Problemas com a verdade e a japonicidade

“Ou você é editor, ou você tem amigos”.

A frase completa era “vocês estão no segundo ano do curso, então já devem ter percebido que ou você é editor, ou você tem amigos” — frase da Maria Otília, uma das minhas professoras do curso de Editoração.

Tenho poucos amigos.

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L, é pra você, vou responder aqui.

Acho que é um problema de orgulho. Pode ser um pouco de personalidade, pode ter uma carga étnica. Umas semanas atrás ouvi uma história sobre uma garota, descendente de japoneses, que pediu demissão. Ela era uma boa profissional, mas estava insatisfeita com a demora em ser promovida. Arrumou emprego em outro lugar, e na entrevista de desligamento falou dos descontentamentos. Na semana seguinte, a estagiária da área foi promovida.

Eu e o Cris ficamos pensando que se japonesa tivesse ido falar com os chefes antes de ir procurar outro emprego, talvez ela tivesse conseguido a promoção.

Mas talvez ela seja como eu, e talvez seja a mesma coisa pra muitos orientais. Já viu uns posts em que eu falo “quem quer, quer, quem não quer, foda-se?”. Talvez ela tenha pensado “se meus chefes não conseguem enxergar meu valor, não sou eu que vou falar pra eles, eu não vou pedir nada”.

Eu também nunca pedi aumento de salário na vida. E nunca pedi amizade, carinho ou atenção.

É um defeito. Não consigo me ver pedindo, me sujeitando, aguentando.  Amor carinho e atenção não se pede. Em situações de conflito, vou bater de frente e falar o que está errado. E se não posso, vou embora. E se não posso enfrentar, porque o oponente é truculento demais, grande demais, violento demais, ou vou embora ou bugo. Como nos ataques do Ark em que não há diálogo, não tem argumentação, é só você implorando — e eu não me vejo implorando, nem tendo que ouvir besteira.

Pessoas que são capazes de lidar com essas situações, como o Daniel ou você, estão mais habilitadas pra lidar com a vida.