O que vamos fazer agora? Qual a saída para esse labirinto de sofrimento?

Não tenha qualquer dúvida de que tenho muita consideração por você. Você já sabia disso, não? Mas tem coisas que o certo é a gente lembrar sempre, e pra isso existem as redes sociais em que as pessoas podem trocar afagos e, pra quem não frequente as redes, inbox ou e-mails ainda servem, mesmo que sejam com perguntas de uma única linha – e que terão como resposta quinze parágrafos 🙂

Vou publicar aqui, com a licença do anonimato. Porque acho que a gente tem obrigação de compartilhar e repercutir qualquer coisa que diminua a sensação de que as pessoas são de papelão.

Sobre o silêncio e os procrastinadores, está tudo bem. Acho que eu responderia alôs seus mesmo que houvesse várias mensagens sem resposta. Claro que é um pouco estranho, mas entendo procrastinadores e fora isso, é como um exercício zen escrever sinceramente, mesmo sem ter resposta.

Sei que sua vida é sempre corrida, mais corrida ainda graças ao dark playground, e agradeço por você ter parado pra escrever. Tão poucas pessoas são capazes de falar dos assuntos importantes, e eu preciso tanto. Não a ponto de ir trabalhar no CVV – acho que não tenho um lado abnegado o suficiente. Não consigo só ouvir e apoiar, difícil não falar o que me parece errado, e aí floresce minha fama de ser uma pessoa dura.

Você falou que o assunto está superado por hora, então talvez nem devesse tocar nisso. Mas volta e meia ele retorna, não? O Estado Islâmico, taí algo que realmente é melhor você não me passar os links. Tenho uma noção do assunto, e todo meu lado antropólogo de respeito à diversidade cultural entra em crise quando penso em genocídios e a forma como mulheres, crianças, os que não parecem bem straight sexualmente ou qualquer outra minoria (você sabe, não minoria numérica, mas na relação de poder) é tratada em diversas partes do mundo.

Há o Estado Islâmico e tantas outras atrocidades que se formos parar pra pensar, não é fácil ficar longe do suicídio. Talvez impossível até. E por isso precisamos dopar nossa alma e intelecto com atualidades e futilidades, porque a consciência aguda tira a vontade de viver.

Cada enxadada uma minhoca, não? Qualquer assunto que a gente queira olhar um pouco mais a fundo é o abismo nos olhando de volta. Estado Islâmico. Questões de preservação ambiental. Tráfico de animais. Tráfico de pessoas. Tráfico de órgãos. Drogas. Direito à sexualidade não-rotulada. Desigualdade social. Eleições. Pessoas propositadamente mantidas na pobreza e na ignorância. A pobreza cultural e espiritual que nos cerca.

Tantos abismos pra nos olharem de volta. Tantos dias de saco preto. Lembra de uma história de FC que lhe falei? Do cientista que descobre os princípios das viagens interestelares, ao mesmo tempo que coleciona notícias de atrocidades? Por fim escolhe jogar fora todo o projeto, entrar dentro do saco preto, fechar o zíper por dentro e morrer sufocado. Mas o amigo que foi lá checar se tinha sido mesmo suicídio recebe os cadernos salvos do lixo, e decide publicar. O conto chama-se “Uma coisa mais corajosa”, e nos vários dias em que penso “saco preto, saco preto”, tento lembrar que algo mais corajoso é acreditar nas coisas boas que o ser humano é capaz de fazer. Ou nos diálogos de Contato, em que o olhar alienígena pondera como somos capazes dos crimes mais hediondos, ou das criações e atos mais sublimes.

Também tento lembrar do Gandalf, falando que os pequenos atos de bondade contam muito no combate ao mal.

A longo prazo, numa escala humana, acho que estamos fodidos. Que o planeta vai implodir pela falta de recursos pra sustentar tanta gente, um fim provavelmente adiado algumas centenas de anos por algo como novas gripes-espanholas.

Não verei isso. Dizem que o Daniel e o Francisco verão o acirramento da crise dos recursos. A WWF diz que desde que nasci, a quantidade de vertebrados silvestres no mundo diminuiu pela metade, o que não parece mentira, se pensarmos naqueles mapas que mostram a devastação da Mata Atlântica desde a década de 1970.

Na escala macro, é tudo bastante desalentador, e há tantos temas pra enxadar e nos desesperarmos.

Mas podemos escolher, certo? Como sempre fazemos. Escolher embotar um tanto a consciência e ser capaz de continuar vivendo. Eu me afastei das notícias sobre meio ambiente, das ações que requerem colaboração dos outros, das discussões do Wikiaves ou de qualquer outro tipo e da comunidade de birdwatchers.

Quero passar todo o tempo possível com o Cris e o Daniel. Ver peixinhos. Voltar a desenhar. Passar horas deitados lendo, ou jogando PVZ. Cozinhar pra eles. Fazer brigadeiro pro Daniel e ouvir que é o melhor brigadeiro que ele já comeu. Andar pelas ruas de uma cidade turística, à noite, de mãos dadas, sem nenhum pensamento pelo futuro. Ter a honra de, numa conversa sobre primeiras lembranças, perguntar pro Daniel qual era a dele, e ele me contar que é ele, de pijama, engatinhando no chão do apartamento, indo na minha direção.

Você também não tem filhos, mas tem sobrinhos, não? Acompanhar o crescimento de um pequeno ser, mesmo não sendo pai biológico, é um privilégio sem tamanho.

Estou falando disso porque nos nossos próximos dias de saco preto, de o que vamos fazer agora, de qual é a saída para esse labirinto de sofrimento, talvez a gente consiga lembrar de Contato, Gandalf, ou as crianças, e isso nos ajude a sair mais rápido do clima sufocante.

Não espero nenhuma resposta sua 🙂 Pode falar alô de vez em quando, mesmo que você não responda, é bom escrever pra vida inteligente. Apareça em São Paulo quando quiser, e fique em casa.

Abração e boa sorte pra gente, pequenos bípedes sem plumas.