Preciso do seu olhar pra saber quem eu sou

Quando comecei a namorar o Cris uma das coisas lindas que ele me falou é que precisava do meu olhar pra saber quem ele era. Minha cara está aí, em posts diversos. Imaginem o quanto não chocou a burguesia quando correu a notícia que um sócio-diretor recém-separado estava saindo com alguém como eu. Cristian ficou louco. Só macumba explica. Não entendo.

Contrariando tanta torcida e energia positiva, durou. Mais de 10 anos já.

Teve alguns motivos pra gente ter dado certo (e muito mais motivos pra não dar certo). Mas no balanço de tudo, acredito que esse foi um dos motivos fundamentais: o meu olhar. O que você faria se encontrasse alguém que te ajuda a saber quem você é? Alguém cujas observações ou perguntas fazem você se entender melhor, se construir, se dilapidar, ser mais feliz. Mas não é no divã uma, duas ou três vezes por semana, e sim ao longo do seu dia, às vezes diluído, às vezes intensificado pela convivência como casal. E é um olhar amoroso, de quem te conhece mais do que você mesmo, e ainda assim te ama.

Tenho inúmeros motivos pra ter me apaixonado pelo Cris, mas na historia que construí, se fosse pra explicar pra alguém, a primeira frase que me vem à cabeça é que me apaixonei por ele porque ele não tinha medo de mim. Pareço uma criatura com opiniões e franqueza demais? Imaginem como eu era 10 anos atrás. Muita fúria e certezas juvenis mas sinceras, se chocando frente à indiferença, descaso, medo, tacaquinhes. Foi a pessoa que fez eu sentir que não era errado viver com essa tempestade por dentro. Mais do que isso, que era possível alguém se apaixonar com alguém com uma tempestade por dentro.

O Cris é meu amor. Hoje tenho tido tomado o cuidado de panfletar que ter um grande amor é apenas um dos caminhos possíveis, que é possível seguir outros, mais difíceis eu sei, já que temos poucas referências no imaginário sobre como é ser mulher e viver sem um grande amor. O Cris é meu amor, a pessoa com quem quero viver a vida toda. Mas não é a pessoa que me traz essa sensação de conforto do olhar.

Hoje, por algum motivo que não sei explicar direito, senti saudade da pessoa que me trazia essa sensação deliciosa de ser observada atentamente, analisada, e aprovada. Não passei muito tempo com ele, mas todas as vezes em que ficamos juntos, ele estava lá, comigo. Não de corpo presente e a mente divagando, nem havia esperto-fones ainda, mas já era uma qualidade ser capaz de estar inteiramente em um lugar. Uma pessoa com um raro entendimento e compaixão pelos seres humanos – assim me parecia, foi por um post que demonstrava tanto carinho pelas pessoas que me interessei por ele, e depois conheci e catei. Olhos lindos que me encaravam sorrindo, com um ar de quem estava se divertindo por eu ser peralta. E destemida. Alguém pra pegar a carteirinha da UNE da minha mão pra analisar minha foto e dizer como parecia outra pessoa, ou pra pegar um papel em que escrevia números… talvez meu telefone?, e comentar o quanto meus oitos são desencontrados, que eles nunca iriam se encontrar. Pra conversar sobre qualquer assunto. Alguém tido como muito culto e inteligente, e que conseguiu no mesmo dia me fazer uma ofensa que eu rompi com ele e nunca mais o vi, e também um elogio sem tamanho que nunca vou esquecer.

A ofensa foi um momento de fraqueza. Eu sabia que ele tinha um encosto, não me pergunte como, mas eu sabia. E sabia também que era influência desse encosto a noite que ele chegou pra me falar disparates, frases cheias de sarcasmo e injustiça sobre um assunto idiota, nem era sobre mim, era sobre algo que eu teria feito pra magoá-lo. Ficou falando, falando, até me fazer chorar. E quando eu já tinha decidido ir embora e nunca mais olhar pra cara dele, de repente ele voltou a ser a criatura doce que eu conhecia. Mas então já era tarde demais.

As últimas palavras que ouvi dele, o elogio sem tamanho já que era vindo de uma das pessoas mais brilhantes que eu já tinha conhecido,  foi me falar “mas me diga que eu estou errado… me convença que eu estou errado, como você sempre faz”.

Olhando pra trás, a conversa que me fez chorar não seria motivo pra romper com alguém. Sei que teve uma parte de orgulho e humilhação pública, foi na frente dos conhecidos, e eu também tinha o meu blog e a minha imagem de criatura independente e amoral. Mas nessa época eu também estava saindo com um outro cara, e os motivos se juntaram. Não havia motivo algum pra eu ficar ouvindo desaforo daquele.

Mas sinto saudade. E se não fosse pelo outro, acho que eu teria engolido a humilhação e feito as pazes.

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E esta é minha garrafinha de hoje. Se por algum motivo maluco você estiver lendo este post, só queria dizer que sinto saudades e torço pra que seu fatalismo e crença num destino trágico tenham se quebrado frente a alguma mulher muito legal, que te provou o quanto você estava errado sobre tantas coisas.