Por que os brasileiros são tão legais?

Durante esses 30 dias de copa do mundo não escrevi um a sobre o assunto, em nenhum lugar. Mas agora acabou, assisti a vários jogos, e mesmo pensando que não era bom o Brasil ganhar (pra não embalar os loas à Dilma) foi triste ver o 7×1 – que nem vi, depois do terceiro gol achei sofrido demais e saí da sala.

Há todas as questões doídas. Corrupção, dívida, elefantes brancos, eta-tristeza-da-porra de pensar o que seriam 13 bilhões de dólares bem aplicados em educação em vez de circo. Vou falar o que sobre isso? Nada a falar, nada pra resolver.

Mas temos aqui o grande legado mundial da copa. Algo que muitos turistas já sabiam isoladamente, e agora é alardeado nos principais jornais do mundo: o quanto somos legais. Sorridentes, alegres, gentis, animados, solícitos, dados, gente boa. Por que será, não? Aqui vai minha hipótese sobre essa incrível simpatia brasileira. E não é ironia: eu realmente concordo com essa ideia de que os brasileiros são incríveis, e se alguém me perguntasse qual a principal característica do povo brasileiro, eu diria que é essa simpatia-informalidade-abertura.

Vou tentar me explicar. Fora lugares como Paris, na maior parte dos destinos turísticos o pessoal no mínimo tem boa vontade com turistas. A população local sabe que faz bem pra economia e que é importante sempre ter gente indo gastar dinheiro na sua cidade. A primeira vez que fomos pra Nova York foi em 2005, pré-redes sociais, ainda havia muita gente que falava o quanto os americanos são metidos e grosseiros. Não vimos nada disso. Aliás, num dos momentos, estávamos parados numa esquina, com um mapa de papel aberto, e um homem parou pra nos perguntar se precisávamos de ajuda.

As pessoas podem ser gentis, mas elas também são organizadas e estratificadas. Lendo os comentários dos estrangeiros, um canadense disse que se admirava como era fácil se juntar para um encontro “No Canadá, é preciso marcar com pelo menos uma semana de antecedência, as pessoas precisam consultar as esposas”. O Cris já tinha me falado. Em 2005 eu adorei Nova York, “eu viveria aqui”, ele me falou “não, você não viveria. É um ótimo lugar pra passear, ou viver aposentado com bastante dinheiro, mas pra viver e trabalhar é pedreira. As pessoas são extremamente competitivas e exigentes, você não ia aguentar”.

Tenho uma amiga indiana que mora e trabalha em Nova York. Ela não tem problema com a competição e a pressão, mas me falou o mesmo que os meus amigos que moram na Europa falam: você não faz amigos. As pessoas são polidas e podem até ser espirituosas, gente boa, engraçadas. Mas no ambiente de trabalho. Dali você não passa.

Uns anos atrás conheci o blog de uma moça, a http://ruivanorio.wordpress.com/, porque estava pesquisando sobre a passagem do Franzen pela Flip, e tinha o post dela, pra me contar que o único momento em que ele falou bem e com empolgação foi quando o desesperado moderador perguntou sobre as aves brasileiras. Vou colar um trecho do post dela, que considero muito bom pra explicar essa visão estrangeira sobre nossa simpatia:

“A generosidade que eu encontrava sempre nunca deixou de me chocar. Já lhes agradeci milhares de vezes, do meu jeito americano, e a resposta eterna foi um “De nada!” chocado e quase ofendido. “Imagina!” Na verdade, não imaginara um país onde um grupo de profissionais se dedicariam a realizar (de graça) o filminho de uma estudante; onde eu poderia fazer pesquisa num acervo de sonhos com uma equipe generosa e conhecedora; onde chegaria a conhecer alguns dos meus ídolos; onde uma conhecida me convidaria a morar na casa dela quando não tinha onde ficar; onde mesmo ofendendo a metade da minha faculdade eu faria grandes e doces amigos; onde eu seria dada a oportunidade de traduzir profissionalmente; onde a minha ironia customária me ganharia fãs simpaticíssimos; onde sonhos, enfim, seriam realizados (com a exeção notável daquele em que eu chorei na calçada em frente ao Maracanã).

