O quanto é possível mudar depois dos 20?

Veja bem, não estou falando do quanto é possível engordar, enrugar, encolher, envelhecer, apodrecer. Estava pensando o quanto muda da nossa essência aos 20, 30, 40, 50…

Tenho 37 anos, mas em muitos momentos ainda me sinto a garota que meu melhor amigo, que conheci na faculdade, definiu assim quando a gente tinha 20 anos: “não sei o que conversar com você. Com os outros posso falar de notícias de jornal, livros, filmes, mas com você, parece que o certo é falar da cor do céu, o formato das nuvens”. E assim sou eu. Analfabeta televisa, uma das pessoas com menor cultura geral que se tem notícia tanto das atualidades, como para tratar dos temas sociáveis. Tão autista no meu universo de coisas e pessoas queridas, escolhendo com tanto cuidado como vou passar meus minutos nessa bolota azul. Mas que presta muita atenção em quem ousa falar da cor do céu e do formato das nuvens.

Como alguém pode estar tão certo sobre nós?

O Cris tem um presente que ganhou de dois dos melhores amigos, quando ele tinha 20 anos. São frases, como um poema, que falam quem ele é. Pirografadas (adoro todas as palavras com piro) numa tábua que empenou com o tempo, uma escultura feita de arame que é a silhueta dele. Sempre olho para esse presente e me admira como elas podem falar tanto dele.

Li pedaços da Zona do Desconforto, do Franzen, que a Nadiajda me emprestou. Em um dos momentos ele diz que tem 45 anos, mas em vários momentos age como se tivesse 17.

Algo ouvido ao acaso no Criminal Minds, sobre os grandes gênios terem criado suas grandes obras antes dos 25 anos.

Talvez. Talvez aos 20 e poucos anos, e quem sabe antes até, já esteja tudo lá. Toda a essência. Não é que somos imutáveis, mas talvez realmente exista uma essência, e é ela que nossos melhores amigos, nossos amores, e outras pessoas muito especiais são capazes de enxergar, mesmo que essa essência esteja soterrada, sufocada, desfigurada.

Tantas vezes, quantos anos para conseguir se livrar desse entulho. Tanto trabalho, dor, dinheiro com terapeuta, tudo para conseguirmos ser nós mesmos, apenas para sermos nós, e não o que nossos pais tentaram forçar, ou o que nós achamos que deveríamos ser para sermos aceitos e queridos pelos outros.

Platônico e reconfortante.