Por que ter medo dos nossos desejos

Neste fim de semana descobri no Netflix o Once Upon a Time in Wonderland e assisti a uns dois episódios (não na ordem certa, é claro).

“Nossa, que seriado tosco” – o Cris, que só viu algumas cenas, por trás da tela do notebook. Tá certo, é tosco. Mas tosquice não é motivo pra descartar algo. Em outro momento explico por que pretendo assistir outros episódios.

Por enquanto queria falar de uma cena que me fez pensar. Alice tem com ela três desejos de gênio de lâmpada. Não ria muito, mas tem gênio de lâmpada, mago malvado, tapete voador, rainha de copas que acha que ser malvada é sorrir fazendo biquinho. Alice está com esses desejos porque os ganhou do gênio, e também se apaixonou pelo gênio – que tem aparência humana, não de gênio de desenho da Disney.

O Knave of Hearts (eta nome bom) pergunta por que ela não usa um dos desejos para se reencontrar com o gênio (que parecia ter sido morto pela rainha, mas depois descobrimos que está só sequestrado). “Desejos são traiçoeiros… posso pedir, e o reencontro enfocardo, pendurado numa árvore”.

Pensei que é verdade. Como aquele episódio do Além da Imaginação que passava na Globo, em que uma mulher descobre que os livros da biblioteca em que ela trabalha contêm a vida das pessoas, e ela passa a reescrever sua própria vida. Muda seu cenário amoroso, mas começam a acontecer coisas estranhas, de repente ela chega na casa e tropeça num móvel que não existia, ou falam pra ela de coisas que ela não lembra. Até que a irmã dela morre afogada, ela vai correndo desesperada pra biblioteca, não encontra mais o livro da irmã, e quando explica pra velhinha – de quem era assistente, o que andou fazendo e por que precisa pegar o livro de volta a velhinha pergunta “você fez tudo isso e achou que não teria nenhuma consequência?”

Não é por uma questão moralista. Acho que temos o direito de ser muito felizes, ter do bom e do melhor, encontrar príncipe encantado, trabalho empolgante e que paga bem, viver bem com a família, ter os melhores amigos, viajar, passear. Mas realização de desejos como um passe de mágica é outra história. Porque pode ter consequências imprevisíveis, porque podemos não estar preparados. De repente temos algo maravilhoso em mãos, e não sabemos o que fazer com aquilo, estragamos tudo, fodemos tudo. Mudanças radicais podem ter consequências imprevisíveis.

Pra falar de forma menos etérea, vamos pro exemplo crássico e típico: o desejo de encontrar sua cara metade, uma pessoa que te complete, pra viver apaixonada, plena. Não é errado desejar! Mas acho errado desejar que seja como um passe de mágica.

Quando não é passe de mágica? Quando você está dando duro pra que isso aconteça. Cuidando das noias da cabeça, trabalhando autoconhecimento, domando angústia e ansiedade, aprendendo a gostar de você, cuidando do corpo, saúde, lazer, hobbies, procurando formas de conhecer pessoas, se sentindo aberta e disposta. Trabalhando pra ser uma pessoa inteira. Nesses casos, quando aparece uma pessoa legal não é passe de mágica: é consequência do que você construiu e atraiu pra si.

Mas se a pessoa está em outro pique, o que acontece? O presente cai no colo em geral a pessoa só faz cagada. Briga com o outro, afasta o outro, machuca o outro. O outro vê suas qualidades verdadeiras, ou não teria se interessado por você, mas muitas vezes cansa e desiste. Sem final feliz.

Então a mensagem calvinista de hoje é: pode desejar à vontade, mas não espere que caia do céu, nem peça pra cair do céu. Trabalhe pra que seu desejo aconteça, e quando acontecer, que seja com a satisfação de saber que você mereceu.