O que você tem feito pelo bem do mundo?

Somos seres sociais. A complexidade com que conseguimos interagir uns com os outros permitiu o desenvolvimento da cultura, além da conquista e talvez a destruição do planeta. Somos o abacaxi da biodiversidade, mas somos. Espetacularmente humanos.

Você ouvirá, lerá, e talvez até acreditará no mantra “cada um faz o que quer, e só o que importa é ser feliz”. É uma grande mentira. Animais solitários podem fazer o que quiserem. Quem vive em sociedade não pode fazer o que quer, porque cada ação tem efeito sobre os outros. Refiro-me ao terreno público. No campo afetivo, o que adultos fazem na sua intimidade de comum acordo não devia ser da conta de ninguém.

Temos obrigação moral de agir pelo bem do mundo. Claro, não existem obrigações reais. Ninguém fica doente, cai duro ou é preso por não estar fazendo o bem. Mas a questão moral continua. E não tenha dúvida de que o que faz a diferença não é a ação dos maus, mas o silêncio dos bons.

O que fazer? Frente a tantos problemas e causas, como escolher o que fazer? É insano achar que você pode ajudar em todas as frentes. As maiores chances de você realmente ajudar é escolher suas lutas, direcionar seus esforços, energia, competência, dinheiro, tempo.

Como fazer essa escolha? Imagino que há vários critérios possíveis, e aqui apresento os que me parecem ter mais chance de dar certo:

– deve ser algo que você consiga fazer sem grande sofrimento ou sacrifício. Pra que você consiga levar aquela tarefa por um bom tempo. Se for algo que demanda muito, é preciso que seja por um período curto e com data final. Pra que você possa manter essas ações como parte da sua vida.

– deve ser algo que você saiba fazer bem. Qualquer um pode doar dinheiro. Ou participar de um mutirão, trabalhar num evento, na limpeza e reforma de um local. Mas, a não ser que você seja um ótimo cozinheiro, ou pedreiro, ou empreiteiro, o melhor cenário seria você estar aplicando seu tempo nas ações em que você tem mais habilidades.

– todo mundo tem habilidades especiais, uma confluência de genética, histórico familiar, experiências vividas. Você deveria ser capaz de identificar os pontos em que você se destaca dos outros e, supondo que não seja nada que te deixa bravo consigo ou em conflitos, essa é a área que você deveria investir para oferecer ao mundo, pelo bem do mundo.

– é comum ter a ver com profissão. Faz sentido, certo? Aquilo que você escolheu fazer porque se sentia atraído, e depois estudou e trabalhou durante anos. Esse é o campo em que você tem um grande conhecimento acumulando, contatos, competência. E é nesse campo que você poderia pensar em como usar seus dons pra ajudar o mundo a ser um lugar melhor.

– eu sei que a questão pouco-tempo-contas-pra-pagar é foda. Mas não é motivo pra você pensar que não tem nada que possa fazer. Cultive a ideia de que você também pode ajudar, talvez de uma forma que tenha um prazo grande para entregar, e assim você consegue acomodar as demandas do trabalho-que-paga-as-contas. Ou assuma um compromisso por um período limitado de tempo, pra ver como aquela atividade se adapta à sua rotina. Aqui não é só uma questão moral, entra pro lado pessoal: faz bem pra caramba se sentir contribuindo pro bem do mundo.