O prós e contras do aborto – parte 2 – a perpetuação da pobreza e a mulher como mero receptáculo de esperma

Como dizem por aí, os tais grupos pró-vida só defendem a vida a qualquer custo enquanto está dentro da barriga. Saiu dela, perdeu os direitos. Vira receptáculo de esperma, vagabunda que engravidou porque quis e agora tem que aguentar, criatura que merece passar horas sangrando e sofrendo pra aprender a não fazer mais isso, gente que merece ir pra cadeia porque cometeu o crime hediondo de engravidar quando não queria, ou engravidar e ser abandonada pelo parceiro. Mais cruel ainda: esse quadro vale para as mulheres pobres. Porque as que têm condições financeiras, mesmo sendo uma decisão difícil, praticam o aborto com segurança numa clínica.

Por que uma mulher é obrigada a passar por um procedimento traumático como um aborto por gravidez indesejada? Porque não usou métodos contraceptivos. Uso correto da pílula, implante de diu, ou camisinha sempre.

Quem não usa métodos contraceptivos? Quem se arrisca a ter um filho não-planejado?

Qualquer casal. Qualquer casal pode ter um momento de descuido, basta um evento em que você não usou camisinha, seja com uma pessoa que você acabou de conhecer, ou com o seu namorado ou marido. Basta ter descuidado na pílula, ou tem alguns casos em que mesmo a pílula tomada regularmente no mesmo horário pode falhar, ou ter ovário policístico (algo bem comum) e o médico diz que você só vai engravidar com tratamento, então você descuida, e de repente está grávida.

Ou basta você acreditar nessa história de “métodos naturais” de planejamento familiar. Tabelinha, medir temperatura, apalpar o colo uterino, analisar a espessura do muco na entrada da vagina. Juro. http://www.providafamilia.org/metodos_naturais.htm

Esse discurso de que só engravida quem quer é coisa de pessoas virgens-burras ou que têm pouca vida sexual, ou são muito demoníacas, porque qualquer um que entende como os bebês são feitos sabe como é fácil ter um oops e acontecer uma gravidez.

Sabe quantos % dos bebês brasileiros que nascem não estavam nos planos, aconteceram por um oops? 55% Cinquenta e cinco por cento. Pesquisa realizada pela Fundação Oswaldo Cruz com 24 mil mulheres que tinham acabado de dar à luz, entre 2011 e 2012.

https://www.diariodonoroeste.com.br/noticia/cotidiano/geral/58519-55–das-maes-nao-planejaram-engravidar

 

A questão do aborto está mal posta. Não é verdade que alguns sejam a favor e outros contrários a ele. Todos são contra esse tipo de solução, principalmente as mulheres que se submetem a ela anualmente por não enxergarem alternativa. É lógico que o ideal seria instruí-las para jamais engravidarem sem desejá-lo, mas a natureza humana é mais complexa: até médicas ginecologistas ficam grávidas sem querer.

Não há princípios morais ou filosóficos que justifiquem o sofrimento e morte de tantas meninas e mães de famílias de baixa renda no Brasil. É fácil proibir o abortamento, enquanto esperamos o consenso de todos os brasileiros a respeito do instante em que a alma se instala num agrupamento de células embrionárias, quando quem está morrendo são as filhas dos outros. Os legisladores precisam abandonar a imobilidade e encarar o aborto como um problema grave de saúde pública, que exige solução urgente.

http://drauziovarella.com.br/mulher-2/gravidez/a-questao-do-aborto/

 

As mulheres abortam. A única diferença entre as pobres e as com maior poder aquisitivo é que quem pode pagar vai pra uma clínica e resolve o assunto com segurança. Quem é pobre tem que recorrer a métodos que muitas vezes matam, ou quase matam, deixam estéreis, e as obrigam a recorrer ao SUS, onde frequentemente elas serão atendidas por funcionários religiosos, capazes de realizar os procedimentos de curetagem sem anestesia “pra ela aprender a não fazer mais isso”, e deixam as mulheres sangrando e com dor, esperando o atendimento, por horas e horas. De propósito mesmo. Porque são moralmente contra o aborto. Ou então as denunciam pra polícia, onde elas serão julgadas e talvez presas por terem cometido o crime do aborto.

Quem são as mulheres que abortam? Pesquisa feita pela Universidade de Brasília constatou que a maioria das mulheres que abortam no Brasil tem de 25 a 39 anos, é casada, tem filhos e é cristã.

http://www.apublica.org/wp-content/uploads/2013/09/PNA.pdf

 

Não há números oficiais, mas a estimativa é de 1 milhão de abortos por ano.

