O que é um país?

O impeachment está encaminhado e provavelmente vai se concretizar.

O impeachment é golpe branco, como o pessoal gosta de falar, já que não conseguiram mostrar casos de violência, prisão, tortura e assassinato dos opositores?

O impeachment tem um altíssimo grau de campanha e manipulação pra ganhar o apoio de uma quantidade grande de pessoas. Pessoas ricas, poderosas e influentes concordaram com a ideia de que era preciso tirar o PT do poder, e se articularam numa gigantesca campanha que ganhou grande parte da opinião pública, e também estava alinhada com centenas de deputados e dezenas de senadores que eram as pessoas capazes de dar prosseguimento ou barrar o processo.

Uma grande manipulação.

Mas vou perguntar uma coisa: se não houvesse essa manipulação, haveria menos desemprego e não teríamos recessão? A situação está boa pra você? Você está feliz, se sentindo num país próspero e promissor, bem administrado?

Daí sempre vem a pergunta ” e por acaso Temer e o PMDB são a solução?”

Não, meus amigos. A solução é o tal disco voador ou portal dimensional que vai trazer os novos políticos limpinhos e competentes. Como parece que isso não existe, a gente tem que se virar com o que tem pra hoje, que não é a solução, e só a alternativa ao cenário de um governo que talvez até tenha começado com boas intenções de diminuir a desigualdade social, mas que se corrompeu e agora tem seus podres vazando e jorrando como nunca antes exposto. Não que não acontecesse antes, mas nunca foi tão exposto e alardeado.

De forma puramente pragmática: gente rica, poderosa e corrupta tirou o PT do jogo. Nós somos massa de manobra, bem influenciados pela ampla campanha contra o PT. Mas o fato é que com o PT o país afundava cada vez mais. Mesmo que tenha uma boa dose de jogo contra de quem queria ver o PT fora do poder, também teve uma boa dose de incompetência técnica e política.

Olha o buraco da recessão em que a gente está.

Eu fico revoltada de ouvir o argumento dos 54 milhões de pessoas que votaram na Dilma e tiveram seus votos jogados no lixo. Sabe quantas pessoas podiam votar em outubro de 2014? 142,8 milhões. Das quais 54 milhões votaram na Dilma. 88,8 milhões não votaram na Dilma. E possivelmente uma boa parcela dos 54 milhões não votaria na Dilma hoje.

Outra coisa ridícula é enaltecer o valor do voto como se cada cidadão brasileiro fosse altamente politizado, culto, consciente, como se cada voto valesse ouro, fosse fruto de uma decisão ponderada e madura que leva em consideração o bem estar da nação.

“O povo não foi consultado”, reclamam muitos.

Na hora de reclamar do resultado do impeachment, nós o povo somos uns idiotas facilmente manipulados pela imprensa, palhaços que se vestiram de patos e foram aos milhões pras ruas pedir a saída do PT.

Depois que o impeachment prossegue, de repente o povo vira uma entidade dourada, que teve 54 milhões de seus representantes barbaramente ignorados. E não se fala nada dos 88,8 milhões que não queriam Dilma de novo no poder.

O que é um país? O que é o povo?

Lembram do mapa da votação, da divisão em cores? Do quanto as pessoas xingaram o Nordeste? Do esforço em não ver uma nação dividida?

Eu acho totalmente errado xingar as regiões que votaram em massa na Dilma, que apoiam em massa o PT. Acho absurdo gente que xinga Nordestino, ou que não reconhece como os outros governos sempre ignoraram a parcela mais pobre da população. (Ainda que eu não tenha nenhuma dúvida de que os programas assistencialistas têm um direcionamento de curral eleitoral — eles tiraram muita gente da miséria, mas não são estruturados para que as pessoas possam crescer como gente, e sim que continuem dependentes, e eternamente gratos, a esses programas).

Não consigo aceitar o discurso sobre o que o povo brasileiro quer. Sobre a relevância e significância dos 54 milhões de votos da Dilma. O que eu sei é que eu não votei na Dilma, e acho que nenhum dos meus amigos e conhecidos votou. Não acho que é só vergonha depois que as notícias de corrupção ganharam notoriedade, eu passei um bom tempo olhando o mapa que mostrava a distribuição dos votos.

Somos uma democracia, pro bem e pro mal, cada pessoa é um voto e cada voto tem o mesmo peso, seja você uma pessoa culta, ativista e politizada, seja você alguém que votou em que mandaram você votar.

Eu me conformo que seja assim.

Mas não me sinto bem em engolir o discurso sobre o que o povo brasileiro quer. Um discurso que dá a entender que os 54 milhões de votos representam o país todo, inclusive eu. Não me sinto bem com o silêncio sobre os 88,8 milhões de pessoas que não votaram nela. Sobre as dezenas de milhões que estão se ferrando cada vez mais.

Há elementos assustadores no novo governo.  Branco, corrupto, podre, sem mulheres, sem negros. O governo de Dilma era muito melhor?  Conseguiu levar pra frente a descriminalização do aborto? Não. Conseguiu diminuir os assassinatos de mulheres e gays? Não. Conseguiu reduzir a quantidade de assassinatos de jovens pobres e negros, mulheres negras? Não, pelo contrário. Fomos da sétima pra quinta posição no ranking de países que mais matam mulheres, e o assassinato de mulheres negras cresceu 54%. E na questão de podridão da corrupção, é difícil dizer quem roubou mais.

