Orgulhosamente misantropa

Hoje recebi meu primeiro email de leitor do .club. Alguém que se deu o trabalho de pesquisar meu email, pra escrever um agradecimento por descobrir que misantropia não é doença, que o fato dele gostar de ficar sozinho não é motivo de tratamento. Uma fofura.

Por causa desse email, deu vontade de voltar a escrever sobre misantropia, de ver como está o .club no ranking de pesquisa do Google. Descobri um povo vegano que tem usado misantropo ao pé da letra, no sentido de “ódio às pessoas”, colocando misantropia no mesmo balaio de racismo e xenofobia:

http://www.anda.jor.br/22/04/2015/racismo-xenofobia-misantropia-reacionarismo-quatro-cavaleiros-apocalipse-sabotar-imobilizar-veganismo

“Sandro Friedland: O misantropo é a pessoa que se divorciou da humanidade (e por consequência, de sua própria humanidade). Acredita que a humanidade está perdida, não tem jeito, é inerentemente má (com exceção dele, o misantropo, é claro). Por ele, a humanidade deveria ser extinta (com exceção dele próprio novamente, o que o torna na verdade um orgulhoso). A acredita que é o único “de bem”, defensor dos animais, contra todo o resto da humanidade que não coloca os animais dentro do círculo de preocupação exclusiva e máxima (nisso ele inclui também os veganos que se preocupam com a interseccionalidade – que para o misantropo, estão lá pra ‘manchar’ o veganismo com preocupações humanas mundanas.)”

Ignorando totalmente os termos que Wikipedia, Infoescola, Nobullying descrevem:

https://pt.wikipedia.org/wiki/Misantropia (o verbete da Wikipedia é muito bom, estou me sentindo mané por não ter lido antes. Até saquei por que a minha analista anda tentando falar sobre minhas tendências de análise negativa das pessoas e das situações):

“De modo geral, a misantropia tem facetas múltiplas, tanto positivas quanto negativas. Positivamente, misantropos são via de regra ótimos escritores, astutos observadores e pesquisadores da vida, criaturas sensíveis, inteligentes, críticos do status quo, seres perspicazes e filósofos por natureza. Adversamente, a hipersensibilidade e o idealismo do misantropo o levarão a viver em luta constante com ondas de pessimismo, apatia e isolacionismo, que, se não bem administradas, poderão afetar seu modo de viver e produzir.

(…)

Os misantropos expressam uma antipatia geral para com a humanidade e a sociedade, mas geralmente têm relações normais com indivíduos específicos (familiares, amigos, companheiros, por exemplo).

(…)

A misantropia não implica necessariamente uma atitude bizarra em relação à humanidade. Um misantropo não vive afastado do mundo, apenas é reservado (introvertido/tímido fundamentalmente) e, é precisamente por este fato que é habitual serem poucos os seus amigos ou pessoas que estabeleçam um vinculo afetivo. Olham para todas as pessoas com uma desconfiança, é frequente serem feitos “juízos de cálculo” (e na maioria das vezes acertam) de cada um que se aproxime, embora muitas vezes não o demonstrem.

(…)

Quando adulto, o misantropo tende a ser uma pessoa com o psicológico muito forte e difícil de ser abalado (ver: resiliência). Esta característica se deve ao fato do misantropo possuir uma alta sensibilidade, que lhe auxilia a entender o mundo de forma mais profunda, e a refletir durante seus inúmeros momentos de solidão. Misantropos são incansáveis pensadores. É importante salientar que misantropos, diferentemente das demais pessoas, não enxergam a solidão como algo negativo e trágico em suas vidas.

Viver sozinho e em constante pensamento é uma forma de entrar em contato com seu eu interior e descobrir a verdadeira razão de estar vivo e fazendo da vida suave e tranquila, o conceito errado de solidão e sofrimento para essas pessoas não existe”

http://www.infoescola.com/sociologia/misantropia/ (esse é bem mais fraquinho, mas colo mesmo assim, pra mostrar que até a infoescola não diz que o misantropia é problema)

Os misantropos são os indivíduos que assumem essa aversão ao ser humano. Em geral, possuem antipatia pela humanidade e pelas sociedades, mesmo que tenham relações normais com família, amigos e cônjuges. Por isso, a Misantropia  não indica necessariamente atitudes extremas. O misantropo não vive afastado do mundo ou é um assassino que mata para eliminar seu objeto de ódio, é apenas um indivíduo reservado, acostumado a desconfiar de todos que se aproximam. De hábitos mais restritos, não gostam de muita agitação, preferem ficar em casa a participar de festas e sofrem de variações de humor abruptas. Normalmente, são perfeccionistas no que fazem, por isso acabam se destacando. Principalmente porque dedicam grande parte do tempo ao trabalho.

http://nobullying.com/misanthropy/

In Western philosophy, misanthropy is viewed as being isolated from human society. However, misanthropes are capable of – and do have – satisfying relationships with specific individuals. A notable example is Oscar Wilde, who had a wife, two sons, and a lover in his 46-year life.

Eu não sei se esses veganos estão sendo maldosos ou apenas burros, mas se alguém tentar te falar que ser misantropo significa que você realmente odeia as pessoas, diga algo como “você está errado”, ou suas variantes (vai estudar, vai se foder, enfia no seu cu, etc).

Ah, e eu descobri que existe um misantropia.com.br que é cheio de discursos políticos. Que tristeza que o .com.br seja isso. Se alguém tentar lhe dizer que misantropia é ficar reclamando do governo, explica que não, que qualquer um pode comprar um domínio.