Queridos, aborto é um fato. Não importa quais são suas concepções religiosas, historicamente as mulheres sempre abortaram, e não importa o que os líderes religiosos falem, mesmo com o discurso do pastor, do padre, do centro espírita – os abortos continuam acontecendo.

E sabem por que? Porque um filho vira sua vida de pernas pro ar. Cuidar de um filhote é um dos períodos mais críticos na vida de qualquer animal, é a fase em que os pais trabalham enlouquecidamente só pra poder colocar comida na boca dos famintos. No caso dos seres humanos, muitas vezes significa ter que largar a escola, o emprego, todos os sonhos de conseguir uma qualificação melhor, um emprego melhor, uma vida melhor.

Muitas vezes não é o primeiro filho. Já é o segundo, o terceiro, e pra criar sozinha, porque quando você fala que engravidou o perobo some.

Eu já tinha visto um dado que dizia que em 39% dos lares brasileiros o responsável pela família é uma mulher (O IBGE considera como responsável aquela pessoa reconhecida como tal pelo demais moradores do domicílio). Mas não tinha visto ainda a abertura dos dados que mostra um número muito cruel: se o lar é formado por um casal, essa porcentagem é na casa dos 24%. Se o lar é formado por uma pessoa só, um adulto sem cônjuge, essa porcentagem é de 87%.

http://g1.globo.com/economia/noticia/2014/10/mais-mulheres-sao-chefes-de-familia-e-jovens-optam-por-ser-mae-mais-tarde.html

 

 

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Por causa da microcefalia há pesquisas recentes de opinião sobre aborto.

http://www1.folha.uol.com.br/cotidiano/2016/02/1744476-maioria-dos-brasileiros-desaprova-aborto-mesmo-com-microcefalia.shtml

Ainda é um número alto de gente que é contra o aborto mesmo com o risco do bebê nascer com microcefalia, na casa dos 58%. 61% se fizer o recorte entre mulheres que responderam contra 53% dos homens. Mas também é interessante observar que 91% das pessoas que entrevistaram não tinham planos de engravidar nos últimos meses, e infelizmente parece que não tem dados de quantos dos que responderam estavam grávidos. Parece ser um caso em que você é moralmente contra, como bom cristão, mas você não sabe o que é estar grávido e ter o risco do seu filho nascer com uma má-formação como microcefalia.

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Recomendo também a leitura deste artigo, que sempre traz respostas pra argumentos comuns de quem condena algum tema feminista:

http://www.cartacapital.com.br/blogs/escritorio-feminista/faq-do-aborto-legal-7594.html

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Fazendo coro com as declarações de tantas pessoas: não é uma questão dos meus princípios religiosos ou de questões morais, sobre assassinato de inocentes, irresponsabilidade de vadia que não soube fechar as pernas e só engravidou porque quis etc. O fato é que mesmo sendo duramente condenado pelo papa, pelo padre, pelo pastor, pelo centro espírita, mesmo sendo crime, com risco de ir pra cadeia, de ser torturada por funcionários do SUS ou pelos açougueiros das clínicas precárias, de ter o útero perfurado, de ficar estéril, o fato é que todo ano muitas brasileiras, talvez um milhão, se submete a um aborto. 250 mil são internadas no SUS por causa das complicações de um aborto mal-feito.

Que tal deixar a hipocrisia de lado, sua crença religiosa de lado e começar a pensar na vida dessas mulheres? Olha que discurso calhorda propor leis mais duras contra o aborto, inclusive nos casos de estupro ou fetos sem cérebro, tornar aborto crime hediondo, prisão pra qualquer um que ajudou uma mulher a abortar, em vez de investir em educação sexual, planejamento familiar, e apoio e assistência multidisciplinar pra uma mulher que teve uma gravidez indesejada e pensa em abortar,

Mulher não é receptáculo de esperma, e engravidou se vira, aguenta. A mulher é um ser humano e merece ter autonomia e chances melhores de estudar e ascender socialmente. Uma garota que engravidou quando não queria e é obrigada a largar os estudos e se sujeitar a trabalhos mal remunerados terá uma família com muito menos estrutura e perpetua o perfil de desigualdade social. Chega de moralismo, enxerguem as mulheres como seres humanos. Se você é contra o aborto, basta não fazer. Mas é totalmente injusto lutar pra que ninguém tenha o direito de fazer, ou melhor, pra que as mulheres que não têm dinheiro de passar por uma clínica segura continuem se sujeitando a curandeiros, açougueiros, sequelas pro resto da vida e até a morte.