Por que é totalmente absurdo controlar e taxar a fotografia de natureza brasileira

Atualização 12/jul/15: o presidente do ICMBio, Cláudio Maretti, criou um post no Facebook dele para conversar sobre o assunto. Aqui o link pro post, e minhas opiniões sobre o teor das nossas mensagens pra ele: http://claudiakomesu.club/o-que-escrever-para-claudio-maretti/

1 – As câmeras digitais evoluem numa velocidade vertiginosa. Não é uma palavra sensacionalista, é a expressão da realidade. Já viram a Nikon P900, a compacta que tem zoom de 86x? Google Glass? Sabem o que um Iphone 6 fotografa?

2 – O motivo de barrarem pessoas com câmeras grandes é a ideia fantasiosa (e ridícula, pra quem tem um mínimo de informação) de que só profissionais podem ter uma câmera grande, que apenas as câmeras grandes têm resultados capazes de gerar uma imagem com valor comercial e, pior ainda, o maior delírio de todos: que vender fotos dá muito dinheiro! Num mundo em que todo mundo tem uma câmera, em que as câmeras ficam mais poderosas e mais baratas a cada semestre, num mundo com internet em que você vê imagens lindas e tem tutorial pra tudo alguém ainda é capaz de defender que essa é uma época em que é fácil e lucrativo vender fotos de natureza!

3 – Faz mais de 10 anos que as DSLRs têm sido usadas por amadores no Brasil. Mais de 10 anos. E há alguns anos as compactas têm evoluído tanto que em lugares com bastante luz conseguem resultados melhores do que uma DSLR.

4 – Em pouco tempo os gestores do parque não poderão mais usar o argumento de “aborda quem tiver câmera grande”. Quais serão as alternativas? Controle com raio-x na entrada do parque? Abra a mochila e a bolsa, esvazia os bolsos, deixa o celular, esse óculos é suspeito, deixa eu ver direito esse anel grande, essa fivela de cinto pode ter uma câmera embutida, passa as botas pelo raio-x, o brinquedo no carrinho da criança parece irregular…

Totalmente ridículo e inviável, eu sei. Mas com a evolução das câmeras digitais, como você faz pra cumprir a portaria? Vai tentar controlar as bilhões de imagens postadas na internet? Há algumas paisagens icônicas que podem ser reconhecidas, mas a foto de uma ave, de uma flor, de um macaco, como você prova onde foi feita? Algumas câmeras têm registro da coordenada GPS, mas nem todas, e é fácil apagar esse dado.

5 – Ok. Supondo que a loucura da portaria foi em frente, e decidiu-se barrar a entrada de qualquer eletrônico que possa também fotografar. O que acontecerá? As pessoas param de ir aos parques públicos. Quem tem dinheiro vai pra lugares privados em que não há essa loucura, ou pra outros países em que não há essa loucura, quem não tem vai fotografar em estradas, na chácara de amigos.

6 – Porque a paixão pela fotografia veio pra ficar. Proíbam as pessoas de fotografarem, elas vão pra outros lugares. Elas vão gastar o tempo e o dinheiro dela em outros lugares.

7 – Alguém ainda tentará dizer que estamos fazendo um estardalhaço por nada, porque a portaria não restringe a fotografia, apenas taxa o uso comercial. Só que o “apenas” não é um detalhe, e sim o cerne do problema. A ideia de taxar uso comercial inibe as produções culturais (fato: basta ver o vazio de publicações sobre a natureza brasileira), além de azucrinar quem tem câmera chamativa e fazer com que, de forma geral, as pessoas não tenham vontade de voltar aos parques públicos onde são tratadas como infratoras. Taxar uso comercial gera as situações em que os funcionários ou seguranças vêm dizer que é proibido fotografar, que é proibido postar em blog, que é proibido compartilhar no Facebook. A taxação pelo uso comercial afasta as pessoas dos parques e impede o desenvolvimento cultural de divulgação da natureza.

Uns anos atrás eu ainda era do time que defendia a liberdade de amadores fotografarem, mas colocando os profissionais à parte, como uma outra questão a ser resolvida. Hoje sei que na prática a restrição aos profissionais inevitavelmente recai em restrições aos amadores. E também sei que dificultar, em vez de incentivar a fotografia profissional ou a amadora de qualidade, é uma das maiores burrices que os gestores podem fazer. A não ser que realmente haja uma orientação de não querer valorizar e divulgar os parques, só isso explicaria o não-reconhecimento sobre a importância da produção e divulgação das fotos boas.

ICMBio e Fundação Florestal, como vai ser? O que justifica manter as restrições à fotografia e a iniciativas pessoais de divulgar a natureza brasileira? Vocês não querem que os parques brasileiros sejam divulgados? Vocês não precisam de divulgação e valorização? Salário dos funcionários é ótimo, quantidade de pessoas trabalhando no parque também, veículos para trabalhar sempre tinindo e com o tanque cheio, estradas e trilhas em ótimo estado, sites bonitos com atualizações constantes, equipe de assessoria de imprensa e comunicação digital para esclarecer as dúvidas e criar um bom relacionamento com o público, todos os parques têm páginas no Facebook coalhadas de elogios à administração, manutenção do parque e atendimento dos funcionários. Todos os parques têm sanitários e lanchonetes modelo, atividades de educação ambiental, eventos culturais patrocinados, semana do Meio Ambiente e outros eventos que aumentam a visitação e visibilidade do parque, associação de amigos do parque, monitoramento da fauna e flora, muito policial pra fazer ronda (com carro, moto, barco, helicóptero) e impedir ação de palmiteiros, caçadores e extração ilegal de madeira, bromélias e orquídeas. Nenhum deputado vem dizer que a polícia está sendo rigorosa demais na fiscalização e apreensões.

Eu sei que é um longo caminho para chegarmos nesse cenário idílico, e que talvez não cheguemos lá. Mas tenho certeza de que não será por iniciativas federais que os parques serão valorizados. A única forma de melhorar a situação é se aliando à população. Os cidadãos são aliados, não são gado que precisa ser tangido na base de formulário, taxa, proibições.

Mudem a postura. A natureza brasileira precisa de divulgação. Taxar, restringir, proibir só favorece a destruição. As áreas naturais brasileiras pertencem ao povo brasileiro. O Governo não valoriza e não vai ajudar a melhorar a situação. Mudem a postura. Deixem que as pessoas desenvolvam carinho e amor por um parque, que elas queiram cuidar, proteger, melhorá-lo. Isso nunca vai acontecer enquanto formos tratados como infratores e gado.