Para misantropos em busca de companhia

Oi meu amigo querido, fazia tempo que não tinha notícias suas. Pra variar, vou responder no blog porque suas questões podem ser as de outras pessoas também. Aliás, esse tema é universal, não depende nada da misantropia. Tem um detalhe que a gente fica em desvantagem, já vou falar sobre ele.

Como sempre digo, ninguém precisa ter um grande amor pra ser feliz. Mas o fato é que um grande amor resolve muitos vazios, cria sentido. Você pode se sentir realizado no seu hobby ou mesmo no seu trabalho, ou no trabalho voluntário que você decidiu se entregar de corpo e alma. Mas pensando em estatística, me parece que é mais provável que seja com uma outra pessoa.

Estatística? É aqui que os misantropos estão em desvantagem, já que a gente tem esse maldito cérebro exigente que não consegue se contentar, se conectar, se divertir como todo mundo faz, socorro, lobotomia por favor!!

Não, não… Estatisticamente? Mesmo eu sendo como sou, achei o Cris. Várias pessoas que me escrevem têm cônjuges ou namorados. No quietrev muita gente também tem. Se fosse fazer um levantamento sobre os misantropos que eu conheço, acho que a maioria está com alguém.

Mas e você. Você é azarado? Tem algo errado com você? Por que você ainda não encontrou uma pessoa legal, não precisa ser nem The One pra vida toda, mas por que não consegue encontrar uma garota legal com quem você se sinta conectado?

Tem vários motivos pra alguém estar sozinho, seja misantropo ou não. Vou falar sobre o que eu sei de você.

Você passou muito tempo se sabotando. Não sei se você já conseguiu resolver esse quartinho fedorento de achar que você não merece ser feliz porque você tem pouco dinheiro. Espero que tenha diminuído bastante, quem sabe até dado um fim nessa inception errada.

Esse é o motivo número um e ele é fundamental. Você tem que ter dado um jeito nisso. De verdade. Senão diminuem muito, mas muito mesmo suas chances de conhecer alguém. Sou pobre, sou feia, sou gorda, sou chato, não tenho emprego, não mereço… qualquer pensamento desse tipo é auto-sabotagem. Eu só comecei a sair depois dos 19 anos, nunca nem beijei ninguém antes disso. É verdade que minha mãe era traumatizada por ter engravidado sem querer, e dizia que a gente não podia namorar porque senão atrapalharia os estudos, e que a maior dor que uma filha poderia causar pra uma mãe é ficar grávida (por essas e outras o Cris acha que eu não quero ter filhos por traumas de família 🙂 ).

Mas muita gente tem pais restritivos e namora escondido. Olhando pra trás, consigo ver que desde os 12 anos sempre havia garotos interessados em mim, que gostavam de conversar comigo, que me ligavam depois da escola. Mas eu era sempre muito séria, achava que tudo era apenas amizade, e você sabe por que. Eu tinha a inception de que tinha algo errado comigo. Eu era feia, já tinha visto minha mãe falar, com gestos, que eu tinha uma carona grande demais, e tinha a maldição de ter essa cara estranha, e tinha o bullying nas ruas. Esse tipo de inception é auto-sabotagem total, corta qualquer chance, tanto em termos místicos de energia, como de fato, seus pensamentos, ações, percepção, respostas.

O tal livro de neurociência da Lisa Barret que estou lendo a conta-gotas, mas gostando muito, fala o tempo inteiro como a realidade é uma fração de percepção e uma grande parcela de adivinhações do seu cérebro. Por uma questão de gasto de energia, pra poupar o máximo de energia, a gente não reage a o que nós vemos. A gente reage usando experiências anteriores ou, na ausência de experiências, usando as informações armazenadas sobre o que provavelmente está acontecendo.

Se você tem a inception de quem tem algo errado com você, tudo que você enxerga, ouve, fala e reage te orienta pra isso. Pra te sabotar.

Então me diga como estamos nessa questão. Você conseguiu se livrar do pensamento de que por ter pouco dinheiro e família complicada você não pode conhecer alguém legal? Você está alimentando a porra da lista de qualidades, e sabe falar de coração, na ponta da língua, com orgulho e tranquilidade a lista de motivos de por que você gosta de você, por que você é incrível?

Se não estiver bom nesse ponto, é aí que você tem que se dedicar intensamente.

 

Ok, segundo passo, não em questão de ordem, porque você tem que fazer tudo junto, mas talvez em importância. Está cuidando de você, da sua aparência, tá fazendo propaganda de você nas redes sociais, tem se preocupado em tirar fotos e selfies em que você aparece bonitão? Desculpe, sabe como é minha relação com o Facebook, faz tempo que não vejo sua página, mas é só porque não vejo a página de ninguém. Você tem que fazer propaganda de você. Fotos bonitas de você, falar de coisas que você gosta, participar de algumas conversas e mostrar que você não é só um rostinho bonito, que tem conteúdo também 🙂 Aumentar suas chances de alguém reparar em você e querer te conhecer melhor.

Eu sei. Eu sei que interagir com as pessoas é uma chatice, que conversar pode ser muito chato. Mas não tem outro jeito. Esse é o tal ponto em que ficamos em desvantagem. A gente adora ficar em casa, no sossego, fazendo as coisas que a gente gosta. Mas se há uma inquietação, se sentimos que tem algo faltando em nossas vidas, a gente precisa ir atrás desse sentido. Que muitas vezes é a companhia de alguém tão incrível quanto nós. Só que essa busca precisa ser ativa, a mágica não acontece dentro da nossa torre, é fora.

