Pesar-se todo dia, carnes magras, academia, dieta

Histórias e dicas de quem emagreceu 10kg em 2 anos, e acha que mudou mesmo de vida

Nunca fui magra. Lembro até hoje o dia que eu comecei a pensar no assunto. Tinha 12 anos, fazia jazz (aulas de dança com minhas outras amigas adolescentes, não sessões de música). Nossa professora, quando conversávamos sobre a apresentação do final do ano, foi apontando uma por uma e dizendo quantos quilos cada uma deveria emagrecer “Você, 1kg, você, 2kg, você…” não lembro qual era o meu número, mas minhas amigas me falaram depois “mas você não é gorda”.

eu de listrado
eu de listrado

Acho que pesava uns 55 kg na época, e já devia estar próxima da altura que tenho hoje: 1,59m, que sempre arredondo pra 1,60. Não era gorda. Mas não tinha braços finos, nem cinturinha, então entendo que a Dri achasse que o certo era emagrecer.

A cabeça da mulher é algo muito estranho… eu pesava 50 e poucos quilos e não me achava magra. Depois que passei a morar com o Cris fui engordando e depois que me aposentei, em 2011, engordei muito, provavelmente uns 4kg nuns dois meses, simplesmente por fazer algo idiota como tentar ter o gostinho das tardes de Limeira, férias escolares, poder tomar café da tarde com pão com manteiga e leite com Nescau, gelado e batido no mix, ou então comprar bolos caseiros de chocolate ou de cenoura.

Claro, não foi só o café da tarde: também era a época de esbórnia total. A gente jantava fora com frequência, refeições com covert, drinque, entrada, vinho, prato principal, sobremesa. Mesmo quando a gente jantava em casa, bebíamos praticamente todas as noites. Não beber de se encharcar, mas em geral uma garrafa de vinho, além do início da noite com uma dose de tequila ou pinga.

E quase nada de exercícios físicos, fora as caminhadas pra fotografar, que são uma canseira, mas não servem como exercício para emagrecer.

Cheguei a pesar mais de 70kg. E não me achava gorda. Na verdade, nem sabia meu peso, não me importava com isso, achava que pesar todo dia é coisa de gente neurótica.

No início do ano passado, num jantar na casa da Nathalia, fui ao banheiro e tinha uma balança lá. Resolvi subir, e vi esse número que nunca tinha visto nem imaginado: 73kg Foi o primeiro choque. Descobri que precisava emagrecer, e comecei, mas uns meses depois fui ao cardiologista e recebi o segundo aviso: triglicérides alto. Você tem que cortar radicalmente a quantidade de álcool que ingere. Corte bastante álcool e doces, e moderadamente as massas (meu cardiologista é complacente).

Mais de 70kg: no vermelho
Mais de 70kg: no vermelho

E lá fui eu. Pra um reino que nunca achei que iria: o da vida regrada. Muito menos jantares fora, a maioria dos dias sem álcool, muito menos macarrão ou pizza, muito menos pão, quase nada de doces, voltar pra bicicleta ergométrica, em casa jantares espartanos como um ceviche com um pouquinho de pão, ou um omelete.

Eu sei que não fiz tudo certo, na verdade muita gente diria que fiz tudo errado, porque não fui pra endocrinologista nem pra academia. Mas tem que entender que sou misantropa, e cabeçuda. Pensei “eu sei o que é o certo, só não queria fazer”. E parece que deu certo, porque em novembro meus exames de sangue estavam todos ótimos, e também fiz exame de densitometria óssea (algo que pode dar problema quando a pessoa emagrece muito) e estava tudo bem. Emagreci 10kg, voltei a ter o peso que tinha 5 anos atrás. Eu era um 42 indo pro 44, agora sou um 40 que pode ir pro 38 se tiver mais disciplina.

2 semanas atrás, ainda com os 2,5kg a mais
2 semanas atrás, ainda com os 2,5kg a mais, mas feliz comigo

Quer fazer do jeito eficaz e seguro? Procure um endocrinologista e uma academia boa, eles darão as melhores orientações pra você. Mas aqui também vou contar detalhes que me ajudaram. Não é muito diferente do que todo mundo fala, mas por algum motivo estranho, às vezes ouvir um depoimento é diferente do que ler um artigo numa revista.

