Outras armadilhas da empatia: pensar em como seria pra você em vez de tentar se imaginar na situação do outro

Você fez o post sobre o atendente da NET?

Fiz, postei ontem

O cara ficou insistindo?

Ela falou umas duas vezes que ele estava sendo invasivo e que era errado, mas ele continuou o diálogo, com muita certeza de que não estava fazendo nada demais.

Caramba… mas ela pediu também.

Como assim?

Por que ela deu corda pra ele falar?

Ela não deu corda. Ela disse que era errado entrar em contato com ela usando os dados do cadastro de cliente, que era algo invasivo.

Daí ele respondeu, e ela respondeu de novo… se fosse eu só teria bloqueado o cara.

Se fosse eu, teria feito a mesma coisa que ela.

Por que ela colocou no Facebook? Por que ela só não bloqueou o cara, não falou mais com ele? Não é estranho? Ela reclama de uma invasão de privacidade, e depois coloca a historia no Facebook?

Ela colocou no Facebook com um objetivo.

Eu não teria feito isso. Teria apenas bloqueado o cara, pronto, fim da problema.

E se você fosse mulher?

Como assim?

E se você fosse uma mulher, que está sabendo de várias historias de outros atendentes de telemarketing e taxistas que têm usado os dados de sistema para “cantar” mulheres. Ela não é a única, tem várias outras historias.

Se eu fosse mulher eu teria feito uma denúncia pra NET, mas não teria me exposto como ela fez. A não ser que você seja uma jornalista procurando uma historia.

Eu teria feito a mesma coisa que ela.

Você é um tipo de jornalista. E você tem um dom pra comunicação.

Não, sou uma pessoa comum, e qualquer um poderia fazer uma denúncia dessas. O que esse atendente fez foi errado.

Mas daí ela coloca no Facebook? Agora que ele vem pra cima dela.

Não. Acho que a historia repercutiu e vai fazer com que as pessoas fiquem mais ligadas. No mínimo as empresas precisam fazer treinamento constante tocando o terror nos funcionários, pra explicar como eles precisam entender as questões de privacidade de dados do cliente.

O Facebook é um lugar perigoso, as redes são um lugar perigoso, ela está se expondo.

Como assim?

Aquelas historias que a gente vê, de como a repercussão desses casos alimenta a satisfação dos caras que são doentes.

Eu acho que as historias que a gente vê mostram exceções, e que são poucos os casos de pessoas doentes assim. Acho que a maioria dos caras que usaram os dados de cadastro são apenas gente sem noção, que não entende que o fato dele saber o número não significa que ele pode usar o número. O que a moça fez foi certo, tem muitas coisas que você só consegue resolver se colocar a boca no trombone, se fizer escândalo. Ela fez isso pra que outras mulheres não passem por situações como essas. Essa historia de que cada um vive a sua vida é errado, a gente vive em sociedade, temos que pensar em como o que a gente faz repercute na vida dos outros. Inclusive pra correr alguns riscos se tiver a chance de melhorar a vida das pessoas.

Fomos pegar comida no buffet, ficamos em silêncio por alguns momentos, e depois ele me falou “Você tem razão”. Fiquei feliz por ele entender e fiz um carinho na bochecha dele.

Quando essa conversa começou e tive que ouvir a famosa frase “mas ela pediu, hein?”, usada pra tantas avaliações machistas, meu sangue ameaçou ferver mas consegui controlar e usar a famosa técnica de pedir pra pessoa falar mais, e depois ir fazendo perguntas. O ponto mais importante era ele entender que não estava pensando sob o ponto de vista das mulheres, e sim sob o ponto de vista dele. Quando chegamos nesse ponto, foi fácil.

Então, #ficaadica: se você quiser se juntar à marcha das vadias e qualquer outra luta contra o machismo sob todas as suas formas, mantenha a cabeça fria e tente a técnica de fazer o outro se imaginar na situação.

PS: eu nem sabia que a Marcha das Vadias de São Paulo era hoje… se não fosse pelo Tanquã, acho que teria ido.

PPS: saca só: a organização disse que a passeata reuniu 2 mil pessoas. A PM disse que foram 100. Só nesta foto do G1 tem pelo menos 300. Será que nossos queridos PMs são machistas?