Pela liberdade de fotografar e divulgar – fotografia em museus

Vocês já leram muitos textos que falam que fotografar é errado, e que saber observar e apreciar o momento é o certo.

Imagino que a discussão mais famosa é a de fotografia nos museus. O argumento do flash nem é mais citado, quem é contra fotografia no museu usa o argumento moral: o de que existe uma forma certa de apreciar uma obra de arte, e que tirar uma foto da obra ou um selfie com ela é errado. E que se você fotografa, você perde a capacidade de realmente apreciar a beleza daquela obra.

Olha como os argumentos estão errados:

1 – Com a proibição à fotografia, as pessoas absorvem mais a arte

A ausência da câmera não aumenta a capacidade cognitiva ou de concentração de ninguém, aliás, só nos prejudica. Você fica impedido de tirar uma foto da obra, da plaquinha que identifica, e continuar sua apreciação estética no Google, numa livraria. Você não pode divulgar sua foto nas redes sociais e promover o nome daquele artista e do museu, e também lhe é podado o prazer de rever aquela imagem no celular ou no computador.

2 – Ninguém precisa tirar fotos. Basta comprar um postal ou um livro do museu

Isso pode ser verdade se você quer uma imagem famosa, mas se você quer uma lembrança das obras menos conhecidas, ou de coisas como um brinco, um detalhe de um jarro?

Eu por exemplo sempre faço birdwatching em museus. Gosto de ficar procurando aves e outros animais nos detalhes das pinturas e das esculturas, nas artes decorativas. O crítico que condena as fotos pode me dar gratuitamente um livro bom e bonito exatamente com a seleção de imagens que eu sou capaz de fazer quando posso fotografar?

Outra bobagem desse argumento é ignorar a relação emocional com as fotos que você mesmo tirou, que estão no seu celular, ou no seu computador, ou na sua timeline. Essas fotos sempre serão muito mais valiosas do que qualquer imagem que você possa pegar de um livro ou de um download do site do museu.

3 – Fotografar as obras e tirar selfies com as obras é o jeito errado de apreciar um museu

Ah, polícia moral. O diretor do Museu do Prado, um dos poucos onde é proibido fotografar, declarou que não permite a fotografia porque quer que as pessoas apreciem o museu de um jeito tradicional. Nada de gente fazendo joinha do lado de uma estátua pensativa, ou de pessoas fazendo biquinho em frente ao quadro.

Falando dessa forma realmente parece que o Museu do Prado está certo, e que todos os outros estão errados. Mas será que a gente tem o direito de dizer como uma pessoa deve se relacionar com uma obra de arte? Tirando o óbvio como não fazer nada que possa danificá-la, se a pessoa olha para aquele quadro ou escultura e quer tirar uma foto engraçadinha posada ao lado dela, o que a gente tem a ver com isso? É porque visualmente nos ofende, porque gostaríamos de poder passear num museu em que os homens estão de calça comprida, cartola, as mulheres de vestido longo, todos com ares compenetrados, cochichando comentários inteligentes sobre a beleza de cada obra?

Oiê, estamos em 2016, isso é um devaneio. As pessoas vão aos museus de bermuda, chinelo,  têm celulares, câmeras, querem tirar selfies e postar imediatamente.

Se vou ficar meia hora parada em frente ao quadro, lágrimas correndo pelo meu rosto, momento epifânico, se vou tirar um selfie fazendo biquinho e ir pro próximo isso é problema meu. Desde que eu não seja invasiva de atrapalhar a circulação das outras pessoas, ou de me postar de um jeito que ninguém mais pode ver e, de preferência, que eu não fale alto, tenho o direito de fazer o que eu quiser, de me relacionar com aquela obra como eu quiser.

A luta deveria ser para desenvolvermos uma etiqueta de bons modos num espaço público. Em levar em consideração as pessoas ao nosso redor. Uma grande reclamação das pessoas que são contra fotografia em museus é de que você não pode apreciar uma obra sem que logo apareça um braço na sua frente. Isso pode ser verdade em frente a obras disputadíssimas como a Mona Lisa, ou a ala dos impressionistas. Mas olha só: o problema não são as câmeras, e sim a popularidade. Quem reclamou da câmera estaria igualmente incomodado pelo excesso de gente ao redor. Solução? Vá em horários e dias com menos movimento.

Eu já fotografei em um monte de museus e raramente atrapalho alguém, ou alguém me atrapalha. Em geral há espaço de sobra para ficar parado perto da obra, olhando, depois tirar o celular do bolso ou uma pequena câmera, registrar uma foto e pronto. Se a pessoa é espaçosa ou ruidosa ou folgada não foi a câmera que a tornou assim, a câmera é só um acessório.

As mudanças tecnológicas tornam cada vez mais fácil a gente cultivar um lado aéreo, impaciente, raso, procrastinador, ansioso pelas atualizações das nossas redes sociais e incapaz de se concentrar em algo por mais de alguns segundos. Mas gente, não é a proibição à fotografia que resolve isso.

