#partiudescansou tio Ki guerreiro

Muitos livros e CDs. Muitos. Uma estante e prateleiras cheias deles. Hoje eu sei que existem bibliotecas bem maiores, mas quando você é criança parecia bastante. Eu reparava como o meu pai se sentia à vontade, tanto pra entrar na casa quanto pra olhar, escolher, pegar emprestado. E esse meu tio era sempre um sossego só “peguem o que vocês quiserem. Já viram esse? É legal por tal coisa”.

Quando li Xogum, com uns 12 anos acho, era do tio Ki. O Enigma do Oito, com o apaixonante Solarin, um dos loiros da minha vida. Provavelmente meu tio tinha livros do Tolkien, mas a edição que eu li, quando tinha uns 13 anos, em três volumes, era do meu pai. CDs da Enya, conversas sobre acupuntura, terapia cromática, terapia de cristais.

Bondade, generosidade, paciência, tranquilidade. Não lembro de vê-lo irritado. Estava sempre sorrindo, e querendo nos dar coisas. Salgados e lanches do bar. Emprestava os livros e CDs e não havia pressa ou cobrança.

Ele e meu pai tinham muitas coisas em comum. Interesses culturais, sociais. Três anos atrás meu tio também estava se interessando por fotografia, assim como meu pai. Começaram a falar de viajar juntos, ir pro Pantanal.

Tenho certeza de que eles teriam feito viagens ótimas. Eu teria ajudado a montar as viagens. Talvez fosse com eles em alguma dessas viagens, e teríamos muito o que conversar sobre fotos e sobre os bichos. Quem sabe eles se tornassem até um pouco birdwatchers. Meu pai nunca quis viajar sem minha mãe, não por não saber viajar sozinho, mas por não ter coragem de deixá-la sozinha. Mas quem sabe ela e a tia Neusa tomassem coragem de ir junto e encontrassem diversão também.

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A vida é estranha e inexplicável.

Uma das maiores questões, que qualquer religião tenta responder, é “por que coisas ruins acontecem com pessoas boas?”.

Meu pai e a família dele são espíritas, e os espíritas têm explicações que remontam a outras vidas, a karmas. Não sei se são verdade, só sei que elas fazem sentido como explicação. Uma historinha racional… mas que no coração nunca faz sentido, você olha e nunca faz sentido, por que o que realmente pode fazer você se conformar que um homem tão bom como o meu tio Ki de repente se veja na pior prisão do mundo? Emparedado e incomunicável, mas consciente.

Um AVC que pegou o tronco cerebral. Quase três anos numa cama, sem conseguir mover nada. Nada. Nem mesmo piscar pra tentar dizer sim ou não ou indicar letras pra formar palavras. Mas estava lá. Não sei se ele estava consciente o tempo todo, mas numa das vezes que fui visitá-lo, depois de passar um tempo falando de viagens, fotos, filmes, não consegui não falar que eu não sabia por que essas coisas aconteciam, mas que só restava a gente acreditar que tinha um motivo e que um dia a gente ia conseguir entender. E ele chorou. Uma outra vez em que o filho dele passou por lá durante nossa visita, ele estava indo trabalhar, falou “tchau pai, te amo”, e deu um beijo na testa dele, e parecia que meu tio tentava mexer os lábios, um tremor. Era como se o corpo dele fosse uma máquina emperrada que já não podia obedecer nenhum comando, nem mesmo pra um beijo no filho.

Nos primeiros meses a gente tinha esperança de milagres. Desses milagres que acontecem às vezes… tinha tanta gente rezando, fazendo Reiki, mandando boas energias, curas à distância. Os médicos diziam que não tinha como ele melhorar, pelo contrário, que ele só iria definhar. Mas no começo a gente ainda acredita em milagres. Eu mesma fiz minhas mentalizações, dessas em que você agradece pela pessoa estar curada, imaginava ele e meu pai num barquinho no Pantanal, com as câmeras, bem contentes, sorrindo, luz bonita de céu meio nublado, não muito calor.

Então passaram os primeiros meses, fez um ano, depois mais meses, outro ano. Quase três anos. Eu nem tinha mais coragem de perguntar pro meu pai, porque sabia que não havia novidade alguma, nenhuma notícia boa, ou ele teria me contado.

Nos nossos últimos Natais, eu, meus irmãos e meus pais tínhamos combinado que em vez de presentes, a gente converteria em dinheiro pra família do meu tio. Eles tinham muitos gastos. Ele ficava na casa dele, mas sempre tinha uma enfermeira junto. A Maçonaria também ajudava com dinheiro, e tenho certeza que outras pessoas também. Uma pessoa muito querida.

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Ninguém liga no telefone fixo, só a mãe do Cris. Ou durante o dia pode ser alguém tentando me vender algo, pedir doação, ou me ler um trecho da Bíblia. A gente estava começando a preparar o jantar, era de noite, mandei o Cris atender “deve ser sua mãe”, mas não era a mãe do Cris, era a minha.