Já ver um só show do Caetano Veloso teria bastado. Mas a bondade com a qual eu sempre fui recebida – as casas onde pousei, os amigos e colegas novíssimos que me abraçaram e me aguentaram, a confiança que vocês tiveram em mim – dá vontade de sentar no meio-fio e chorar, porque não tenho, nem se fosse dada tempo e ingredientes infinitos para fazer Katharine Hepburn brownies para todos vocês, como retribuí-la. Eu lhes devo tanto. Viajei.  Por favor, me desculpem. Obrigada.”

http://ruivanorio.wordpress.com/2012/01/04/antes-tarde-do-que-nunca/

Meus avós me contavam que muitos anos atrás, década de 1960, um desconhecido podia bater à sua porta, pedir e ganhar desde um copo d´água, ou um prato de comida, ou até mesmo um canto pra passar a noite. Passamos pela década de 80 e 90, por toda desconfiança com violência e golpes, e agora as redes sociais nos ajudam a resgatar essa sensação de confiança no outro. Todos têm perfis públicos em alguma rede social, há muito menos medo de golpe, é fácil encontrar um canto pra dormir na casa de um conhecido da namorada de um amigo de um amigo.

Não temos regras de etiqueta como os europeus. Não temos a desconfiança e a necessidade de organização dos americanos. Somos sorridentes mesmo. Somos paga-pau de gringos. Temos um grupo que é das redes sociais e também tem toda a influência da cultura norte-americana, um imaginário de situações e pessoas espetaculares. Mas acho que esse não é o principal fator, me parece que o brasileiro já tinha essa imagem cordial antes de redes sociais e cultura de massa.

Temos uma boa parcela de população simples e boa, especialmente fora das grandes cidades, como meus avós eram, como meus amigos em Jacutinga – onde tem um guia ornitológico que eu contrato pra passear, nos conhecemos porque eu tinha montado um site em Webs pra ele sem cobrar nada, ele falou pra eu ir passarinhar na cidade dele, e já fui várias vezes: não me deixam ficar em hotel, eu fico na casa dos pais dele, faço as refeições com a família dele, me tratam como se fosse da família.

Uma vez fui pra Brasília passarinhar, e os colegas de lá também me trataram muito bem. Foram me pegar no meu hotel, me deram lanche. Fiquei só dois dias, no segundo dia meu voo era na hora do almoço, então fiz o check out de manhazinha, e pretendia ir direto do passeio pro aeroporto, só coloquei uma camiseta na mochila pra me trocar no banheiro. São Paulo – Brasília, um voo curto. Quando meu colega soube do meu plano, ficou horrorizado, e falou “não, você vai pra minha casa tomar um banho”. Falei com eles sobre a amabilidade de todos, e o Amaro me disse “talvez seja porque ninguém é de Brasília, é claro. Todos que estão aqui vieram de outro lugar, então todos sabemos como é se sentir estrangeiro e precisando de ajuda”.

Essa poderia ser uma boa explicação sobre nossa amabilidade, não? Nosso caldo cultural. Não haver exatamente uma etnia dominante. Os brancos dominam, mas não são anglo-saxões: são anglo-saxões, portugueses, espanhóis, alemães, italianos, franceses, um pouco de japoneses, e isso já daria samba. Nos Estados Unidos e Canadá não tem um caldo assim de branquelos. E tem outra: negros e índios, apesar de marginalizados economicamente, têm uma influência enorme na cultura. Música, comida, língua, religião africanas e indígenas não ficaram coisas de gueto: elas fazem parte da estrutura do Brasil.

Acho que a maioria dos meus amigos têm pelo menos um avô que veio de outro país. Há outro ponto: somos pobres no geral. E sabem como a pobreza normalmente traz humildade e a capacidade de compartilhar. Por que não trataríamos bem o outro, o estrangeiro, ainda mais se ele vem com a alcunha de ser a visita que não vai te roubar, te enganar, e tem data pra ir embora? Além de ter a aura de gringo?

Então, mundo, queria dizer que é verdade mesmo. Não há país como o Brasil. Temos dirigentes de merda, uma corrupção crônica e aparentemente infindável que é um câncer corroendo nossas riquezas e nossas tentativas de sermos um país de primeiro mundo. Mas nossas riquezas naturais são mesmo espetaculares, e nosso povo – o que se formou a partir dessa mistureba de imigração, pobreza, comunhão, humildade – é mesmo muito especial. Somos um tesouro, de uma simpatia e brilho difíceis de ver em qualquer outro lugar. Se tivéssemos dirigentes melhores. Se a corrupção, o maldito “jeitinho brasileiro” não escorresse tantos momentos sob tantas formas. Que país não seria o Brasil.