Pra você que é difícil, chata e complicada

Confie em você e nos seus valores. Tenha clareza sobre o que é importante pra você, sobre o que machuca, e lute. Lute por você. Não deixe ninguém te diminuir com o famoso argumento do “era só uma brincadeira”, “você não tem senso de humor”, “você não deixa passar nada, com você tudo é difícil”.

Não permita.

Simplesmente porque não é verdade.

Existe gente difícil, chata, complicada, implicante, insuportável. Sei que existe. Mas se você está aqui lendo o blog, provavelmente não é o seu caso. Ser difícil-chata-complicada significa querer tudo do seu jeito, exigir que tudo seja exatamente como você quer, e nós não somos assim. Estamos o tempo todo abrindo mão de coisas, aceitando o outro, respeitando as diferenças com o outro.

Mas não jogamos isso na cara dos outros. Somos elegantes, aceitamos as diferenças, sofremos. Sabemos que viver em sociedade é ter que aceitar diferenças, e sofremos calados nossas diferenças culturais, morais, de criação.

E em geral os outros não enxergam isso. Enxergam só o que eles fazem, e acham que da nossa parte não estamos fazendo nada, quando de fato são inúmeros momentos em que a gente quis cortar os pulsos (nossos ou dos outros), muita meditação e elevação espiritual pra aprender a não se importar, pra chegar no ponto de “está tudo bem, isso não importa, vamos tocar a vida e ser felizes”.

Vocês sabem, o Cris é o amor da minha vida. Mas de vez em quando ele vem com o papo de “você é uma pessoa muito difícil”, e já chegou a dizer “não imagino nenhuma outra pessoa que conseguisse ficar com você, os outros não aguentariam o que eu aguento”.

Essa frase horrível é algo do passado, mas a ideia por trás dela não é algo enterrado, tanto que na semana passada tive que ouvir um “quem aguenta essa Claudia” – que é um diminutivo da tal ideia de que eu nunca encontraria nenhuma outra pessoa pra ficar comigo. E isso porque ele estava vendo o celular no café da manhã, eu levantei pra ir fazer as minhas coisas, e ele ficou mortalmente ofendido. Como se a gente estivesse num restaurante e eu levantasse pra ir embora porque ele pegou o celular, não como se a gente estivesse na nossa casa e eu ia andar uns metros, já que ele estava entretido com outra coisa.

E veio o “quem aguenta essa Claudia”. Isso desencadeou longas conversas, no começo ele negando, mas por final aceitou que era bem errado pensar ou falar assim, e que se ele estivesse no meu lugar ele também não teria gostado.

 

Pra falar de forma rasa, eu costumo dizer “sou muito chata”, mas isso é só uma simplificação. Eu não sou chata. Eu sou exigente e rigorosa, mas não de forma burra. Eu não vou pra um restaurante de beira de estrada e reclamo da louça lascada. Eu não me importo que os meus sogros sempre esqueçam que eu não tomo café, de ter que falar, há 13 anos, várias vezes por mês, “obrigada, eu não tomo café”. Eu não me importo que a minha empregada tenha dias que faz as coisas na correria, e o banheiro tem poeira, restos de creme, fios de cabelo e outras pequenas sujeiras no tampo de granito.

No caso do Cris, eu fiz um exercício de elevação espiritual pra aprender a não me importar que ele esqueça e perca coisas (já perdeu a carteira em viagens mais de uma vez, perdeu e recuperou meu tripé, perdeu a lente macro dele), quebra copos com uma certa frequência, inclusive mais de uma vez por fechar a porta do armário antes de tirar a mão com o copo – e geralmente sou eu que tem que limpar a cozinha, porque ele é cegueta e eu não quero que fiquem cacos de vidro. Da última vez que ele quebrou um copo eu estava bem cansada, ele falou que limpava, e acabei encontrando um pedaço de vidro no bolo de carne (descobri como é a sensação de morder vidro, mas felizmente não machucou).

Aliás, esse foi o exemplo que joguei na cara dele quando ele me falou que eu sou difícil. Falei pra ele que ele também é difícil, que está com frequência quebrando coisas, ou esquecendo, ou perdendo, ou incapaz de achar quando está na frente dele – mas que eu não fico ressaltando isso. Aprendi a aceitar e a sofrer cada vez menos.

 

Eu me importo com palavras. Essa é uma das principais discussões com o Cris, quando ele fala algo, eu reclamo, e ele vem com o “você se importa demais com as palavras, não foi isso que eu quis dizer, você não entendeu”. Mas meu senhor, foi exatamente isso que você falou. As palavras são nossa principal forma de comunicação, e você não tem como desculpa a falta de vocabulário ou de intelecto. Quando você fala algo rude, eu não tenho como pensar “ele queria dizer outra coisa e escolheu as palavras erradas”, eu penso no que você falou.

Estou escrevendo sobre isso porque uma das minhas amigas mais queridas contou que gostou bastante do post Bichos pra atropelar e nomes que não importam. Não tenho certeza de qual parte, mas acho que era por saber que eu posso ficar tão brava porque tem alguém que viu um leopardo ou um guepardo e ficava chamando de onça. A pessoa teve o privilégio de ver o bicho, e não se importou em guardar o nome do animal.

Eu não sou chata a ponto de ir falar pra ela “moça, pelo amor de deus, como é que você não se importa em falar errado o nome de um felino magnífico?”. Não iria encher o saco dela. Ela não estava maltratando uma criança, um velhinho, chutando um cachorro, não era nada que exigisse uma ação. Mas posso blogar sobre minha irritação.

Não sei exatamente o que as pessoas falam de você, do que elas reclamam. Se quiser me conta, eu posso te ajudar a pensar em respostas, mesmo que sejam respostas mentais. Você sabe, não é a tudo que eu respondo, muita coisa me incomoda, mas precisa ser algo sério e importante pra eu agir. Tem que ser algo que machuca de verdade, e em geral quem consegue machucar sério são as pessoas mais próximas, as mais queridas. Quem não é próximo, em geral eu só xingo, geralmente não na cara, e me liberto.

Mas digo isso porque sou japonesa, portanto, muito preocupada com a polidez social, com as frágeis tramas que unem a vida em sociedade. Mas no meu íntimo, e pros íntimos, você sabe que não passa nada, não aceito nenhum sapo, nem que seja bem pequeno. Se machucou, é preciso lidar com isso, mesmo que seja um pensamento libertador, algo pra xingar, rir, e parar de me importar.

Admiro quem responde na lata. Aliás, acho que eu seria uma pessoa melhor e mais feliz se conseguisse responder mais na lata, talvez até me curasse do bruxismo. Mas não consigo. Sempre penso muito antes de falar, e muitas vezes meu xadrez mental manda eu ficar quieta. O que não me impede de blogar, de desabafar e, se for algo sério e recorrente, daí a gente tem que falar com a pessoa pra resolver.