Pra contar que tinha acabado.

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Foi o fim de quase três anos torturado preso no seu próprio corpo consciente e incomunicável. E a família é espírita, eles têm certeza de que a alma do meu tio continua. Eu devia só comemorar, não? A gente devia só comemorar.

Mas em vez de só comemoração, o que eu sentia era tristeza. Tristeza dessas que você quer beber muito e ficar falando da pessoa, tristeza dessas que te faz ligar bêbada pro seu pai (eu ainda não tinha falado com ele, só com a minha mãe),

“pai, eu já comi, já bebi bastante, e essa tristeza não passa, não passa”

Eu não tinha ligado e falado “meu sentimentos, que droga, como ele faz falta”, eu liguei pra contar que estava bêbada e a dor não passava. Então ouvi uma pergunta engraçada, era como se ele tivesse pensado por dois segundos e perguntou de forma meio abrupta “o que você bebeu?”

“Vodca e espumante”

“Ah, Clau, não fica assim. Você sabe que agora ele descansou. Agora ele está bem. Não posso falar mais agora, tenho que ir lá com a Tereza. A gente se vê amanhã” — não sei se o comentário seria diferente se eu tivesse bebido cerveja, ou pinga, ou vinho tinto, ou uísque, ou margaritas.

Tomamos duas garrafas de espumante. Não. Um espumante e um champagne. Porque a gente não tem mais nenhuma garrafa de vinho em casa. Já chegamos a ter mais de 30 no armário que agora tem os gibis, mas essa história de querer emagrecer fez a gente mudar a assinatura da Wine, e chegamos onde chegamos: na miséria alcoólica.

Fui dormir pensando na Liberdade. Compraria muitos motis e outros doces, além de bentôs, e chegaria no velório gloriosamente distribuindo comida pras pessoas.

Pura fantasia.

A realidade foi de repente olhar no celular e ler “enterro às 14h”, só que são 11h, você acabou de sair da cama, está a 150km do cemitério e bebeu muito na noite anterior, não pode só sair, tem que comer algo. Você pensa “Chego às 13h30, fico meia hora no velório, não será o fim da picada”, mas no caminho sua irmã liga pra explicar que o corpo vai sair do velório às 13h15.

Chegamos no momento em que o carro da funerária já estava saindo da Maçonaria, senti que muita gente olhava pra mim, porque sou uma japonesa de cabelo avermelhado descendo de um carro no momento em que o carro da funerária está saindo. Logo vi meu pai e eu não tinha certeza se ele estava bravo comigo, ele não tinha atendido minha ligação. Me abraçou, pedi desculpas, ele falou “imagine, não tem importância”. (Depois meu pai me disse que tinha tentado convencer meu primo que enterro às 14h era difícil pra quem vinha de outras cidades – e pra quem tinha bebido o morto na noite anterior foi quase impossível, mas meu primo queria encerrar esse capítulo. Eu nunca imaginei que o enterro seria cedo).

Fui pro cemitério. Consegui ainda falar com meus primos e tios antes do caixão descer. Minha irmã tinha falado que talvez abrissem de novo o caixão no cemitério, mas não, foi direto pro túmulo dos Komesu. Onde estão os pais do meu pai, e a irmã do meu pai que morreu aos 22. E agora tem o caixão do tio Ki. O paletó de madeira. Restos de um corpo que tinha emperrado não se sabe por que, ninguém sabe por que, acabando com todos os sonhos das lindas viagens juntos nessa vida.

As viagens que não aconteceram. As fotos que eles não tiraram juntos.

A gente pode acreditar que há um sentido, uma explicação, e que toda essa tortura serviu pra alguma coisa bem importante.

Ou também dá pra pensar que não há motivo algum. Merdas acontecem, a qualquer momento, pra qualquer um. Mesmo pra pessoas boas. Mesmo pras melhores pessoas.

Eu acho que a alma do meu tio continua. Não sou espírita, mas comprei a explicação da Anne Rice, a ideia de que algumas almas têm solidez e força de vontade o suficiente pra continuarem existindo mesmo depois que o corpo morre. Acho que nem todos continuam (pensa nas pessoas que vocês conhecem… não faz sentido que os chuchus simplesmente se desintegrem? Se não tem nada lá, vai continuar o quê?), mas se algumas continuam, tenho certeza de que meu tio é uma delas. E ele continua existindo. Como uma criatura de luz, que por algum motivo bizarro teve que viver emparedado por três anos, mas agora zerou esse perrengue e está livre, feliz, na companhia de pessoas muito amadas.

Foi guerreiro, tio. Faz muita falta, mas todos estão felizes de te ver livre da prisão. Quem sabe, numa outra vida, vamos passear e fotografar juntos.

Com muito amor,

Claudia