmera é profissional” e “precisamos controlar o uso comercial das imagens”. Essas frases significam que os gestores que passam as orientações aos seguranças não entendem nada de fotografia. A fotografia é uma das principais atividades de qualquer turista, talvez a principal. Mas os gestores dos parques acham que não precisam se atualizar sobre um tema tão importante.

 

A grande maioria dos fotógrafos de natureza nunca vai ganhar nenhum dinheiro com suas fotos, pelo contrário, só gastamos, e gastamos muito. Há sempre um upgrade de equipamento, seja a câmera ou o computador ou o software de edição de imagens, seguro do equipamento, cursos, gastamos com viagens, guias, hospedagem, alimentação, gasolina, roupas, sapatos, repelentes, protetor solar, mochila, há uma lista sem fim de gastos.

E adivinhe: adoramos. Adoramos fazer esses passeios em meio à natureza, contemplar, fotografar. E sermos os donos das nossas fotos. Pra que elas sejam nossas, e possamos fazer o que quisermos com ela. A probabilidade de conseguir ganhar dinheiro com uma imagem é ínfima, mas entenda o valor emocional da nossa atividade, dos nossos passeios, da nossa paixão: as fotos são nossas. A ideia de que um parque vai nos dizer que a foto não é nossa é insuportável.

Essa mentalidade de burocracia e controle faz um enorme desserviço pra divulgação da natureza. Estados Unidos, Europa, não existe essa história de controlar o que as pessoas fotografam, o que facilita muito a divulgação dos lugares naturais. As pessoas fotografam, inclusive os profissionais, e todo mundo pode divulgar as fotos com orgulho, e dizer “Foi no parque tal, vocês precisam conhecer, esse lugar é incrível”.

Já aqui no Brasil, sabem como é? Eu, e imagino que muitas pessoas, não sentem a menor vontade de fotografar cenários bonitos das Unidades de Conservação porque sabemos que aquelas imagens não nos pertencem. Há cenários lindos nas UCs? Há. Mas também tem muitas belezas em beiras de estrada, muito melhor gastar meu tempo fotografando algo que eu nunca terei que enfrentar um perrengue ridículo.

E quando você fotografa um bicho, ou uma flor, algo que a imagem não diz onde foi feito, que pode ter sido em qualquer lugar? O melhor também é só dizer o nome da cidade, área rural, mas se tiver sido dentro de um parque, melhor não falar disso porque assim a foto será sempre sua.

Isso quando você vai fotografar dentro de um parque. Porque eu, por exemplo, se puder escolher prefiro fotografar nas áreas externas ao parque, em geral o habitat é parecido, a maioria dos bichos que estão dentro do parque também estão na estrada do lado de fora, e assim nunca terei um pingo de preocupação.

Entendem como essa mentalidade de querer controlar e possuir as fotos das pessoas causa uma tragédia pra divulgação da natureza brasileira? E tragédia exponencial, porque quanto mais competente o fotógrafo, mais ele tem motivos pra não querer problema jurídico, em ter o direito de ser sempre dono da foto sem dever nada pra ninguém. Mais motivo ainda pro amador competente, ou o profissional, querer fotografar em áreas particulares ou beiras de estrada, e não num parque.

 

Então, prezados gestores, espero ter conseguido explicar como essa política de “é só um formulário, basta dizer que não fará uso comercial” prejudica de forma tão grave a divulgação da natureza brasileira.

Por favor. Se não acreditam em mim contratem um consultor, ou arrumem alguém que entende de fotografia e peçam pra pessoa lhe dizer qual o tamanho do mercado de fotografia de natureza no Brasil, e qual o valor emocional que um amador dá para suas próprias fotos. E vejam como vocês têm podado, há anos, o registro e divulgação da natureza brasileira.