O que lhe traz alegria?

Estava lendo este artigo no quietrev. É uma ideia compartilhada por muita gente, e em que eu também acredito: a melhor forma de ajudar os outros é primeiro cuidando de si. Quem está machucado ou sofrendo ou traumatizado tem muito mais dificuldade de perceber os outros, porque tudo gira em torno da própria dor. http://www.quietrev.com/the-paradox-of-joy/

Quem se sente feliz está muito mais apto a ajudar os outros.

Mas o que é a alegria, a felicidade? Como é acordar sintonizado?

“I asked the Dalai Lama what it was like to wake up with joy, and he shared his experience each morning. ‘I think if you are an intensely religious believer, as soon as you wake up, you thank God for another day. And you try to do God’s will. For a nontheist like myself, but who is a Buddhist, as soon as I wake up, I remember Buddha’s teaching: the importance of kindness and compassion, wishing something good for others, or at least to reduce their suffering. Then I remember that everything is interrelated, the teaching of interdependence. So then I set my intention for the day: that this day should be meaningful. Meaningful means, if possible, serve and help others. If not possible, then at least not to harm others. That’s a meaningful day.’”

A declaração do Dalai Lama é bonita como sempre, e tenho certeza de que ela ilumina o caminho de muita gente. Mas não o meu. Gentileza, compaixão, não machucar os outros, esses não são meus ideais.

O que me traz alegria? O que eu desejaria vivenciar todos os dias?

Justiça.

Liberdade.

Power to the people.

As pessoas cada vez mais despertas, livrando-se das preocupações e angústias causadas por ilusões como a importância do padrão de beleza, de status, de likes. A ilusão de que existem times, do tipo coxinhas contra mortadelas, que vergonha ver tanta gente cair num dualismo tão barato.

Eu gostaria de ver as injustiças sendo cada vez mais combatidas e o bem vencendo a corrupção, a apatia, o descaso, o racismo, o machismo, a xenofobia, a destruição da natureza. Que cada vez mais pessoas fizessem escolhas a favor do respeito pelo outro, do reconhecimento de que não é a cor da pele, a religião, a aparência, as roupas, o fato de ser homem ou mulher que devia fazer uma pessoa ser bem tratada ou desprezada.

O fim da corrupção. Sabem quando de vez em quando aparecem as notícias sobre uma carteira ou um celular devolvido? É simples assim. Você não fica com o que não é seu, sejam os dois mil reais de fulano, sejam as centenas de milhões de reais que o povo foi obrigado a pagar na forma de impostos e que deveriam servir pra educação, segurança, saúde e qualidade de vida de todo mundo, e não pra serem convertidos em luxo e esbórnia para poucos.

Admiro o Budismo e os budistas. Mas meu caminho não é o da não-violência, nunca machucar ou causar sofrimento.

Uso sem cerimônia qualquer estratégia, mesmo que haja risco da pessoa se ofender ou se irritar comigo, quando há boas chances de trazer uma mudança que não aconteceria de outra forma ou que levaria muito tempo e energia se fosse pra ser feita pelo caminho suave.

Panfletei durante anos pela liberdade de fotografar e divulgar a natureza brasileira. Cartazinhos provocativos no Facebook. Alguns colegas vieram me falar que discordavam da estratégia, mas que reconheciam que chamava a atenção. E por fim conseguimos uma portaria estadual, a 236, que descriminalizou o porte de câmeras grandes nos parques estaduais do Estado de São Paulo.

Tenho discussões terríveis com o Cris, mas quase todas as vezes elas resolveram o problema, e ficamos mais próximos e mais conectados. Tive aquela briga com o meu pai, pra dizer que ele tinha que parar de comprar coisas pro meu sobrinho. Foi ruim na época, mas olha só: neste Natal não compramos nada. Já faz uns anos que decidimos não ter mais troca de presentes, e sim juntar o dinheiro que gastaríamos com presentes e dar pra algum parente que precisa. Neste ano nem meu sobrinho ganhou nada, eu queria comprar, mas meu pai falou “ele está brincando tanto com esses Smurfs, não precisa de nada novo”.

Talvez isso tivesse acontecido sem a discussão, talvez não, mas eu achei maravilhoso e me sinto no direito de pensar que aquela briga de meses atrás lançou uma semente.

Ver alguém se livrando de uma ilusão, de um preconceito, de um hábito ruim, de uma escravidão a algum valor que a sociedade tenta impor. Ver alguém se sentindo cada vez mais no controle da própria vida, capaz de enxergar que a felicidade ou no mínimo a satisfação depende muito mais de fatores internos, de como escolhemos ver e interpretar as coisas que acontecem com a gente. Esse é o tipo de coisa que me traz alegria e que eu gostaria de vivenciar todos os dias.

Não numa grande escala, porque entrar em modo Mission from God exige diversos sacrifícios da sua vida pessoal que eu não me sinto nem um pouco propensa a praticar.

Mas nessa microescala do que consigo fazer dando espadadas em família, amigos, amores,

e saber que há pessoas que leem o blog, às vezes loucamente (picos no contador de visitas sem links externos em geral indicam alguém que se identificou e clicou em vários posts), pensar que talvez eu ajude essas pessoas a se sentirem cada vez mais livres,

Essas coisas me alegram.