Por que é errado elogiar as pernas da colega de trabalho

“(…)

Em 1971, o irmão mais velho de Sérgio deu uma cantada na colega loira de trabalho. Ela reclamou, fez charminho e aceitou um jantar. Hoje estão casados. Em 2011, um primo de Sergio elogiou as pernas da colega de escritório, foi acusado de assédio sexual, demitido e teve que pagar indenização à mulher das belas pernas, que acabou no psiquiatra.

Meu amigo Sérgio me pergunta o que deu em nós, nesses 40 anos, para nos tornarmos tão idiotas, jogando fora a vida como ela é.

Dei a resposta: é a ditadura da hipocrisia imbecil do politicamente correto.”

Alexandre Garcia”

 

No grupo das pessoas que estudaram comigo no 1o grau também estão alguns dos nossos professores na época. Uma delas é uma mulher muito simpática, ativa, dessas que está sempre mandando bom dia, textos simpáticos, vídeos. Ela é muito do bem.

Mas nesta semana compartilhou um texto machista, e eu não consegui deixar passar. Vou escrever no blog, e pensar o que falo no grupo.

O texto é do jornalista Alexandre Garcia. Se quiser ver o texto todo, tem aqui: http://www.jornaldacidade.net/artigos-leitura/76/59177/quarenta-anos.html#.WU5tTmjysiU

 

O texto é bem intencionado no geral, apesar de várias simplificações e racionalizações erradas. Mas a parte da cantada é imperdoável, e vou explicar por que.

Ser penalizado por elogiar as pernas da colega não é ditadura da hipocrisia imbecil do politicamente correto. É a única forma de mudar a cultura de tratar mulher como objeto. “Pelamordedeus, não posso mais elogiar o que é bonito?”. Não, garanhão, não pode. Sabe por que? Porque vivemos num mundo em que as mulheres vivem com medo de serem agredidas, espancadas, estupradas e assassinadas. 45 mil estupros notificados, com certeza de subnotificação, estimativa de 450 mil por ano no Brasil, esse país tão democrático em que mulher que fala sobre machismo é femininona-mimimi.

5 mil mulheres assassinadas por ano. Muitas vezes por um companheiro ou ex-companheiro que não aceitou o fim da relação.

Você pode não ver a relação desses números com o singelo elogio às belas pernas da loira, mas eu explico: mulher não é um pedaço de carne. Gostou das pernas da sua colega? E do que mais? É só das pernas, mas acha ela uma chata? Guarde o pensamento pra você, bata punheta em casa, converse com seus amigos, mas não tem por que falar com ela. Não, não acho ela uma chata, ela me parece uma pessoa muito interessante, e além disso tem aquelas pernas incríveis. Aahhh, bom, você quer um relacionamento? Então deixa eu explicar uma coisa: isso acontece por meio do diálogo.

Se a gente vivesse num mundo sem violência, sem machismo, você poderia falar “olá fulana, você tem pernas lindas, não consigo tirar os olhos dela”, e ela poderia te falar sobre genética, ou academia, ou dizer “obrigada, fulano, eu tenho reparado na sua bunda também” – e esse comentário não a colocaria na categoria de vagabunda (isso sim é mundo hipócrita: homem falar das pernas da mulher, tudo bem, se a mulher fala de algo do homem é vagabunda). Mas como vivemos nesse mundo violento, você não tem o direito de começar uma abordagem falando das pernas dela. Você tem que achar algo pra conversar que não a trate como um pedaço de carne. Comece com algo do trabalho, ou de um filme em cartaz, ou de algum assunto da semana, comecem a conversar e descubra se há sintonia, interesses em comum. Quando vocês já tiverem mais intimidade, ou porque começaram a namorar, ou porque se tornaram ótimos amigos, você pode contar que achas as pernas dela lindas.

É tão complicado assim entender que se aproximar de alguém fazendo um elogio de um atributo físico, principalmente se for perna-bunda-peito e não olhos-sorriso é algo uga-buga, errado, assustador, creepy, demodê?

Mulher não é pedaço de carne. Mulher é ser humano com mil motivos pra ter medo de ser atacada, agredida, estuprada, assassinada. Se interessou pela mulher? Puxe conversa sobre algo inteligente, interessante. Não a trate como um pedaço de carne. Elogiar as pernas é tratar como pedaço de carne.

 

PS: a ideia de que a mulher que denuncia assédio fica deprimida e precisa de psiquiatra também é de um machismo nojento.

 

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Ok, escrevi algo pro grupo, que me pareceu suave o suficiente:

“Oi [nome da minha professora]!

Sei que suas intenções foram as melhores ao compartilhar o texto do jornalista Alexandre Garcia, mas não consegui ignorar o machismo do tamanho de um bonde no trecho que fala sobre assédio.

Como eu decidi sair do armário na questão do feminismo, me vejo obrigada a comentar. Não é nada pessoal, só quero escrever porque talvez eu possa mudar a opinião de alguém que leu o texto e concordou que não tem nada demais em elogiar as pernas da loira.

Por que é errado elogiar as pernas da colega? Porque a gente vive um mundo violento e desigual, com espancamentos, estupros e assassinatos. No Brasil 45 mil estupros notificados por ano, com certeza de subnotificação, estimativa de mais de 400 mil, em qualquer cidade, em todas as faixas sociais. 5 mil assassinatos de mulheres por ano, muitos deles por ex-companheiros ou por homens que queriam um relacionamento e não aceitaram um não.

Mulheres tratadas como objetos e não como pessoas. Não imagino outro caminho pra mudar esse cenário a não ser ficar martelando que mulher não é um pedaço de carne, e sim um ser humano.

Quando um homem fala algo pra uma mulher, ele tem que levar em consideração que ela é um ser humano, ele não pode falar qualquer coisa que passa pela cabeça dele. “Acho as pernas dela lindas”. Ok. O que você quer? Quer namorar com ela? Então se aproxime com um papo inteligente. Fale sobre o trabalho, sobre filmes, livros, música, assuntos da semana, descubram se têm sintonia. Não, não, não quero namorar, só quero elogiar o que é bonito, não posso?? Não pode. Você não tem o direito de falar o que pensa e deixar sua colega encanada, tendo que pensar que roupa vai colocar, se você vai ficar olhando, se você fica secando a bunda dela, se você a favorece ou prejudica porque tem uma atração pelo corpo dela.

E a ideia de que mulher que denuncia assédio acaba no psiquiatra é… nem tenho palavras, de tão revoltante. É uma das coisas que mais me deixa brava. Eu entendo que uma pessoa com pouca instrução, que sempre viveu num meio machista, propague o machismo. Mas quando vejo gente culta, influente, inteligente, tão descolados pra tantos assuntos, mas quando chega no feminismo ignoram tudo que as mulheres passam, e ainda contribuem pro machismo com frases como essa… que raiva.

Reforço mais uma vez que minha intenção não é de brigar com ninguém. Só queria não perder nenhuma oportunidade de tentar mudar a mentalidade machista da nossa cultura. Obrigada, beijos!”