Pessoas melhores do que você

[editado às 17h. Reli e deu vontade de escrever mais um pouco sobre o assunto]

Somos todos idiotas em diversas áreas e únicos ou no mínimo acima da média em pelo menos uma. Nossa genética e experiências processadas fazem com que haja pelo menos um campo ou uma habilidade em que cada pessoa é especial.

Quer um exemplo fácil? As pessoas adoram falar mal de periguetes, pistoleiras, mulheres fúteis e outros rótulos do tipo. Tá bom. Mas essas pessoas têm um conhecimento sobre leitura corporal, experiência em relacionamentos, em levar foras ou ser desprezada e dar a volta por cima, conhecimento sobre maquiagem, compras, roupas, cosméticos que a maioria das pessoas não tem.

Uma amiga me contou que no colegial se irritava com as meninas que não levavam a sério os estudos, só queriam saber de namorar. Ela se perguntava “quando essas meninas vão acordar pra vida?”. Uns anos depois ela reconheceu que elas poderiam ter falado o mesmo dela “quando a … vai acordar pra vida e aprender a curtir mais, se divertir mais, em vez de só estudar?”. Ela me falou “eu também não tinha acordado pra vida”.

A forma como julgamos as pessoas depende dos nossos valores e que aspecto da pessoa decidimos analisar. Alguém pra quem sexo é algo sujo e vergonhoso sempre vai falar mal das pessoas que parecem lidar com sexo como se fosse algo gostoso e divertido. Alguém pra quem carreira (profissional) ou títulos são coisas valiosas julga os outros dessa forma também, e diria que um diretor de uma empresa ou um PHD em qualquer coisa é melhor do que um funcionário de uma loja numa cidade pequena. Mas esse funcionário pode ter mais qualidade de vida do que o diretor ou o doutor, talvez ele tenha menos estresse e mais tempo com a família.

Inteligência é outro parâmetro com várias facetas. De uma forma simplista, daria pra dividir as pessoas nos balaios de inteligência que requer agilidade de raciocínio, boa memória, reconhecimento de padrões, capacidade de cálculos e projeções abstratas, capacidade de expressar de forma verbal e/ou por escrito seus pensamentos – e as outras. Esse primeiro grupo descrito em geral é o que as pessoas descrevem como gente inteligente. Elas podem ser inteligentes nesses quesitos, mas muitas vezes têm um grau baixo de inteligência emocional, dificuldade de lidar com pessoas, em seduzir ou enfrentar adversidades e rejeições, e até mesmo baixa empatia.

Quando eu zanzava pelo mundo na promiscuidade típica dos 20 e poucos anos eu sempre pensava que queria encontrar homens melhores do que eu. Queria me relacionar com alguém que enxergasse mais do que eu, que fosse capaz de analisar as ações, reações, declarações das pessoas com mais perspicácia ainda do que eu consigo, alguém que tivesse dominado o conhece-te a ti mesmo e que não precisava posar de fodão, de cool e distante, ou bancar o agressivo. Alguém capaz de olhar pra si, pro mundo, pra mim, com sabedoria, bondade, generosidade e carinho.

Não encontrei. E claro que tive relacionamentos que a pessoa não tinha nada disso, podia ser só uma atração intelectual ou física. Mas eu não achava que precisava mudar o que eu queria, não acho errado a gente sonhar alto, desde que a gente não caia pro lado do purismo, amargura por não encontrar. Saber aproveitar o caminho.

Uns anos depois eu conheci o Cris, e nas vezes que a gente tenta descrever nossa relação com poucas palavras, posso dizer que um dos motivos de ter me apaixonado por ele é porque eu podia falar francamente com ele e ele não tinha medo de mim. E ele diz que precisava do meu olhar pra saber quem ele era.

Minha promiscuidade acabou, me tornei fiel. Mas posso falar de aspectos que sempre admiro nas pessoas que conheço, que no mínimo me fazem prestar mais atenção nela e pensar “admiro essa pessoa”. Auto-conhecimento, bondade, simplicidade, humildade, franqueza. Em especial a bondade e humildade, quando topo com gente assim sempre fico pensando como eu deveria ser mais bondosa. E não é a bondade superficial, ou de querer parecer bom, ou de não querer machucar alguém porque você tem problema para lidar com conflitos e situações difíceis. É uma bondade que vem do fundo do coração, como se a pessoa soubesse o quanto somos falhos, pífios, medíocres… e mesmo assim é capaz de olhar com carinho pro mundo, sempre ressaltando e lembrando das próprias falhas e erros. Na viagem pra Natal conheci alguém assim. Um chifre de unicórnio pra renovar minha fé na humanidade. Alguém melhor do que eu.

O guruzinho desde que me conheceu fala do meu coração de faraó. Queixo duro. Olhar petrificante. E é tudo verdade. Talvez tenha algo de genético ou anímico, colei aquele texto de um outro oriental no post “coisas que eu achava que eram minhas ou da minha família e depois descobri que são culturais“:

Tem horas que não é fácil segurar o lado “Samurai”. Tenho problemas com pessoas que não aguentam “pressão”, tenho preguiça de gente indisciplinada e tenho ojeriza de gente que mente. – See more at: http://101macaco.com/colunas/bushido/

Me vejo sempre dando notas baixas pra quem é condescendente consigo. Que tentou e desistiu. Que não vai fazer mais porque machucou. Que me diz que não devemos fazer porque vai causar uma situação desagradável. Gente que não investe em auto-conhecimento, em saber mais sobre si só porque dói e é difícil.

Talvez seja o lado samurai. Mas o samurai também tem um coração pra poesia, e sempre que encontro pessoas com essa bondade verdadeira, bebo das suas palavras e as admiro, e torço pra que algo de sua brandura penetre na minha casca dura.