O sentido pra vida é decisão nossa

Cavaleiro,

O mundo precisa muito de gente que se importa, é uma das coisas que mais faz diferença no mundo. Vivemos nessa piramba não tanto pela ação dos maus, mas graças ao silêncio dos bons.

Não tem nada de errado em se importar, lutar, não se conformar, não aceitar, não se render.

Mas o ódio consome, não consome? Não traz insônia, inquietação, insatisfação eterna? Eu não desejaria isso pra ninguém, menos ainda pra alguém da nação misantropa.

Acredito que há um ponto de equilíbrio entre a omissão e o ódio, e que nenhuma dessas pontas é boa. Discordo dos meus colegas que me falam que me importo demais, que sou extremista por romper totalmente com gente que defende tortura. “Só ignore o que ela fala”. Não consegui. Assim como não ignoraria alguém falando de forma jocosa das atrocidades que as minorias sofrem. Entretanto, o que penso e faço está bem longe do ódio.

É bom se importar. Mas você é jovem demais pra uma vida de sacrifício. Você é jovem e está na idade de experimentar. Posso imaginar que você já viveu muita coisa, e se quiser me contar sobre sua vida de filme ou roteiro, vou gostar de saber :). Mas acredite em mim, tem muito mais pela frente. Muito. E pode ser lindo e maravilhoso, seguindo os valores que você quiser, seja no campo do conhecimento, intelecto, magia, trabalho voluntário, lutar por uma causa. Amor. Paixão.

Você tem uma vida toda pela frente, o melhor está por vir.

 

Se eu me conformo?

Talvez várias pessoas acreditem que eu tenho obrigação de fazer muito mais pelo mundo. Sou inteligente. Não tenho filhos biológicos, meu enteado logo será adulto e independente, só trabalho com o que eu quero, tenho tempo e algum dinheiro. Mas não me sinto em dívida com o mundo. Escolho minhas lutas e sei quais são meus valores. Eu decido o que está ao meu alcance, e como fica o balanço com as outras partes da minha vida.

Tive uma batalha ruim uns anos atrás, uma que me arrancou um pedaço da alma, escrevi sobre isso. Lidar com corrupção e mesquinharias no birdwatching, que até então era imaculado. Na época um cara que admiro bastante, um senhor de mais de 60 anos, que já fez vários trabalhos pro governo, me falou que eu tinha que ir mais devagar. Pra escolher minhas lutas, mas pra lutá-las de um jeito que eu pudesse durar por muito tempo. É um bom conselho, sensato, infelizmente na época já era tarde demais. Ou talvez só o fato de ver a corrupção já tenha mudado pra sempre minha visão do birdwatching.

Mesmo tendo minha família como prioridade, e passando muito tempo viajando, passeando, fotografando e, mesmo sendo misantropa, contribuí pra mudanças importantes no birdwatching e, tenho esperança, pra conservação da natureza brasileira. Inclui publicação de uma portaria estadual pra descriminalizar o porte de câmeras grandes :). Tenho um blog que é primeira página no Google sobre misantropia, um assunto que me interessa muito. Sou ostra nas redes sociais, mas quando escrevo sobre as questões do birdwatching, muitos colegas meus param pra ler, mesmo sendo meus textos enormes. Queria muito ter essa influência no feminismo, mas esse é um tema bem mais difícil, a campanha contra é pesada demais. Mas a passos lentos o feminismo avança.

Não classifico como ódio, mas esse é um dos temas que sempre me traz revolta. Ontem em especial eu estava chorando ao ler o Tab do Uol que fala dos garotos que tentam deixar a vida de crimes. A mesma história de sempre. Gente que cresceu na pobreza, mãe com um monte de filhos, pai sumiu. Esse é um dos temas feministas que poderia fazer uma tremenda diferença no Brasil. Educação sexual, planejamento familiar, direito ao aborto. Já reparou que países desenvolvidos x subdesenvolvidos em geral coincidem com o pode abortar x não pode abortar? Faz sentido, não? O que acontece com a vida de pessoas que têm um monte de filhos e nenhuma estrutura pra isso, e o que acontece com crianças que crescem num ambiente assim.

Meu sangue ferve de raiva pelo discurso a favor do direito à vida dos inocentes (inocente é quem ainda não nasceu, nascer é o pecado original), e tanta gente compra esse discurso, tanta gente boa sendo soldados dos grupos que lucram com pobreza, desespero e violência. Mas o que eu vou fazer quanto a isso? Por enquanto só tenho coragem de blogar, o tema é tão cabeludo que não tenho nem coragem de por no Facebook porque ia magoar muito meu pai, que talvez até já saiba o que eu penso, mas ter publicado no Facebook é outra história.

 

Quando estamos imbuídos, movidos por alguma força poderosa, que inclui o ódio, somos capazes de feitos extraordinários. Mas quanto tempo dá pra viver assim?

Eu queria que você tivesse uma vida boa. Ou que pelo menos passasse um tempo disposto a viver uma vida boa, que você pudesse andar um pouco mais no lado ensolarado e menos sintonizado com o abismo. O abismo é terrível, e quando você olha pro abismo, o abismo olha pra você.

Fazer o bem e ajudar os outros é algo muito nobre, e que ajuda a trazer muito sentido pra vida. Mas mesmo assim, o vazio e o ódio continuam. Dando uma de psicanalista de meia tigela, eu te diria que está faltando cuidar mais de você. Acho que todo mundo devia se colocar em primeiro lugar, e veja que se colocar em primeiro lugar nunca precisa ser sinônimo de ações desonrosas.

Estou com uma impressão de que você tem se anulado muito e não tem trabalhado pra descobrir do que você gosta, o que te dá prazer. Como se essas coisas fossem erradas.

Mas não são. Todo mundo precisa cultivar sua individualidade.

 

Você acha que consegue tentar ser feliz, pelo menos por um tempo?

Tem vários posts sobre o tema. Gostar de você, cuidar de você, a porra da lista de qualidades (não estou exaltada, é que os posts sobre ter de cor suas qualidades sempre é citado como a porra da lista de qualidades – questão histórica, a primeira vez que falei disso pra uma amiga, eu passei anos falando pra ela fazer, então virou a porra da lista), descobrir do que você gosta, se relacionar mais, convidar alguém pra sair, deixar de ser tímido, não ter medo de quebrar a cara, sentir-se no controle da sua vida, ter amigos bem queridos e especiais, se dar a chance de conhecer uma grande paixão, estar em paz com a família, não sofrer com o emprego.

Parece meio banal demais? Se pareceu, tente dar um crédito, como algo vindo de um misantropo que tem mais que o dobro da sua idade e um ticket dourado.

 

Obrigada pelo convite pro hermetismo, mas ainda não é o momento pra mim. E num outro post posso falar algo sobre vida de roteiro de filme ou seriado, mas imagino que a sua é assim, e você é bem-vindo pra me contar se quiser.

Parece um bom projeto pra 2018, não? Tentar ser mais feliz. Acreditar que você merece.