“Por que você está sendo tão gay?”

Não foi bem essa a pergunta, mas soa melhor assim pra um título. A pergunta foi “por que você anda tão ligada nessas questões de direitos gays? Você não é gay, eu não sou gay, o Daniel ainda não tem idade pra decidir, nenhum dos seus parentes próximos ou amigos próximos é gay. Você nunca nem beijou uma mulher. Por que você anda tão interessada no assunto?”

“Por empatia”

“Sim, é óbvio. Mas então, isso que eu não entendi. Qual o motivo da empatia? Por que não salve as baleias ou qualquer coisa assim?”

Só pude responder depois. Tinha chegado o lugar onde eu ia descer, o carro não estava parado num lugar bom, falei “respondo à noite, tchau”.

Por que eu sou tão pró-gays?

Por empatia. Porque me identifico muito com a ideia de que as pessoas têm o direito de amarem quem elas quiserem, não importa se têm outra cor de pele, outra etnia, outra religião, outra nacionalidade, outra classe social, outro nível cultural, que não seja do sexo oposto. Amor é amor.

E mesmo que não seja amor, que seja um finiquito, uma luxúria, uma atração sexual. Qual o problema? Se eu quero e o outro quer, qual o problema? Por que eu não posso ter prazer e me divertir da forma que eu quiser, com quem eu quiser? Só porque alguns malucos acham que as coisas que eles acreditam tinham que valer pra 7 bilhões de pessoas? Porque alguns tapados não entendem que heterossexualidade é uma construção cultural burguesa, vinda da necessidade de ter filhos, herdeiros? Porque eles não sabem que a historia humana mostra que a sexualidade sempre foi algo amplo, e que essa tentativa de restringir à caixinha papai-mamãe é uma imposição dos malditos falsos-cristãos?

Falsos-cristãos-da-porra-filhos-da-puta-escrotos. Gente que acha que fantasiar sobre o que as pessoas fazem na intimidade é mais importante do que o fato que todos os anos milhares de pessoas no mundo todo são espancadas e assassinadas só por não serem papai-mamãe. Gente escrota que não se importa com o fato de que esse discurso de “homossexualismo é pecado, é anti-natural” descamba em bullying, pancadaria, tortura, assassinato.

Isso não é liberdade de expressão. Liberdade de expressão é dizer “eu prefiro o vermelho ao azul”, “Egon Schiele é muito melhor do que o Munch”, “achei que o filme tal não merecia ter ganhado o Oscar”.

Agora isso aqui, postado por Wanderlei Silva, isso não é liberdade de expressão. É o tipo de discurso que incentiva pessoas a praticarem o bullying, espancamento, tortura, assassinato:

“Como pode ,tanta gente se preocupando ,com a vida dos outros, quer dar o bumbum, QUE DE porra, não vou tratar nunca ninguém diferente por isso, nem se ela reza ou não reza , nem se ela grita mennnngggooooo, ou se ela grita vai corintia, cada um ,cada um, como dizem “mulher é tão bom ,mais tão bom ,que quem não gosta, tem mais é que tomar no “C&” mesmo” !! Quer apoiar mesmo a causa e Ta com vontade DÊ!!! Marque algum amigo que está indeciso e precisando de um empurrãozinho pra se decidir se dá ou não da !!!”

O que Wanderlei Silva escreveu expressa o discurso de muita gente, que não entende que quem está se metendo na vida dos outros é quem tenta proibir as atividades afetivas e sexuais dos outros.

Outro problema de Wanderlei Silva, comum a tantos outros: a fixação anal. Caramba, como essa cambada se preocupa com o cu dos outros. Deve ser coisa de sexualidade mal resolvida. Engraçado que a ideia de comer o cu de uma mulher em geral é visto como prêmio, mostra de que você é o fodão. Mas a ideia de que dois homens tenham prazer com penetração anal deixa o cara tão perturbado que é a única coisa que sobra na cabeça quando ele pensa em gays. E assim vemos tantas pessoas que reduzem um relacionamento homoafetivo a quem come o cu de quem, porque é só isso que a pessoa consegue pensar. E apesar de serem as coisas que as pessoas fazem em sua intimidade, e de um relacionamento entre duas pessoas ser algo muito maior do que os momentos reservados a atos sexuais, o sentimento de atração-perturbação quanto ao assunto é tão forte que se alguém fala “gay”, o cara já está pensando em quem dá o cu pra quem.

Por que eu sou tão pró-gays?

Porque acho o fim da picada, absurdo, ridículo, que as fantasias sexuais dos outros, os problemas sexuais dos outros, os assuntos mal resolvidos dos outros quanto à própria sexualidade e-ou suas crenças sobre o que é pecado ou não é pecado sejam capazes de impedir que as pessoas tenham prazer, amem, divirtam-se como elas quiserem.

A raiva pelo absurdo da situação é maior ainda porque existem tantos temas que precisam ser resolvidos, como a luta contra a corrupção, a necessidade de haver um sistema de ensino melhor, educação ambiental, violência doméstica, eficiência da máquina administrativa. Mas não. A grande preocupação desses deputados, e de milhões de pessoas no mundo, é ficar fantasiando em quem dá o cu pra quem.

Quem dá o cu pra quem? Quem é o ativo e quem é o passivo? Ou como lésbicas podem ter relações sexuais? Uma delas usa aquelas cuecas com um pau de plástico ou elas fazem fist fucking? Eu respondo: não te interessa, não é da sua conta, não é nada que você deve ocupar seus pensamentos. O que as pessoas fazem na sua intimidade só diz respeito a elas. Se você acha que sua vida amorosa e sexual é sem graça e sente raiva de pensar que outras pessoas se divertem muito mais, vá você atrás das mudanças. Não tente amarrar os outros.