Problemas com família, dinheiro, gostar de si, vida estagnada

oi meu amigo. Vou te responder pelo blog porque é daqueles assuntos que pode interessar a outras pessoas.

Problemas na família, problemas com dinheiro, auto estima pela parte visual do corpo, vida estagnada

É foda.

Posso não ter problemas com dinheiro agora, mas passei um bom tempo da minha vida vivendo com pouco, sei o que é querer ter roupas bonitas e não ter dinheiro, querer fazer passeios ou sair com os amigos e não ter dinheiro.  No geral não tenho problemas com a família, mas quando aparecem é como um elefante na sala. Também sei o que é ser infeliz por pensar “não sou bonita, não sou atraente, quem vai se interessar por mim”. E também sei o que é se sentir estagnado, pior até, achando que nada nunca vai acontecer na minha vida, pra que continuar vivendo, será que eu não devia simplesmente saltar da janela do 12o?

Vou te falar de coisas que já conversamos, espero que você não se importe de ouvir de novo. Eu não me importo de escrever de novo, porque sei que nossos problemas não desvanecem como fumaça. É um longo caminho numa espiral, a gente passando sempre pelo mesmo ponto x, mas um pouquinho melhor no y.

Vou falar de cada tema.

Família

É horrível ter problemas com a família e sei como é difícil não pensar neles, como eles parecem ocupar tudo, contaminar tudo. Mas também é verdade que o ser humano é inteligente e adaptável, especialmente os misantropos 🙂 Se você tem problemas frequentes com a sua família, você tem que criar suas formas de desconectar deles. Válvulas de escape. Pequenos rituais.

  • Você pode escrever furiosamente tudo que gostaria de falar pra eles e não pode. Guarde isso, ou queime, imaginando que sua raiva está queimando junto.
  • Montar uma trilha sonora especial pra ser ouvida muito alto nos fones, e depois dessa meia ou uma hora de terapia musical você abre os olhos, grita muito (se não puder gritar, se imagine gritando), e fala coisas como “cansei dessa bosta”, “eu não mereço isso”.
  • Arrume alguma atividade física extenuante.
  • Invente uma novela em que as pessoas da sua família são os personagens, e você os coloca nas situações mais absurdas, os diálogos mais cafonas, as situações mais Tarantino ou Irmãos Cohen. O humor sempre ajuda.
  • Crie algum ritual de ir pra um determinado lugar jogar pedras no mar, ou ir comer alguma comida específica, ou ir pra algum ponto da cidade desenhar.

Alguma coisa você tem que fazer. Quando os problemas são pesados, em geral só pensar não adianta, a gente fica no loop. Uma ação, atividade, ou mesmo só de escrever pode te ajudar a sair dele.

E como você falou, é sempre importante lembrar que você não tem culpa da sua família ser como é. E que sua família não é você, vocês são entidades separadas. Muita gente vive como se fosse uma coisa só, mas é totalmente possível ter vidas independentes e ser honrado. Você pode se afastar deles, e se aproximar quando precisarem de ajuda — e você puder ajudar.

 

Dinheiro, gostar de si, auto-estima

é muito difícil mesmo. E esse problema em geral afeta todas as outras áreas. Não sei bem em que nível são seus problemas, se é de não conseguir pagar as contas, ou se é de não poder comprar uma calça, um sapato, sair no sábado com os amigos. Desconfio que não seja no nível de não conseguir pagar as contas, então vou escrever por aí.

É chato não ter dinheiro. Mas não é motivo de vergonha. Sei que é uma droga não ter dinheiro pra comprar uma calça nova, mas fazer o quê? Ninguém que presta vai te apreciar menos porque você não está com roupas novinhas ou da moda.

Sair nos fins de semana custa dinheiro mesmo. Mas você pode pesquisar e sugerir locais mais baratos ou até passeios que não custem, que sejam só caminhar por algum lugar.

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Você tem que enfiar na sua cabeça que ter pouco dinheiro e não ser sarado não são motivos pra alguém não gostar de você. A história da menina que te esnobou? Foi feio o que ela fez, entenda que ela é a feia nessa história, não se trata as pessoas assim. E qualquer um que te desprezar porque você não está com roupas novinhas ou porque não tem um super bíceps, essas pessoas não te merecem.

Tenha certeza de uma coisa: quem vale a pena você se conectar, seja como namoro ou amizade, não vai ficar reparando se você está com roupas bem novas, se você é bombado. Se as pessoas julgam por isso, elas não servem pra você.

Não tem nada de errado com você, pelo contrário, você tem muitas qualidades.

ESPERO SINCERAMENTE que você esteja trabalhando na porra da sua lista de qualidades (quando você me viu usando maiúsculas no blog ou nos emails?), e que a lista esteja grande. É uma das poucas coisas bem simples e eficazes que a gente pode fazer pra combater os quartinhos fedorentos, e se você não estiver trabalhando nisso, se  tenta escrever e não sai nada, você está muito fraco e covarde. Tem que escrever, com a generosidade como se estivesse falando de um amigo querido. Só que é muito mais do que isso, é você, e você tem que cuidar muito bem de você. Você é a pessoa que mais devia te amar e saber sobre você.