– Não sei se é pro metabolismo de todo mundo, mas eu descobri que álcool engorda muito. Muito mesmo. No jantar em que eu bebo e como sem me importar com nada, posso acordar no dia seguinte com mais de um quilo a mais.

– Compre uma balança e se pese todo dia. É neurose? Não sei, não me sinto neurótica. Me sinto na posse de um objeto confiável, que me diz com crueza o quanto errei ou acertei no que fiz no dia anterior. E me acho burra por ter demorado tantos anos pra comprar uma balança. Se tivesse comprado antes, nunca teria chegado aos 73kg.

– Pese todos os dias, especialmente nos dias que você se fodeu. Tem gente que fala “nem pesei hoje porque sei que vai ser uma tragédia”, mas eu acho que isso é errado. O desgosto de ver que você engordou um quilo de um dia pro outro, ou mesmo 2kg durante uma semana de férias, te ajuda a não comer as coisas erradas, te incentiva a fazer exercícios.

– Não faça dietas: faça a tal mudança de hábitos. Vou explicar melhor.

– Eu gosto de comer, de saborear os alimentos. Sei quais são as formas de preparar os alimentos que têm menos calorias e que são mais saudáveis. Mas sei que eu não conseguiria passar muito tempo comendo só coisas cruas ou no vapor. Então não preparo minha comida pra ter o mínimo de calorias, e sim pra ser saudável e gostoso. Tempero coisas com azeite, com alho. Não como comida de dieta: em geral almoço arroz, feijão, carne, legumes, salada. Mas diminuí muito a frequência das massas, e como pouquíssimo doce.

– Como bem pouca carne vermelha, por motivos ecológicos. Comemos carne de porco, e bastante peixe ou frango – as tais carnes magras, que sempre me pareceram algo terrivelmente insosso quando eu lia sobre dietas e hábitos saudáveis. Às vezes é peito de frango grelhado, ou ceviche. Mas muitas vezes o peixe ou o frango são empanados, ou então o peixe é com leite de coco e dendê, ou com manteiga e alcaparras.

– Adoro fritura. Mas agora quase não fazemos, e nunca mais saí pra comer um pastelzão. Encontrei um substituto razoável: bolinho de arroz japonês tostado. Quando sobra gohan, tempero com um pouco de alecrim, pimenta do reino, ralo um pouco de queijo, amasso bem com as mãos, faço os bolinhos achatados e tosto até queimar, com um fio de óleo. Também pode ser sem o óleo. Lembro que minha avó fazia, mas o puro oniguiri, sem os temperos.

– Pra mim comida tem que ser gostosa, ou não tem como ser mudança de hábito. Em vez de seguir a fórmula da dieta que tem menos calorias, acrescente algo que vai deixar mais calórico, mas também mais gostoso e prazeroso. Você não vai emagrecer tão rápido, mas estará cultivando hábitos, e não executando plano de emergência.

– Quanto menos açúcar e sal, melhor pra saúde e pra sua dieta. Você passa a sentir mais o sabor dos alimentos. Na minha casa não tem açucareiro pequeno, só um potão pra alguma receita eventual. Mas ninguém coloca açúcar no café, no chá ou sobre frutas, o açúcar não faz parte do dia-a-dia.

– Não jogue contra você, se ajude. Por exemplo, eu adoro doces. Do tipo mousse, bolo recheado, tortas, sorvete. Mas sei que engorda. Então não compro, e nem penso em aprender a fazer. Em geral minha sobremesa é fruta, ou um quadradinho de chocolate com alto teor de cacau.

– Assim como não compro bolachas, bolos, empadinhas congeladas etc. Ter o hábito de comprar essas coisas é muito errado. Quando estou com fome como uma fruta, ou então uma tapioca com queijo branco tostado, ou mesmo uma fatia de pão com queijo branco tostado e gostoso ou com presunto cru. Também tenho nozes, castanhas, uva passa, goji berry. Tento sempre ter alguma fruta bem gostosa na geladeira: morango, ou cerejas, amoras, pera portuguesa. Todo mundo sabe o que é saudável. Se ajude, não compre as coisas erradas, não as tenha no carro, na dispensa ou na gaveta do trabalho.

