Parte 3 – A criminalização do aborto como instrumento de controle social

Você é pobre. Engravida. Não tem coragem de abortar, seja por questões religiosas ou por medo de morrer ou ser torturada no SUS. O pai da criança some. Muitas vezes você tem que largar o estudo, o trabalho, ou então tem que se sujeitar aos trabalhos mal pagos de pessoas sem formação ou experiência, e com a limitação de horários de quem tem que cuidar de um filho. Seus filhos terão menos chances de estudar em boas escolas e mudar de faixa social. E assim a gente perpetua a pobreza, e muitas vezes o desespero pela pobreza favorece o envolvimento com furtos, assaltos, violência, a tentação das grandes quantias de dinheiro que circulam no mundo das drogas.

Veja bem: não estou dizendo que todo mundo que é pobre é ladrão e traficante. Mas quero ver alguém negar que é muito mais fácil entrar pro mundo do crime e do tráfico se você está desesperado por dinheiro. É bem mais incomum a pessoa ter opção de um bom emprego mas preferir entrar pro mundo do crime (não estou falando de corrupção, é claro). Imagine a vida de alguém pra quem a melhor opção é se arriscar a levar um tiro da polícia, apanhar, ser estuprado na cadeia.

A bancada religiosa que não permite a descriminalização do aborto no Brasil, pelo contrário, só tenta deixar a legislação cada vez pior (proibir o aborto em qualquer caso, mesmo em estupro ou em bebês sem cérebro, tornar o aborto crime hediondo, anos de prisão pra qualquer pessoa que tiver ajudado a mulher a abortar) faz um belo serviço em perpetuar esse quadro de crueldade, pobreza e violência. Não sei se é de propósito ou não. Talvez seja. Esses números que eu mostrei não são segredo, e qualquer um que pare pra pensar no assunto sabe como um filho não planejado piora muito as chances de ascensão social de uma mulher. Somos um Estado teoricamente laico, #sóquenão.

Entenda: qualquer casal pode engravidar. Como disse Dráuzio Varella, até médicas ginecologistas engravidam sem querer. 55% dos bebês que nasceram nos últimos anos não estavam nos planos.

Ao criminalizar o aborto, o que o governo consegue é dificultar ainda mais a vida das mulheres pobres, que terão mais dificuldade ainda de ter ascensão social, e vão perpetuar um modelo de família em que seus filhos crescerão em condições difíceis, também com probabilidades mais baixas de ascensão social.

Bonito, não? É tão perverso que não pode ser por acaso. Só consigo acreditar que o discurso da sacralidade da vida é a cortina de fumaça — e que muitas pessoas de bem infelizmente caem nele, mas que os políticos realmente responsáveis por impedir a descriminalização do aborto têm interesses econômicos em perpetuar a pobreza. Provavelmente pra manter os currais eleitorais, a dependência de programas assistencialistas e o controle dos votos.