Eu sei que não há o que celebrar, que só retardados comemoraram a mudança do governo como se fosse significar o fim da crise e o fim da corrupção, num plim, instantaneamente.

Mas acho o fim da picada a pose e as insinuações de que na era PT havia muita justiça, valorização de minorias e do meio ambiente, e que agora com o Temer é que a vaca foi pro brejo.

O impeachment foi golpe?

Juridicamente já se provou que não.

Moralmente, ideologicamente? Pra mim o golpe é ter que aceitar um sistema em que você, sua família, seus amigos, seus conhecidos, milhões de pessoas que moram ao seu redor, milhões de pessoas nos Estados vizinhos, todo mundo acha que não devia ser esse governo — milhões e milhões, mas ter que engolir o resultado porque como definição de país somos uma unidade federativa que pressupõe homogeneidade. Ter que engolir uma realidade que é nociva, tóxica, degradante faz tempo e você tem que engolir tudo isso porque há outros milhões de pessoas pra quem a realidade é diferente.

Eu sei que cada um defende seus interesses, e falo de novo: acho totalmente errado xingar as pessoas que votaram no PT, e que continuam fiéis ao PT até agora.

Mas não quero abrir mão do meu direito de dizer que com o PT minha vida, a vida da minha família, dos meus amigos, piorava dia a dia. Eu não escolhi isso, não votei assim. E pra mim, moralmente não é golpe tirar do poder alguém que só fazia mal pra minha vida.

Eu não tenho certeza de que as coisas vão melhorar com o novo governo. Eu simplesmente achava que não tinha como a situação melhorar com Dilma no poder, não por uma questão de orgulho ou birra, mas porque a meu ver ela não tinha mais condições de governar o país. Sem credibilidade, sem apoio, dando cabeçadas, nos enfiando mais e mais no buraco.

Por isso pra mim impeachment não é golpe branco. Qualquer legislação ou regulamento tem espaço para interpretações diversas, não há lei que descreva tudo com detalhes suficientes. Juridicamente era permitido tirá-la do poder. Isso não foi feito com violência ou ameaças, e sim com costuras políticas — e costuras políticas fazem parte da essência da política. Em lugares mais civilizados, visando um bem maior seguindo os ideais do partido. No Brasil, muitas vezes visando lucros pessoais, mas isso não é algo que vai mudar de um dia para o outro.

Mas e os 54 milhões de eleitores da Dilma?

Mas e os 88,8 milhões que não votaram nela? E os 11,1 milhões de desempregados no Brasil, em maio de 2016, taxa de 10,9%, a maior que o Brasil já teve desde que começaram a medir? Você vem falar pra essas pessoas sobre golpe branco, sobre preocupações com ranhuras na democracia? Não, meu senhor, acho que essas pessoas têm outras preocupações um pouco mais imediatas e palpáveis.

Faço parte de uma parcela privilegiada da população. Tenho dinheiro pra pagar minhas contas, pra pagar escola particular pro Daniel, pra fazer viagens. Mas a crise também nos afeta. Diminuiu nossos gastos, cancelou viagens, torna nossos planejamentos mais austeros, o futuro mais sombrio. Me sinto solidária com as pessoas que estão cada vez mais afundadas, como comerciantes, pequenos empresários e prestadores de serviço que aceitam trabalhar cada vez mais por menos. Ao mesmo tempo, fico com uma leve impressão de que muitos dos defensores de Dilma são pessoas com renda garantida, aposentados, universitários, intelectuais, artistas, concursados ou coisas do tipo, ou gente pra quem o desemprego não é algo desesperador. Não tenho dados, é só uma impressão.

De novo: não quero xingar ninguém, nem brigar com ninguém, nem mesmo acusar ninguém.

Só queria reafirmar minha opinião de que eu tenho o direito de saber que sou massa de manobra, mas que não participo disso enganada, e sim concordando com a finalidade. O fim do PT. Um câncer corrupto como tantos outros partidos são corruptos, mas que conseguiu enfiar o Brasil numa crise econômica gigantesca. Por incompetência técnica, por falta de ginga política, por manipulação dos outros partidos, mas o resultado final é que enfiou o Brasil no buraco. E panfletei a favor do impeachment, e me mantenho a favor do impeachment, não porque acho que Temer é a solução, mas só porque ele era a única alternativa.

Que digam que ele é bandido, que a equipe é de bandidos. Que sejam. Qual dos políticos não tem nada pra ser investigado? Sinceramente não sei. Dilma, por exemplo, pode não ter enriquecido com a corrupção, mas olhou pro outro lado mesmo sabendo que aconteciam transações terríveis, e isso também é crime.

Qual dos políticos não é corrupto? E entre os poucos que se salvarem, quem consegue jogar o jogo político e atuar?

Se Temer e toda a equipe são bandidos, espero que o longo braço da Polícia Federal chegue a eles. Mas defendendo meus interesses próprios, espero que isso aconteça depois deles terem conseguido tirar o país do buraco.