– Em geral almoço sozinha, e às vezes até janto sozinha. Não é fácil ter a variedade certa de legumes, verduras e frutas. Faz uns dois meses que me sinto bem por ter aderido aos sucos detox de manhã: assim tenho minha dose diária de vitaminas. Logo pela manhã terei bebido-comido um pouco de couve, beterraba, cenoura, berinjela, maçã, gengibre, limão.

– Não tomo porque acho que o suco vai fazer milagres. Mas sei que preciso comer uma variedade de alimentos que tenho dificuldade em preparar no almoço e no jantar, ainda mais quando é só pra mim. Assim não fico com peso na consciência se o almoço ou o jantar é só uma omelete ou uma tapioca.

– Um prato de que não enjoei até agora: fatias finas de berinjela bem tostadas com um pouquinho de azeite, um pouco de sal, acompanhadas de brócolis bem firme tostado com alho, ou a escarola levemente refogada com tomates aquecidos com alho e aliche. Às vezes acompanha um pouco de queijo de cabra.

– Não sou do estilo das saladonas. O mais comum é sempre termos palitos de cenoura, de pepino, ou lindos rabanetes cortados. Mas se fosse do tipo saladona, acho que inventaria sempre ter algo diferente, como os pedaços de manga, um pouco de queijo e nozes, às vezes tirinhas de frango. Para não enjoar.

– Quando saímos pra jantar, nunca mais fiz esbórnia. Como pão, às vezes bebo, às vezes divido sobremesa. Mas é assim – se vamos dividir uma garrafa, então é sem entrada e sem sobremesa. Várias vezes não pegamos mais garrafa, e sim taça; Se eu penso que quero sobremesa, então sem álcool e sem pão. Mesmo com esses cuidados, sei que vou engordar uns 300 gramas, mas daí nos dias seguintes compenso com refeições espartanas e exercício mais puxado. (Quando janto como se não houvesse amanhã, é mais de 1kg a mais no outro dia).

– Frase de um dono de academia em NY: comida é 85% do seu resultado. Exercícios físicos são essências pra saúde, e os aeróbicos puxados ajudam muito a emagrecer. Mas se você não cuidar do que come, não adianta.

– Se eu não viajasse e não tivesse jantares, já teria chegado no manequim 38. Em novembro, por exemplo, eu me fodi: viagem pra Las Vegas, depois uma semana na Canastra – incluindo pratos com torresmo, frango frito, mais um jantar de esbórnia no início de dezembro, em que só eu tomei uma garrafa de espumante, e lá estava eu com 2,5kg a mais. Minhas calças 40 não estavam mais folgadas. De volta à rotina de vida regrada, capricha na dedicação à ergométrica, e pronto, quase de volta aos 63.

– Não sou fã de exercícios físicos, mas alguns truques mentais ajudam. Tenho uma amiga que corre, corre muito, e teve um jantar que ela contou que estava no primeiro treino depois de ter passado umas semanas de molho por uma lesão. Faltava uma volta, e o cara das garrafinhas de água falou “não se preocupe, só falta uma volta”, e ela disse que ficou muito brava. “Você gosta de fotografar, era como se o cara te falasse ‘não se preocupe, só falta um pouco pra acabar o dia’. Eu não queria que acabasse!”. Essa história me fez um clique, me ajuda a pensar nos exercícios de outro jeito. Nunca mais pensei “caramba. Ainda tenho que ficar aqui 30 minutos”, “agora penso: já corri 20, só tenho mais 20, tenho que aproveitar esse tempo, é o momento em que estou diminuindo minhas chances de ter um ataque cardíaco, e pra emagrecer!”.

– Faço os exercícios ouvindo música com fone, em volume alto, músicas favoritas, então isso também ajuda a ser menos chato.

