Pessoas distintas

É claro que não estou escrevendo loucamente nestas semanas. Escrevo faz tempo, tenho um monte de textos guardados, e decidi que ia colocar num blog. O texto abaixo tem vários anos, mas me ajuda a lembrar que eu sempre devia prestar atenção nas pessoas distintas, e registrar o que vi:

O pequeno milagre foi ver duas pessoas distintas hoje. A segunda foi a mulher bonita com sorriso de santa. A primeira foi um professor de latim, sânscrito, história grega antiga, ou qualquer coisa do tipo. Parecia. Camisa, cardigan, frágil, resfriado, muito branco e com olhos azuis grandes. Mais de 45. Comecei a prestar atenção nele porque a hora que olhei, ele parecia comer um sonho. Ou algum outro doce de padaria, grande e sem graça. Nunca vi alguém naquela padaria comer um doce grande e sem graça no balcão.

Na hora de pagar, a fila no caixa era grande. No tempo de dar a volta no balcão dos pães, o baixinho insolente metido a segurança mudou o encaminhamento da fila, e eu tive que dar a volta de novo no balcão. O professor e sua acompanhante, uma loira de cabelo frisado, bronzeada, vileira, vinham em direção ao final da fila. Deixei espaço para eles, o professor perguntou se eu estava na fila, disse que sim, mas que ele passasse a minha frente, porque eles estavam antes na fila. “não, eu estava no lugar errado da fila, não vou furar fila”, com uma voz correta, cordial. Enquanto isso, a loira vileira olhava as revistas e quando voltou à fila, posicionou-se na minha frente. Ele cutucou o braço dela e a chamou pra trás. “Aqui”, “imagine, a gente já estava na fila”, “Não. Aqui atrás”. Ela detestou, e enquanto a fila andava devagar, ela ficava meio emparelhada comigo e às vezes esbarrava na minha bolsa ou no meu cotovelo. E se queixava “parece que todo mundo resolve ir embora de uma vez”, meu professor: “não, é impressão sua”, “não é não. Até agora não tinha ninguém na fila, de repente todo mundo resolve levantar pra ir embora”, “você também. É, você também levantou pra ir embora”.

Eu queria dar um beijo nele, dizer que me casaria com ele se já não fosse casada.