 

Eu sou misantropa e:

– tenho um grande controle sobre a minha vida. Escolho como quero passar o tempo, com quem. Adoro poder passar horas com meus amigos, jogando conversa fora, bebendo, fazendo nada. Mas sofro muito se sou obrigada a passar meia hora na companhia de pessoas que não são queridas, que estão lá só no small talk desperdiçando meu tempo.

– estou sempre vendo. No passado já desejei não poder ver, mas hoje só aceito que é assim. Se decidi prestar atenção em você vou ver você, sua postura, sua escolha de palavras, suas expressões, seus olhares, suas roupas, sua linguagem corporal, seus atos falhos, o que você disse x o que você queria dizer. Eu sei que é foda, que às vezes quando explico que o que você falou não é tão inocente ou aleatório como você acha, você realmente estava pensando que não tinha nada demais. Não posso fazer nada… no máximo ficar calada. Mas se pedir pra eu falar francamente, vai ter que ouvir.

– desfruto de deliciosas horas de silêncio, ou músicas favoritas, tranquilidade. Tenho muito tempo pra ler, escrever, pesquisar, desenhar, pensar sobre mim, sobre as pessoas, sobre coisas que eu vi, sobre significados.

– não tenho tempo pra papo furado nem pra social. Eu odeio fazer social. Gosto de conversar de verdade com as pessoas, sobre assuntos importantes e verdadeiros, mas papinho é a morte pra mim.

– me sinto um indivíduo. Uma pessoa acima de modismos, fofocas, olhares, risinhos.

– ainda assim, lamento muito não ser possível fechar os ouvidos como se fecham os olhos. Tem muitas coisas que eu não queria ouvir. Não as coisas sobre mim, mas as conversas aleatórias ouvidas na rua, nos restaurantes… a maioria eu não queria ter ouvido.

– sou bem feliz a maior parte do tempo.

– sinto compaixão, ternura e compreensão pelas pessoas, conhecidos e desconhecidos. De me fazer chorar só por ver o fervor como a mulher ajoelhada ora frente a uma imagem tão terrível de um Cris ensanguentado, de me dispor a ter conversas longas e sérias com gente que meus amigos dizem ser sem solução, de querer me intrometer em assuntos espinhosos porque envolve uma criança, e se eu não defendê-la, quem vai fazer isso? De acreditar que todo mundo merece uma segunda chance, que não se entra no mesmo rio duas vezes, que nossa vida não é um círculo e sim uma espiral, que podem parecer os mesmos erros ou problemas, mas não são, o Y está num ponto diferente.

– faço muitas coisas atrapalhadas ou idiotas – em geral gosto de divulgá-las, falar pra alguém próximo, me purga, faz eu me sentir limpa, sinto que não tenho do que me envergonhar, sem esqueletos no armário. Erro contas, mesmo as mais simples. Garanto que estou certa sobre algo, depois descubro que estou errada, e dizem que minha cara é impagável. Minto pra não chatear as pessoas, principalmente pra justificar minha ausência de algum evento. Fico brava e é comum não querer falar, apesar de eu estar obviamente furiosa, o Cris tem que quase implorar pra eu falar. Tenho momentos de desânimo, descrença, quase cinismo. Tenho dificuldade em dar descontos, uma tendência a levar as coisas a ferro e fogo, principalmente pra pessoas próximas. Não é contraditório com o segunda chance, só significa que a pessoa vai ter que ouvir um sermão. – não sei o quanto essas coisas têm a ver com misantropia, só deu vontade de escrever porque achei que o texto parecia um “Sou misantropa e sou o Super-Homem”. Se tivesse que pensar em alguém do universo das HQs, talvez “Sou misantropa e me identifico com o Demolidor”.

— x — x

Pensando sobre o camarado vegano que está propagando discursos de ódio contra os misantropos… tô achando que ele foi esnobado por uma misantropa ou misantropo. Talvez naquela linha de “desculpe, não quero ouvir o seu discurso, o que você fala não faz o menor sentido”.

No geral tenho desânimo pela humanidade. Ler caixas de comentários reforça a ideia de que 90, ou 95, ou 99% da humanidade não presta. Tentar fazer um movimento pra ajudar a natureza e ver que milhares de birdwatchers não querem gastar alguns minutos pra apoiar algo que os afeta diretamente, que nem depende tanto de altruísmo, desanima, me lembra por que eu sou misantropa.

O camarada vegano diz que os misantropos acham que a humanidade deveria ser extinta. Bom, é verdade que eu faço parte do Movimento de Extinção Voluntária da Raça Humana, já que sou uma mulher que não quer ter filhos :), mas não é a mesma coisa que desejar a extinção da humanidade. As pessoas são o que são, como descritas pela Jodie Foster em Contato. Tantas belezas e tantas atrocidades.

Outro grande erro do camarada é achar que misantropos são burros. Esse é o mais doído. Pode-se falar muita coisa dos misantropos, mas raramente alguém duvida da nossa inteligência. Mas esse senhor o faz, ao dizer que achamos que somos os únicos defensores dos animais, e que todo mundo tinha que colocar os animais dentro de um círculo de preocupação exclusiva e máxima.

Eu panfleto por várias coisas a favor dos animais, e nenhuma delas exige muito. Escrever uma mensagem de apoio num post do Facebook. Não comer palmito a não ser que você tenha certeza que veio de uma plantação mesmo, que não é de palmiteiro, que não é com selo esquentado. Se você é birdwatcher, pensar em como você pode ajudar na conservação da natureza. Se é um projeto pessoal, se é doações constantes pra ONGs, se é trabalho voluntário. “Preocupação exclusiva e máxima” é achar que a gente não entende nada da natureza humana. Me fale um assunto que é de preocupação exclusiva e máxima de alguém.

 

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