Provas de amor e de amizade

Pra contrariar aquela teoria de que só fazemos amigos na infância e na adolescência, sou uma sortuda que conseguiu amigos depois da vida adulta. Amigos. Amigos de verdade, nada dessa história de conhecidos ou colegas que os parvos gostam de chamar de amigos.

Meus amigos são gente com quem converso sobre assuntos íntimos, importantes e vexatórios, cuja felicidade me importa, que eu sei que posso falar de um monte de coisas e eles não vão me julgar com posições pré-concebidas, e se não concordarem vão respeitar ou tentar entender em vez de pensar que sou uma idiota ou o anticristo. Gente que eu sou capaz de sair de São Paulo e ir encontrá-los, principalmente se for pra ajudar em alguma coisa. Exceção pra Claudia Covolan, que eu só conheço de conversar por internet mas é amiga de verdade, e me envergonho de não ter ido vê-la quando a Bianca morreu. Fiquei naquela de “vou, não vou? Vou atrapalhar? É invasivo pra família?”, mas foi idiotice, eu devia ter tido porque um abraço apertado num momento de tragédia nunca é demais.

 

Sabe qual é a prova da amizade verdadeira?

Ela não existe.

Diferente do que muita gente tenta catalogar, exemplificar, não existem coisas pra se fazer e provar que é amigo. Há muitas coisas que uma pessoa pode fazer pra mostrar instantaneamente que é traíra, invejosa, peçonhenta, mau caráter, e você deve se afastar dessas pessoas. Mas pra provar que é amigo mesmo, não é assim que as coisas funcionam. E se você precisar de provas de que a pessoa é sua amiga, está indo pro caminho errado.

É errado pedir provas de amizade, dessas só pra testar. Ou então, as idiotices do “quem for meu amigo mesmo, posta uma frase aqui”, gente, que vergonha dessas modices que só servem pra expor sua carência e fragilidade.

Você não deve pedir provas de amizade. Mas eu acho que uma amizade verdadeira está diretamente relacionada com poder confiar na pessoa e ser socorrido quando você precisa de ajuda. Não por coisas banais, não pra abusar de favores. Mas pras coisas importantes, que depois de ponderar você decide pedir ajuda. Ou então, em situações que todos sabem que você está com problemas. Mas tem que ser daquelas em que realmente todos sabem, pode acontecer do seu amigo estar por fora. Se não é daquelas coisas que todos sabem, você precisa ser capaz de pedir, porque ninguém é obrigado a adivinhar.

 

Uma das minhas amigas amadas que conheci depois de adulta, talvez a gente tenha turbinado a relação porque aconteceu de eu estar com ela numa situação em que ela estava frágil. Ficou marcado pra sempre o gesto de carinho que ela fez no dorso da minha mão, num momento em que ela estava lá, fragilizada, e eu do lado dela.

Ela me liga sem precisar de motivo, é capaz de falar “o que você tem? Sua voz parece triste”, num dia que estou meio triste mesmo, e explico pra ela. Ou então num outro momento é capaz de me ligar pra falar que eu não preciso viajar pra cidade tal, onde vai ser a festa de aniversário dela

“se vocês fossem pra passear e curtir, é uma coisa, mas é longe, pra ir num dia e voltar dois dias depois é muito cansativo, você não precisa ir”

“sabe que eu gosto muito de você e não queria mostrar nenhuma desconsideração”

“imagine, a gente já passou dessa fase faz tempo, não tem nada que você precise provar, não é o fato de ir ou não ir no meu aniversário que muda nossa relação, a gente se gosta do mesmo jeito”. Momentos pra encher o coração. Alegria e orgulho de conhecer gente grande assim, generosa assim.

Ontem uma outra amiga muito amada me escreveu, pedindo mil desculpas por fazer tempo que não escrevia. Ela contou que fica lendo o blog e conversando mentalmente comigo, e esquece de escrever :), outra fofura. Fiquei pensando se ela imaginou que eu estava dando algum recado com essa história de “não quer ser meu amigo, foda-se”.

Eu falei pra ela, e falo aqui: não faço isso. Se você é meu amigo e eu tiver um problema com você, vou falar com você. Não vou ficar dando indiretas. No blog eu posso escrever pra xingar, pra desabafar só porque é o meu blog pessoal. Mas nunca será uma indireta. Talvez eu até esteja falando mal de você :), mas se não fui falar com você, é porque concluí que não tem motivo, que não há nada pra resolver.

 

Amor e amizade não servem pra ser testados só pra satisfazer o ego. Amor e amizade servem apenas pra ser vividos, sorvidos, aproveitados, momento a momento, cada segundo. Sem precisar de provas, de rótulos ou classificações.

Gosta de alguém? Gosta da companhia de alguém, de conversar com alguém, de passear com alguém? Aproveite isso, sem precisar dar rótulo nenhum.

 

Apesar de ser contra rótulos ou testes, eu faço uma distinção: eu sei quem são as pessoas que gostam de mim, se preocupam comigo, e que me ajudam, já me ajudaram e me ajudarão se eu precisar, e por essas eu tenho uma consideração especial. Porque ingratidão e falta de consideração pela bondade é uma das atitudes mais desumanizadoras que existe.