Pra A.G., pensamentos sobre agressividade e orgulho de ser quem somos

Sabe, A., você me fez me sentir foda e incrível, obrigada, obrigada, obrigada, do fundo do coração. Não tenho prazer quando faço um álbum de fotos feitas pra impressionar e chovem elogios, não gostava de ser chamada de inteligente, foi sofrido receber os troféus de melhor aluna da cidade no primeiro e no segundo grau. Mas pensar nos meus leitores. Saber que posso escrever, e uma pessoa que nunca me viu vai ler (esses textos monstruosamente grandes), e que aquilo pode ajudá-la de alguma forma a gostar mais de si, a se sentir menos sozinha ou menos estranha, a se conhecer melhor, a viver mais feliz, a se questionar. Isso me deixa nas nuvens, faz eu me sentir foda, grande, não pra me pavonear, mas é um orgulho muito grande aqui dentro do peito, do tipo que não contaria pra ninguém exceto os bem queridos e os queridos leitores desconhecidos. Em geral fujo de qualquer coisa que cheire a orgulho (pode ser de personalidade, mas também sei que é cultural, o livro do Wabi-Sabi comenta que os japoneses têm como valor cultural não cultivar glória pessoal), mas eu senti isso e quis contar. Que eu tenho um puta orgulho de pensar que tenho leitores como você. O que você me escreveu é digno de Dr. Lecter, meu lado canibal vai ficar satisfeito e sossegado por um bom tempo.

O lado canibal. Acho que é porque o que você contou mostra um pouco de quem você é, da pessoa incrível que você é, e saber que você gosta das coisas que escrevo me enche de orgulho. Como abrir um restaurante e ser elogiada por um crítico gastronômico, ou receber a visita de um outro chef que quer saber como faço tal prato. Um momento pra pensar na fraçãozinha de pessoas que valem a pena, e não nos 90% que nos exasperam.

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Estou pensando nas coisas que você escreveu. Eu não sei. Ando numa fase em que tenho me dado o direito de pensar que não sei, talvez sim, talvez não. Sem nenhuma certeza sobre o que quero fazer.

Tenho certeza de que o caminho mais polido é mais seguro, e que o Cris ou o Universo estão certos em me falar que se eu for menos agressiva eu consigo chegar mais longe como pessoa jurídica (lutas pela natureza) e pessoa física (interações com amigos e família).

Mas é o que eu realmente quero?

Não sei.

Não tenho certeza se quero mesmo ser a pessoa que não escreve batendo, que não fala batendo. Hoje mesmo não consegui, menos do que não conseguir, nem tentei. Dei uma chapoletada no meu BFF, acho que o chateou, mas era verdade e talvez seja útil, e se eu não falar pra ele, quem vai falar? Estávamos falando da namorada dele, perguntei por que ele não falava tais e tais coisas pra ela, ele disse que fala, mas que ela não dá bola porque santo de casa não faz milagre, o que em geral é verdade, mas deu exemplo ruim. Falou que se ele chegar dizendo “gente, a casa está pegando fogo”, com a voz bem tranquila, ninguém vai se importar, que ele teria que chegar gritando, agitando os braços (coisas que ele odiaria fazer). Falei “mas você é uma pessoa conhecida por falar muitas coisas zoeira. Se você fala tudo do mesmo jeito, não é culpa das pessoas se elas não souberem quando você está falando coisas sérias e importantes. Se você não torna o momento solene ela tem motivos pra não dar bola pros seus conselhos”.

Não falei achando que foi agressivo, mas ele ter ficado quieto depois me indica que pode ter sido.

Depois encontrei uma pessoa que foi minha amiga durante muito tempo, ou pelo menos eu achava que era. Teve uma época que eu achava que ela era minha melhor amiga, e ela é uma das minhas inspirações pra juntar vários quadrinhos de Pinterest que falam sobre deixar de ser trouxa, amor-próprio, etc. Não converso com ela faz muito tempo, talvez mais de 2 anos. Eu e meu BFF concordamos que um momento que marcou o rompimento foi ela ter me mostrado o perfil do Tinder, perguntado o que eu achava, e eu falei. Nada contra perfis de Tinder, o dela é que estava com coisas que eu achava errado. Claro que esse não foi o único motivo, a gente já vinha se afastando faz tempo, mas aquele foi um ponto que marcou. Hoje a revi, num enterro. Nos abraçamos, falamos algo sobre não nos vermos há muito tempo, e pra minha grande surpresa ela falou algo como “estou sempre chamando vocês pra beber e vocês nunca aparecem”, eu “nossa, que mentira!”, e rimos.

Era o enterro da mãe de um amigo querido, então nada de polemizar na hora. Mas fiquei surpresa (faz muito anos que ela não me convida pra nada. O tal momento de descobrir que eu era trouxa foi perceber que só eu convidava, oferecia jantares na minha casa, e ela nunca me convidava pra nada), e teria falado disso mais explicitamente se não fosse o momento delicado, então só deixei passar. Mas não consegui deixar de dizer “que mentira”.

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O amor-próprio misantropo. O se amar. Esse enamoramento por si, por tudo que é nosso, só porque é nosso. Será que todo mundo é assim? Em geral qualquer um tem dificuldade pra aceitar que tem defeitos e que deveria mudar, mas há uma imagem romântica que alimento, não sei se é assim com você também.

Passei muitos anos da minha vida achando que tinha algo de errado comigo. Triste por não conseguir ser falante, alegre, leve, inconsequente e risonha como meus amigos. Me sentindo sempre desenquadrada de qualquer coisa, à parte de tudo. Me sentindo feia, chata e sem graça.

Como contei, no início dos 20, o começo da minha vida sexual e a influência do meu BFF mudaram muita coisa, fui aprendendo a gostar de mim, a ter orgulho de mim.

A imagem romântica é pensar que esse enamoramento por si é fruto dessa época de sofrimento. Que não foi fácil gostar de si, quando o mundo inteiro parecia dizer o tempo todo que estávamos errados no nosso comportamento, personalidade e, no meu caso, minha cara. Crescer se sentindo miserável por não ter um rosto comum como das outras pessoas, por não ser bonita como as meninas bonitas.

Acho que foi uma historinha do Questão (personagem de HQ) que o parceiro dele consegue um super carro, algo com um super-motor – mas monta tudo num chasi de Fusca. Eu sabia que era inteligente e perspicaz e esperta. Mas tenho esse chasi de Fusca.

Foi difícil aprender a gostar de mim.

Foi assim com você também?

Talvez. Talvez seja o motivo… acho que pra qualquer um é difícil aceitar a ideia de que temos defeito e que devemos mudar, mas acho que pra muitas pessoas é tapadice e burrice. Mas pra gente, talvez o primeiro motivo seja esse orgulho de sobrevivente de naufrágio. Levei décadas pra aprender a gostar de mim e agora ninguém me tira essa porra de orgulho de gostar de mim, talvez algo por aí?

Se você me disser que sempre gostou de si, daí não sei o que falar, teria que pensar numa outra hipótese.

Acredito que há sim um caminho de ponderação, algo que talvez pudéssemos fazer sem abrir mão de quem somos, mas vai ter que ficar pra um outro post. Vou tentar dormir e acordar cedo, volto amanhã ou daqui a uns dias, mas saiba que estarei passarinhando e pensando nessa nossa conversa.

Um beijo.