Vinte anos atrás, quando ainda não existiam redes sociais, a internet tinha começado há pouco tempo, as pessoas interagiam por chats. Codinomes, sem fotos, só o texto na hora. Conheci muita gente assim. Começava teclando, se gostava o suficiente marcava um encontro ao vivo, às vezes sem nem saber a cara da pessoa. Meus pais nunca souberam e não sabem disso até hoje. Era aquela época que os jornais falavam muito mal de chats, dos perigos de se conhecer pessoas assim, até hoje eles falam de casos de gente que se conheceu pela internet e se deu mal.

Está vendo onde quero chegar, não?

Sem piedade pra você, meu amigo. Você precisa de volume. Sabe que eu tenho essa estatística de que 90%, ou talvez 99% das pessoas não valem a pena. Então você tem que ir pra pescaria sabendo que a taxa de sucesso é nesse nível.

Tem uma mulher, que na época eu achava que era minha amiga, que saiu com uns quatro caras e não deu certo, e dizia que estava de saco cheio de relacionamentos, que não queria mais se relacionar com ninguém. Eu pensava “ah, vá, faça-me o favor… porque você saiu com quatro caras e não deu certo você assume essa postura de auto-piedade?”. Se ela tivesse saído com 30 caras e nada, acho que eu beberia com ela e diria “que droga de mundo, tá difícil”. Mas quatro e ficar se lamuriando é vergonhoso.

 

Eu acredito em intuição. Não acho errado você ser guia turístico da sobrinha bonita, mas logo sentir que não rolou, que vocês não têm conexão. Quer dizer, uma parte é intuição, outra é testar mesmo. Você já deve ter lido esses posts em que eu comento que o baby steps, começar com assuntos inofensivos, ir devagar é sempre o caminho mais seguro. Mas que eu não fazia isso. Na minha época de putaria, eu começava a conversa com assuntos polêmicos pra ver como o cara reagia. Sexo, valores morais, gostos literários, hobby, paixões, sei lá, você vai criando sua lista de valores. Em geral eu descartava gente que escrevia muito errado, que não gostava de escritores ou compositores bons (não precisávamos ter os mesmos gostos, mas se ela não tivesse alguns bons na lista, era fator de corte), descartava gente agressiva, moralista, indecisa demais, que não sabia o que queria ou do que gostava. Gente que não sabia desenvolver uma conversa, dar uma resposta satisfatória, me fazer perguntas.

 

Mas envolve volume 🙂 Você já sabe o que eu penso de gente que saiu com quatro e não deu certo e começa a dizer que não quer se relacionar com mais ninguém. Você tem que se arriscar. Tem que ir pra rua disposto a conhecer gente. Tem que usar as redes sociais e os aplicativos a seu favor. Tem que dar uma chance pras pessoas, saber que não está procurando a pessoa perfeita, apenas alguém com quem você sinta o mínimo de conexão, que você gosta da companhia e vice-versa, e depois vocês descobrem o que mais rola.

 

E lembra que é como eu falei: você não precisa impressionar ninguém. Ninguém devia ir a um encontro disposto a impressionar, ou com medo de ser testado. Somos o que somos. É simples assim: qualquer ser humano que valha a pena te avalia pela sua essência. Seus valores morais, o que você pensa sobre o mundo. Não importa seu conhecimento ou falta de conhecimento ou vivência. Eu falei dos meus critérios pra decidir se encontraria ou não um cara, mas estou falando de pré-triagem. Ao vivo… ao vivo acho que critério de exclusão seria o cara gostar dos funks agressivos, do Bolsonaro, do Trump, qualquer comportamento homofóbico, xenofóbico, muito machista. Eu não gosto de sertanejo mas não deixaria de conversar com um cara porque ele gosta. Tentaria descobrir o que podemos ter em comum. O que ele pensa sobre a natureza e questões de preservação. O que ele pensa sobre aborto, feminismo, sobre política, religião. O que ele gosta de fazer, o que é importante pra ele.

Qualquer pessoa que você conhecer sempre será bem diferente de você. Eu e o Cris temos milhões de coisas em que somos diferentes e que tivemos que aprender a nos respeitar. Pra decidir se vale a pena ficar com alguém, o que conta são os pontos que unem, onde rola a sintonia e fruição, onde você se sente acolhido, compreendido, abraçado.

Você vai descobrir isso conversando com as pessoas.

E tem que ser num volume grande.

Encontre as pessoas, ou comece a conversa online, descubra do que a pessoa gosta, se ela parecer interessante evolua a conversa. Lembra sempre que você deve tentar direcionar as perguntas pra um nível mais pessoal, mais profundo “por que você gosta de tal coisa? O que te atraiu em “, e ela tem que ser capaz de falar algo que preste, não uma resposta esquiva. E ela tem que fazer perguntas sobre você, se só ela fala e não te pergunta nada, descarte também.

 

Sai da torre e vai pra rua. Se você me disser que não tem mais a inception de que um homem com pouco dinheiro e família complicada não pode ser feliz, que a maior parte do tempo você sabe que você é incrível, que você saiu com 30 garotas e nada deu certo… daí eu aceito me lamuriar com você 🙂

 

Pra saber mais sobre quartinhos fedorentos e  a porra da lista de qualidades: http://claudiakomesu.club/?s=fedorento

Como conhecer pessoas legais – especial para misantropos