O que é uma família?

Ontem depois de conseguir largar o avatar de Fúria fui fazer as compras sob a chuva de Campos do Jordão. Vendo as árvores, carros, casas, tudo com aquele brilho de água e sol filtrado pelas nuvens, pensando em definições poéticas sobre o que nos torna uma família. Que não é DNA ou documento em cartório que nos torna uma família, e sim o fato de que passamos muito tempo juntos, ficamos felizes em nos ver, sentimos saudades quando estamos longe, preparamos comida uns para os outros, trabalhamos para prover nossa família, sabemos em um piscar de olhos, pela expressão do rosto, o jeito de respirar ou de se mover, o tom da voz, se o outro não está bem, seja um resfriado ou uma tristeza. Damos broncas uns nos outros e todo mundo tem direito de réplica. Somos uma família porque nos amamos, cuidamos uns dos outros, e temos intimidade o suficiente para falar pro outro quando ele está seguindo pelo caminho errado.

Bonito, não?

Nos 50 minutos entre ir até o centro da cidade, fazer as compras, voltar, era bem bonito. Daí voltei pra cá, querendo escrever frases bonitas sobre o que é ser família, mas logo que cheguei tive uma discussão idiota com o Daniel sobre uma coisa do Minecraft, e primeiro fiz o que sempre faço quando me irrito com alguém: vou embora. Peguei meu notebook e saí do QG. Depois tive que voltar pro QG pra começar a preparar o almoço, e fiquei lá na pia da cozinha, aquele silêncio pesado entre a gente porque em situações normais estamos sempre falando, mesmo que seja qualquer bobagem, e eu sabia que estava errada. Eu sou o adulto, ele é a criança. Fui até ele e falei “desculpe por ter pegado sem querer o seu XP”, ele me deu um abraço apertado, e completei “e você também pode me pedir desculpas por eu ter ido até o outro mundo pegar o lápis-lazuli pra você, e você nem ter falado obrigado, só ficou reclamando do XP” (algo que levava 5 minutos pra ele coletar de novo, por isso eu tinha ficado irritada com ele).

A poesia e o devaneio já tinham ido embora. Se eu fosse escrever, teria que falar que somos uma família porque somos capazes de nos perdoar mesmo quando alguém rouba seu XP, ou quando você é tratado como um escravo. O que não seria totalmente nonsense, os jogos ajudam muito no desenvolvimento de habilidades emocionais, mas isso é assunto pra outro post.

Por enquanto, família é um assunto sombrio porque vivemos dias em que eu não posso apenas escrever frases que falam do nosso amor, carinho e devoção uns com os outros, porque isso não é uma família. Graças à odiosa bancada evangélica, corremos o risco de ter uma lei que dirá que família é um homem e uma mulher, e eventualmente a prole decorrente. Esse arranjo é que poderá ter direitos civis como licença-maternidade, pensão, e até mesmo dias no calendário escolar pra se louvar a família nesses moldes. Os outros arranjos, especialmente os que envolverem famílias não-heterossexuais, estão banidos dos direitos civis, mais expostos ainda ao bullying que resulta em insultos, violência física e até linchamentos, estupros e assassinatos.

A possibilidade da vitória dos deputados evangélicos é assustadoramente sombria, não só pelo teor das leis, mas principalmente pelo show de horrores das declarações de quem defende o estatuto. Eles não estão negando que há amor, carinho, afeto, cuidados entre diversos arranjos de pessoas, inclusive as homossexuais. Eles simplesmente estão falando que amor e assistência mútua não são a base do que define uma família! O que define uma família é ser macho e fêmea procriando, e foda-se se é com descaso, negligência, violência, abusos – como tem acontecido até agora. Já reparou como os casos de violência doméstica, pedofilia, incestos, estupros de menores em 90% dos casos envolvem um casal hetero, a ação de um homem hetero e em geral o silêncio sofrido e ou a conivência de uma mulher hetero que sabe mas não denuncia os abusos contra as crianças?

“Porém, o deputado Evandro Gussi (PV-SP) argumentou que o conceito de família está na Constituição: “A Constituição da República Federativa do Brasil de 1988 reconheceu um dado que é da natureza. Porque o afeto, como já bem delineou o deputado Diego Garcia em seu relatório, não é critério constitutivo de família. As pessoas que quiserem ter o afeto que tenham, e o Estado vai garantir isso. Daí a transformar em entidade estável, que garante a procriação e a formação de pessoas, é outra conversa. Não estamos querendo impor nada, pelo contrário. Nós humildemente estamos reconhecendo o que a natureza prescreve.” “

http://www.cartacapital.com.br/blogs/parlatorio/comissao-aprova-conceito-de-familia-como-uniao-entre-homem-e-mulher-8893.html

Os deputados evangélicos têm assumido na cara dura que afeto não tem nenhuma, nenhuma influência na definição de família. O deputado que propôs o estatuto, o nefasto Anderson Ferreira, falou

“O arranjo familiar baseado no amor e no afeto é algo novo em nossa sociedade, não é o padrão. (…)

As famílias hoje estão à mercê da grave epidemia das drogas e álcool, da violência doméstica, da falta de saúde e educação, da gravidez na adolescência.”

http://epoca.globo.com/vida/noticia/2015/03/o-estatuto-da-familia-vai-bassegurar-direitosb.html

E ele quer perpetuar isso. Ao defenderem que afeto não tem relação com o que é uma família.

“Frases como a do deputado Ronaldo Fonseca (Pros-DF) causam perplexidade aos estudiosos do Direito “faz necessário diferenciar família das relações de mero afeto, convívio e mútua assistência; sejam essas últimas relações entre pessoas de mesmo sexo ou de sexos diferentes, havendo ou não prática sexual entre essas pessoas”.”

http://flaviotartuce.jusbrasil.com.br/artigos/168518202/se-estatuto-da-familia-for-aprovado-stf-o-declarara-inconstitucional-por-jose-fernando-simao

Deputados evangélicos, vocês estão errados. A maioria dos problemas do mundo tem origem num lar desestruturado. Lares sem amor, sem afeto, sem assistência mútua. Ao longo dos 200 mil anos de história da humanidade, família já teve diversos conceitos diferentes, mas estamos em 2016. Família já não é uma questão de ter muita gente trabalhando pela sobrevivência da tribo, família já não é uma questão de ter descedentes pra quem passar a herança ou fazer alianças políticas. Nosso atual arranjo social já não exige que a família tenha principalmente objetivos utilitários. A família deveria ter como base apenas o amor, afeto e assistência mútua, e isso nos traria cada vez mais pessoas criadas sob as diretrizes de bem comum, compaixão, tolerância, bondade, justiça. Parem de usar a família para fins políticos, como tentar impor suas crenças religiosos, essa época já devia ter acabado faz tempo. A base da nossa sociedade deveria ser amor e afeto, não imposição e controle.