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Aura, energia, projeção. Saber de cor suas qualidades e por que você é incrível. Se olhar no espelho até saber que você é lindo e incrível.

Quando comecei a namorar o Cris eu era pobre, tinha espinhas, cabelo curto, dentes tortos (não são muito retos até hoje, mas os dois da frente eram desalinhados), usava óculos. E o Cris era o sócio-diretor da empresa onde eu trabalhava, recém-separado, alto, filho de europeus.

Se eu pensasse “sou pobre, feia, quatro-olhos, japonesa, sem graça” nunca haveria nem chance da gente começar um relacionamento, porque quando a gente pensa assim, nós projetamos isso na nossa energia, nas nossas ações e palavras. A gente se boicota na linguagem corporal, nas coisas que a gente faz, nas nossas decisões e pensamentos.

Essa é a fonte de tantos problemas das pessoas.

Mas você, meu amigo, tem a possibilidade de superar isso. Com a porra da sua lista, e com uma mudança na sua disposição em se dar mal e se machucar.

 

Vida estagnada

Onde a mágica acontece?

Não é fechado em casa. Não é na rotina do dia a dia, fazendo sempre as mesmas coisas, vendo as mesmas pessoas.

A mágica acontece na interação com outras pessoas. Seja amigos, amor, inimigos, traíras. Você tem que se relacionar mais, se abrir mais, experimentar mais, se foder mais.

As pessoas têm essa ideia tão, mas tão errada de que você tem que se proteger, se resguardar. Não.

Pensa bem: “se proteger, se resguardar”, sabe o que é isso? É ficar dentro de uma caixinha.  Colocar uma parede de vidro entre você e o mundo. Seguro, tranquilo, sem perigos. Bom, não? Só que estéril também. Estagnado. Morte.

Bom, eu sei que esse seu ressabiamento tem a ver com sua insegurança. Mas você é um misantropo. Usa a porra da sua inteligência pra alimentar a porra da sua lista (espero que você esteja rindo como eu estou). Pare de ser injusto com você, olhe pra você com mais carinho, com menos distorção.

A gente é tão inteligente, pra que serve tanta inteligência se a gente não consegue nem mesmo nos julgar? Se a gente não consegue pensar nas coisas, nas pessoas, na gente, aplicando princípios e valores? Posso estar mal no quesito dinheiro, roupas novas, bíceps? Mas esses são os meus valores? As pessoas que eu quero perto de mim, eu gostaria que esses fossem os valores delas? Claro que não? Então por que eu estou me preocupando tanto com isso? Só porque isso parece ser o que mais importa pra tanta gente? Foda-se o que a maioria das pessoas quer, eu sou uma pessoa especial e incrível, sei que existem outras pessoas como eu, e mesmo que sejam poucas, eu vou me conectar com elas.

 

Você vai gostar mais de você. Pensar em você com mais generosidade. Se olhar no espelho e gostar de você. Pegar seu celular ou alguma camerazinha e tirar várias fotos de você, até ter várias que te representem, que você esteja lindo, brilhante, confiante, o que você quiser projetar. E vai pensar em você assim.

Você vai ter que se expor mais. Se relacionar mais, arriscar mais, e com isso provavelmente você vai se foder mais, mas isso é o que estar vivo. Fora da caixinha protetora.

Você tem que conhecer mais gente, e você tem que ser menos fechado. Não tem outro jeito de deixar de ter vida estagnada.

“Elas vão me machucar”, dane-se. A gente está tão acostumado a dores e problemas, vai doer na hora, depois sara. Pensa em quantas pedreiras você já enfrentou na vida, que você enfrenta. Uma a mais ou a menos. Você é forte! Só precisa tirar da cabeça essa ideia de agir pra se resguardar, pra não se machucar, porque isso também te impede de viver.

 

A porra da lista.

O hábito diário de se olhar no espelho e saber que você é uma pessoa incrível por tais e tais e tais e tais motivos.

A consciência de que mais de 90% das pessoas não valem a pena, então, se estou me dando mal, tenho que lembrar que a proporção de acerto e fracasso vai ser por aí.

Se livrar totalmente do medo de se ferrar. De ser julgado. Das pessoas falarem mal, de ficarem rindo pelas suas costas. E daí? Exponha-se mais. Você pode ter os risinhos dos que não te interessam, mas vai atrair a atenção dos 10% com quem vale a pena se conectar.

Extirpar dos seus miolos a ideia de que tem algo de errado com você. Se você não conseguir de uma vez, faça um teste. Alguns dias, brinque de personagem, de andar com se você fosse uma pessoa que é lindo, incrível, inteligente, sensível, carinhoso, leal, ponta firme, sabe desenhar, não tem problemas cabeludos — ou melhor, que consegue separar as coisas, e sabe que os problemas cabeludos não são você, que você não tem culpa de nada. E que também sabe que a vida é finita, absurdamente bela e frágil, e que a gente tem a obrigação de viver todos os dias horando essa consciência, tentando fazer do nosso dia um dia bom.

A gente tem que cuidar da gente. Temos obrigação de nos conhecer, gostar de si, nos amar, ter uma vida boa. Você é misantropo, você tem consciência sobre si e sobre o mundo, não tem desculpa pra não agir, pra não lutar contra os seus quartinhos fedorentos e vencer.

Ame-se mais.