 

Querem que as pessoas entendam melhor as obras de arte? Produzam vídeos pro Youtube, criem jogos e disputas

Se os diretores e críticos querem pessoas capazes de apreciar melhor as obras de arte, invistam em bons vídeos no Youtube com História da Arte, análise e crítica de obras de arte, relação da arte com o pop, com filmes, com livros. Vídeos bem feitos, divertidos, apresentados por alguém carismático. Invistam em formas de mostrar como a arte pode alterar sua visão do mundo, enriquecer seu cotidiano. Inventem algum tipo de caça ao tesouro semanal, coisas pra você procurar nos detalhes das obras. Alimentem o lado fofoqueiro — assim como as pessoas adoram falar de algum detalhe escandaloso da vida de celebridades, há muito para contar sobre a vida dos artistas (de preferência os mortos há muito tempo, em que a fofoca não prejudica nada). Conte sobre os conflitos, rivais, amantes, tragédias, mecenas, manias. Promovam workshops com noite de queijo e vinho sobre como ler, apreciar, degustar uma obra. Criem um jogo, um app que te explica por que aquela obra é incrível, que mostra as linhas de perspectiva da composição, close dos detalhes. Há várias estratégias para difundir o conhecimento.

A arte não precisa ter função ou objetivo, mas pra quem a considera algo restrito às paredes deprimentes de um museu estático em que tudo é proibido, mostrar como a arte reflete e influencia costumes e valores, que a arte pode ser inspiradora e libertadora, que a arte pode lhe ajudar a tirar fotos melhores, a ver mais beleza no mundo, a se vestir melhor, a ter uma casa mais bonita – essas coisas mudam sua visão de por que vale a pena contemplar as obras de arte.

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O Denver Art Museum tem várias áreas interativas. Cantinhos para você mexer com pedras coloridas, montagem de cenários, fazer cartões postais do velho oeste, poder colocar um chapéu de cowboy e se fotografar, poltronas com livros próximos que você pode pegar e folhear. Eles também têm uma sexta-feira por mês com happy hour e programações especiais para incentivar as pessoas a irem ao museu, socializarem. O Metropolitan tem programa para associados, bar na cobertura e promove encontros.

Há várias formas de fazer as pessoas se interessarem mais pela arte, sentirem que a arte faz parte de suas vidas. Colocar a culpa na câmera é só o jeito mais tolo de encontrar um bode expiatório para algo que é uma deficiência educacional e cultural das sociedades.

Atesto como experiência pessoal: dizer que sem câmera você curte mais um museu é besteira

Conheço o Louvre, o MET, o Museo Sorolla, o Denver Art Museum, o Getty Center, o Thyssen, o Museo Nacional de Antropologia, o Templo Mayor. E o Museo do Prado. Minha experiência no Prado não foi mais rica, pelo contrário. Lamento os detalhes ornamentais, as pinturas que já sumiram da minha memória e não tenho fotos pra relembrar. “Compra um livro do museu! Vá visitar o site do museu!” Se o Prado fosse o único museu que eu visitei na vida, faria isso. Mas não foi. Prefiro rever minhas fotos dos outros museus, passear pelo Google, pelo Pinterest. E assim quem perde é a divulgação das obras presentes no Prado.

Talvez você já tenha ouvido falar de uma pesquisa que diz que as pessoas que não fotografam lembram melhor das coisas. Parece interessante, não? Mas você sabe dos detalhes da pesquisa? Foi feita uma vez com 28 estudantes. http://www.cnet.com/news/constantly-taking-photos-may-mess-with-your-memory/

O outro detalhe da tal pesquisa é que a conclusão é muito óbvia: você pode fotografar qualquer coisa como um registro, pra não precisar guardar aquilo dentro da sua cabeça, e poder checar depois. Eu não decoro endereços de restaurantes, eu tiro uma foto da tela do Yelp ou do TripAdvisor. A pesquisa diz que apesar da memória do grupo com câmera ser pior no geral, era melhor para os casos em que foi pedido para eles fotografarem detalhes das obras. Isso não é óbvio? É tudo uma questão do seu foco.

Quando fotografo museus, o objetivo não é provar que estive lá ou postar no Facebook. Quero ter uma lembrança de obras que chamaram minha atenção, com uma seleção que eu nunca veria igual num livro. E com frequência não fotografo a obra inteira, mas um detalhe. Isso faz eu prestar mais atenção ainda na obra, além de poder levar comigo o registro da imagem do que me chamou a atenção. Como alguém pode dizer que isso faz eu absorver menos?

 

Algumas fotos de museus

The Metropolitan Museum of Art – MET – Nova York

 

Museo Nacional de Antropologia – Cidade do México

 

Museo Sorolla – Madrid

 

Getty Center – Los Angeles

 

Denver Art Museum – Denver

American Musem of Natural History – Nova York

 

Denver Museum of Nature and Science

(além de ser ótimo, tem salas de cinema Imax. Assistimos a um filme da BBC, o Tiny Giants, que fez o Cris e o Daniel chorarem. Eles ficaram bravos comigo quando contei que eu não chorei)

 

Thyssen-Bornemisza Museum – Los Angeles

 

Templo Mayor – Cidade do México

 

Louvre – Paris

 

Museo do Prado – Madrid

Nada.

Zero.

Regras idiotas fruto das fantasias de um diretor que tenta impor seu gosto pessoal sobre a realidade cotidiana.


Mais informações

Why Can’t We Take Pictures in Art Museums?