Pra você que está cansado das notícias sobre denúncias de abusos, racismo, humilhações etc

Você acha que já deu essa história de todo mundo ficar denunciando qualquer apalpada, brincadeirinha, tirar a roupa e se masturbar na sua frente, falar que é coisa de preto, mandar adolescentes transarem ou tentar transar com adolescentes e outras chatices?

Senta e chora, porque não vai parar.

Bem-vindo ao mundo real.

Se você nunca se sentiu humilhado, constrangido, ameaçado por desconhecidos ou colegas e acha que as notícias sobre as denúncias dessas situações são só uma aporrinhação sem fim, tente, apenas tente, pensar no seguinte: se é chato ler notícias, imagine como é viver a situação.

Você tem ideia do que é desconhecidos ou colegas se acharem no direito de te falar qualquer bosta, te xingar, pegar no seu corpo, ou colocar o pau pra fora e bater punheta na sua frente — só porque eles sabem que não há punição pra isso, e eles podem fazer o que quiserem?

Tenta imaginar o que é ser negro e ser tratado com desconfiança ou desprezo em várias situações, não importa o que você faz. Tenta imaginar o que é não ser heterossexual e ter pessoas que xingam, espancam e às vezes matam só porque você não pensa como elas. No caso das lésbicas, já ouviram falar da cura? Mulheres estupradas sob o argumento de que vão “curá-las” e elas vão se tornar hetero?

Tenta imaginar o que é ser criança e depois adolescente, ter feições orientais e ficar tensa todas as vezes que você vai passar por homens ou garotos, a espera do momento em que eles vão te seguir andando do seu lado, puxando o canto dos próprios olhos e falando coisas que eles acham que soa como chinês, ou passam por você e gritam “banzai!”, “japoronga”, “japonês gosta de arroz, néeeeee”, ou as coisas como “gostosa”, “tesão”, e os sibilos e olhares nojentos. Eu menstruei com menos de 11 anos, aos 12 já tinha seios e tinha que lidar com essas situações todos os dias na volta da escola.

Faz mais de 20 anos que moro em São Paulo, onde ninguém mexe com você por ser oriental, e é raro mexerem com mulheres usando roupas comuns. Mas foram muitos anos pra parar de ficar tensa quando tenho que passar por homens na mesma calçada, e meu cérebro desenvolveu algo que talvez eu nunca perca: uma incapacidade de reparar no rosto das pessoas quando estou andando em lugares públicos. Eu sentia tanta raiva e vergonha, não queria ficar com o rosto daqueles homens na memória, então andava nas ruas como se essas pessoas não existissem, olhando pros carros, árvores, casas — mas nunca pra rostos. Até hoje sou capaz de passar do lado de um amigo meu, e se ele não falar comigo não o verei.

Pensar nessas coisas ainda dói, ainda trazem lágrimas. Parece que é coisa do passado, mas vi que não é, aquela história de dois anos atrás quando o condutor do nosso bote de rafting fez uma piada sobre japonês ser tudo igual, e eu fiquei triste na hora, e depois chorei várias vezes em casa e ainda choro agora. E isso é só um bullying leve. Tente pensar no que os negros e gays passam, todos os dias. Tente pensar no que as mulheres passam, todos os dias.

E o Rodeio das Gordas, sabe o que foi? Unesp de Araraquara, em 2010: “no ‘rodeio das gordas’ os alunos se aproximavam das garotas fazendo perguntas, como se fossem paquerá-las. Depois, agarravam as garotas, de preferência obesas, e tentavam ficar sobre elas o máximo de tempo possível, como se estivessem em um rodeio. Ao menos 50 estudantes participaram do ‘jogo’.” http://g1.globo.com/sp/sao-carlos-regiao/noticia/2013/05/envolvido-em-rodeio-das-gordas-tera-que-desembolsar-30-salarios-minimos.html

Bom exemplo do que o ser humano pode fazer quando acha que tudo que importa são os risos e a diversão (dos abusadores).

Se você é do tipo que fala “ah, esse assunto já deu”, tente imaginar ter uma filha, que corre o risco de ser abusada ou estuprada numa festa, na escola, pelo chefe, por um desconhecido. Ou xingada e humilhada se ela não estiver dentro de um padrão estético. Ou assassinada por um ex-namorado ou um garoto com uma paixão doentia e não correspondida.

Tratar os outros como coisas e não como pessoas cria tentáculos malignos, que vão além muito além da chacota e humilhação verbal.

Talvez um dia os abusadores parem de abusar porque entendem que estão machucando o outro. Mas por enquanto, que eles parem de abusar por medo de serem punidos.