O processo do impeachment prossegue, mas não é fácil ficar alegre

Criatura naturalmente pessimista e conservadora (ou seja, capricorniana), desde o início das manifestações de 20 centavos vi brotar um “mas será que é possível?”.

Com a Lava Jato vi a esperança crescer.

Com a crise brasileira que não passa, defendi o impeachment. Não por acreditar que Cunha e Temer são a verdade e a luz, mas por achar que com Dilma a situação só piorava e que não tinha mais como ela reverter a crise de confiança.

325 a favor. É só questão de tempo. Mas não estou comemorando.

Fiz questão de me enfiar nas discussões políticas principalmente pela podreira dos argumentos contra o impeachment. “Sem democracia você não tem voz. Vai voltar a ditadura. Não vai ter golpe. Mas isso aí não vai resolver tudo. O impeachment trará uma profunda cicatriz nas relações democráticas. É injusto ela ser condenada pelas pedaladas fiscais”.

Enquanto que a favor do impeachment, nunca vi alguém dizer que acha que o impeachment vai resolver tudo. Civilizadamente podemos discutir os detalhes técnicos da teoria. Mas na prática, pra mim é algo muito simples: o país está uma merda, tem milhões de pessoas sofrendo pesado os efeitos da crise, e não vejo como o governo Dilma conseguiria reverter a situação. Ela não governa mais.

Meus colegas contra o impeachment me dizem que isso é inconstitucional. Que não se pode tirar um presidente por incompetência. Que você deve engolir tudo quietinho e aguardar as próximas eleições.

Eu tenho uma posição econômica privilegiada. Com a crise corto viagens, gastos, compras. Se piorar, talvez tenha que mudar pra um lugar mais barato. Mas estou muito longe de ter que tirar o Daniel da escola paga e colocar numa pública, e mais longe ainda de não poder pagar contas ou passar fome.

Os meus colegas que são contra o impeachment não se importam com isso? Em nome da hipotética cicatriz, de uma ditadura que eles não conseguem explicar como vai acontecer, milhões de brasileiros devem continuar sangrando mês a mês?

O novo governo vai conseguir resolver a crise? Melhorar  a situação em 6 meses, 1 ano? Não sei. Só sei que não conseguia imaginar como Dilma faria isso. E ter Lula como presidente, mesmo com todas as investigações da Lava Jato, seria humilhação demais. Seria jogar na cara que a corrupção te torna acima de qualquer coisa.

Mas não estou alegre. E como viram, desde que viajei tinha parado de blogar sobre o assunto.

Continuo achando que partimos de um princípio espetacular. Dois, três anos atrás, os acontecimentos de hoje seriam enredo fantasioso. Nunca se discutiu tanto corrupção, ética, democracia.

A corrupção é um monstro que provavelmente nunca vai deixar de existir. Mas por causa da Lava Jato e das manifestações populares, agora eu acredito que talvez a gente consiga transformá-la num monstro menos petulante… um que não destrói todas as nossas chances de sermos um país com menos desigualdade, um país que investe em educação e que há chances reais de justiça.

Mas lamento que haja tanta desunião e conflitos. Times. Amigos x amigos. Irmão contra irmão. E não falo isso por achar que eu estou certa e os outros estão errados. Fui e sou a favor do impeachment, mas seria capaz de mudar de opinião se visse chances reais do governo Dilma ser capaz de tirar o Brasil do buraco. Não conseguia ver como. Por isso defendi o impeachment.

E agora temos o impeachment, mas também milhões de pessoas que choram o resultado. E talvez estejam dispostas a lutar em frentes diversas, de formas diversas, pra mostrar que elas estavam certas. Se o impeachment tivesse perdido, imagino que muitos dos que eram a favor do impeachment também reagiriam assim.

340.

342.

É o fim.

Longo caminho pra ter um novo começo.