– Coloco metas, faço acordos mentais comigo – “você acha que não vai conseguir? Então chegue até o quilômetro tal e depois a gente decide se continua ou não” (eu e o Smeagol) “Está se sentindo bem? Então vamos continuar mais um pouco, até o quilômetro tal”, “Sentiu a panturrilha? Alongamento mal feito. Melhor parar agora, pra não machucar, e poder voltar a fazer amanhã”. Com essas barganhas o exercício nunca fica pesado demais, ou chato demais. Acho que se você associa o momento a sofrimento, cansaço extremo e dor, fica mais difícil incluir como hábito de vida. Se você cria mecanismos pra ser sempre algo dentro do seu alcance, daí tudo bem.

– É um grande prazer suar muito, de escorrer pelos ombros, pelas costas, pela barriga. Você se sente honrando seu compromisso de cuidar de si.

Ainda não sou uma mulher magra. Não sei se um dia serei. Sou coxuda, não tenho braços finos. O Cris gosta de mim de qualquer jeito, ele gostava de mim com 70kg, mas agora se diverte em ficar apertando os ossos das minhas costelas, dos meus ombros. Gosto de comer e de beber. Eu ia gostar de chegar aos 60, ou até 59 ou 58. Mas ou eu me aplico ainda mais aos exercícios, talvez a ponto de ter que ir pra uma academia, ou terei que ser mais regrada ainda pras refeições, não sei se quero isso. Talvez fique por aqui mesmo.

Sei que o metabolismo muda com o tempo, mas estou confiante de que poderei passar vários anos no comando do meu peso. Uns anos atrás, a ideia de carnes magras e exercícios parecia pesadelo. Hoje sei que dá pra fazer de um jeito que você não se sente torturada e infeliz.

Todo mundo pode emagrecer e ter hábitos mais saudáveis. Jogue a seu favor. Não compre as coisas erradas. Tempere gostoso as comidas saudáveis, mesmo que elas fiquem menos light. Se pese todos os dias. Evite doces, massas, fritura, álcool. Se vai pra algum desses itens, escolha só um: se vai beber, não pegue o doce. Consiga um exercício aeróbico que possa entrar pra sua rotina, que não seja chato demais.

Em qualquer atividade podemos olhar os extremos e pensar “argh! Não quero isso pra mim”. Não quero ser uma marombeira com barriga tanquinho, não quero passar três horas por dia na academia e só usar calça justa, não quero virar Narciso e morrer em frente ao espelho d´água, não quero virar alguém que acha que a aparência importa mais do que importa de fato. Mas ninguém precisa chegar aí.

Seu corpo. Mais do que seu corpo: é você. Não temos obrigação de cuidar de nós? Esse amontoado de ossos e carne que somos nós, não é só pela vaidade. É pra ter mais fôlego pra passear e se divertir, pra viver mais tempo e ainda ter pique pra brincar com netos ou sobrinhos. Pra se olhar no espelho e se sentir você, não uma estranha que se perdeu em algum lugar de carências, mágoa e ansiedade.

Umas semanas atrás estava assistindo a TV com meus pais, e passou uma reportagem mostrando dois jovens: um jovem empresário que tinha rotina de exercícios, corrida, suco detox, tapioca de manhã, e mais exercícios na hora do almoço, e uma garota que saía de casa correndo, sem tomar café da manhã, almoçava feijoada, torresmo, nenhuma verdura, jantava pastel. Logo após a reportagem, apareceu uma pergunta de um dos telespectadores “será que a diferença entre os dois não é principalmente tempo?”. Claro, o rapaz era rico, a moça não. Não é qualquer um que pode fazer exercícios de manhã e na hora do almoço. Mas qualquer um pode escolher comer direito, e já ter 85% do resultado, e deveria ser capaz de arrumar tempo pra fazer exercício físico, porque os 15% podem ser da aparência, mas contam muito mais no quesito saúde, disposição e qualidade de vida.

O post é sombrio pra aparecer justo em dezembro, perto das festas? Pelo contrário, parece um ótimo timing. Coma, beba, divirta-se, só não precisa enfiar o pé na jaca. Dá pra participar de todas as festividades, mas consumindo quantidades menores de tudo, e se possível tentando compensar com exercícios aeróbicos. Imagina a alegria de chegar no início de janeiro e continuar em paz com suas calças jeans sem lycra.