Perguntas pra quem destila ódio, desprezo e jocosidade contra as lutas de mulheres, homossexuais, gordos, negros ou qualquer outra etnia que sofre xenofobia

– Você gosta de você?

– Gosta de verdade?

– Você se conhece? Você sabe quais são suas qualidades, seus defeitos, o que você precisa melhorar, o que é motivo de orgulho?

– Você sabe quais são seus valores?

– Quais dos seus valores justificam rir da humilhação, tortura, estupro e assassinato dos outros e sabotar as mudanças pra que elas parem de acontecer?

– Em qualquer uma dessas situações em que você discursou, às vezes em caixa alta, contra o mimimi desse bando de vagabundos e vadias desocupadas, em algum momento você tentou imaginar como seria se você estivesse no lugar deles? Ou se fosse com alguém próximo? Se fosse sua filha ou sua mãe que enfiaram a mão na buceta ou estupraram mesmo, se fosse seu filho chorando todos os dias porque os colegas riem dele e batem nele porque ele é gordinho, ou como seria se você tivesse nascido com a pele escura, ou com um rosto que faz desconhecidos se sentirem no direito de fazerem micagens pra você na rua, gritarem palavras sem sentido e acharem tudo engraçado, ou partirem do princípio de que você é bandido e violento, ou quererem te espancar ou te matar porque você ama quem você quiser… já pensou?

– Qual dos seus valores justifica tratar as pessoas como coisas ou como lixo?

— x — x

Fiz meu exercício quase diário de passear pelos portais de notícias e dar uma olhada nas caixas de comentários. E vem a pergunta de sempre “por que essas pessoas acham mais importante se agarrar a algum detalhe, ou reclamar de algum problema que não tem relação com as vítimas citadas na reportagem, pra tentar invalidar a dor do outro e, portanto, sabotar a luta do outro pra que o mundo mude?”

O Cris sempre me pergunta por que eu me torturo em ler caixas de comentários. É doído e deprimente, mas a leitura me dá uma medida do pensamento comum, acho importante saber o que se fala por aí, o que se pensa por aí.

Vocês repararam que o uol tem dado mais espaço para temas feministas? Coincidência ou não, soube que entraram duas jornalistas feministas, do Roller Derby. Não tenho nenhum detalhe do que rola, mas queria dizer que como leitora eu percebi que tem havido mais espaço. Me falaram que não é com facilidade que elas conseguem inserir as pautas feministas, mas agradeço muito pelo esforço, é visível.

Hoje por exemplo na seção Estilo de Vida, em vez de mostrar só as tendências de batom ou de roupas, tem estes artigos:

http://www1.folha.uol.com.br/colunas/marilizpereirajorge/2017/05/1881057-mulher-machista-morre-de-medo-de-mulher-facil.shtml

http://vilamulher.uol.com.br/bem-estar/comportamento/cultura-do-estupro-m0517-731201.html

https://estilo.uol.com.br/comportamento/noticias/redacao/2017/05/08/nao-confio-mais-nos-homens-diz-vitima-do-golpe-da-camisinha.htm

Este último link, que fala de homens que não gostam de usar camisinha, a mulher diz que não vai rolar se ele não colocar, ele coloca e de repente tira e a mulher só percebe quando ele goza – e daí vem o trauma, medo de Aids, gravidez, a mulher da reportagem disse que depois disso ficou frígida, está há 3 meses sem transar com ninguém, vem comentários como este:

E AQUELAS QUE ENGANAM OS HOMENS DIZENDO QUE TOMAM PÍLULA E DEPOIS APARECEREM GRÁVIDAS? ISSO É O QUE? E POR QUE A MÍDIA NUNCA DESTACOU O FATO QUE MUITOS HOMENS SOFREM ESSE GOLPE? PRINCIPALMENTE OS CARAS COM GRANA! PORTANTO, ME POUPEM DESSAS BABOSEIRAS FEMINISTAS QUE SÓ OLHAM UM LADO DA COISA!

Nossa, como me deprime.

Desculpe se acabei com seu dia também, mas depois de passar os olhos por comentários como esse, se tornou o assunto mais pungente.

Pra tentar não ser um post só de desabafo, e ter alguma utilidade, você identifica os erros de lógica do comentário da criatura?

1 – Se o homem realmente não quer um filho ele usa camisinha sempre e diminui em 90 a 95% a chance de uma gravidez indesejada. Risco de 5 a 10% é bem razoável, não?

2 – Por que a mídia nunca destacou esse tipo de golpe? Porque ele é fácil de ser evitado se você usa camisinha. Um caso em que, pra variar, o poder está na mão do homem. Porque se você caiu no golpe, significa que sua luxúria falou mais alto do que sua precaução e quem quer aparecer numa reportagem tendo que reconhecer que foi otário?

3 – Ninguém que acabou de se conhecer deveria fazer sexo sem camisinha. Se um cara rico transa com uma mulher recém-conhecida sem camisinha ele está sendo absolutamente estúpido. Ela pode falar que toma pílula, mas e o risco de DSTs, incluindo Aids? Se eles já têm um relacionamento há meses, em que rolou a confiança a ponto de não precisar ter medo de DSTs, e o cara não percebeu que está nas mãos de uma golpista que só quer engravidar dele pra ficar bem na vida, ele também está sendo bem estúpido, e que homem quer aparecer numa reportagem denúncia tendo que reconhecer que foi cego durante meses?

3 – Qual a diferença com o golpe da camisinha? O golpe da camisinha é uma noite, em geral a primeira noite. A mulher exigiu a camisinha, que é o jeito mais fácil, prático e confiável de se evitar gravidez e DST. Existe a camisinha feminina? Sim. Já tentou usar uma? Eu nunca usei, na minha época pré-Cris acho que nem existia, mas deem uma olhada nas fotos. É trambolho, faz barulho se não estiver com bastante lubrificante, tem risco de sair do lugar, de se enfiar na buceta e assim perder a eficácia. Se o homem acha que tem menos prazer tendo que usar a camisinha, não é diferente com a camisinha feminina, continua sendo uma barreira. E a camisinha feminina só serve pra sexo vaginal. Não foi feita pra sexo anal ou oral.

4 – Usar camisinha na primeira relação com uma pessoa é a coisa mais natural, ou que deveria ser a mais natural. Se o homem fala que vai por, que tipo de mulher pensa “ok, mas talvez você tire, então deixa eu me precaver e também vou colocar a camisinha feminina”.

Baboseira feminista. Com certeza a criatura que escreveu nunca pensou que sua filha pode engravidar ou pegar Aids porque teve um encontro e o cara decidiu tirar a camisinha durante a relação. Pense nisso, criatura.