O mundo com mais sabor

Uma das pessoas mais queridas da consultoria onde eu trabalhava é uma unanimidade pela simpatia e bondade genuína, daquelas que transparece evidente no rosto.

Mas não é por isso que eu gosto tanto dele. O que mais me trazia admiração era a capacidade dele fazer coisas inesperadas – como chegar na nossa sala e fazer gestos de quem vai tirar a camisa. Só uma fração de segundos, todos concentrados como sempre, talvez só eu tenha visto, mas é uma lembrança pra vida toda.

Um dos meus melhores amigos da época da faculdade era alguém capaz de – dizem, atravessar uma rua lotada de carros, farol para pedestres verde, hora do rush, rodopiando com passos de bailarina. Outra visão para se guardar com todo carinho.

Perdi o contato com esse amigo da faculdade, mas o amigo da consultoria posso passar meses sem ver, quando nos encontramos é sempre a mesma alegria. Gosto muito dele não só pela capacidade de iniciar uma cena de strip tease, dar tapas na testa do pessoal da minha sala, mas também porque nos sentíamos na irmandade de poder xingar e reclamar à vontade e sem moderação os atropelos da rotina. Alguém pra vir reclamar da cornice de alguma jeba de última hora, encostar a testa na parede e falar coisas como “ah. Deixa eu ir lá dar meus cinco minutos de cu pra ver se passa”.

Meus três grandes companheiros de passarinhadas (em breve explico o que é uma passarinhada, não é o que você está pensando), conheci meio ao acaso no início do ano e de repente viraram grandes amigos, desses de ter caixinha de diálogo grupal no Facebook e nos falarmos quase todo dia. Bateu o santo. Rolou uma química. Sintonia de pensassão.

Tudo isso é verdade, mas pra mim tem dois momentos importantes em que percebi que essas pessoas eram bem especiais: no passeio do início do ano quando estávamos em silêncio dentro do barco e reparei que não era qualquer silêncio: aquelas pessoas gostavam do silêncio tanto quanto eu. E num almoço quando de repente descobrimos que podíamos falar muita bobagem e ninguém ficava ofendido.

Quer se enturmar rápido numa festa? Na rodinha, se não soar forçado, conte dos porres que você já tomou, e/ou grandes gafes. Logo estão todos bem à vontade e mais sorridentes ainda.

Um Antropólogo em Marte, de Oliver Sacks, é um livro de 1995, mas que só fui ler neste ano, uma edição em português dos pockets da Companhia das Letras. Ém livro muito bom, sete artigos, e o capítulo que mais me cativou é o que descreve o cirurgião com Síndrome de Tourette – todo fã de South Park sabe bem o que é. De certa forma é uma doença de desinibição – usando as palavras do próprio cirurgião – Bennett, ainda que ele não veja a síndrome como uma doença. O artigo fala claramente que há essa tentação de ver a síndrome de forma romantizada, mas que há um lado sombrio e assustador. Pensamentos de pânico e ira com que a pessoa tem que lutar diariamente.

Pensando só no lado romantizado dos tiques, toques, rituais, sons estranhos, genialidade, frases e gestos inusitados, Touerette é realmente fascinante. A esposa, os filhos de Benett pareciam o amar muito, mesmo convivendo com os momentos de Benett urrar, chutar, quebrar paredes, arremessar objetos.

Tenho um colega observador de aves, um cara conhecido por ter grande conhecimento e competência. Recentemente soube que ele tem muitos tiques. Isso só me fez gostar mais dele.

Não sei se todas as pessoas têm aspectos incomuns ou pitorescos, mas sei que a maioria das pessoas de quem eu gosto ou que admiro têm. Ser normalzinho? Sempre straight? White people like? De papelão? Sem sal? Não, não… sei que temos muitos problemas com julgamentos, com as bobagens que as pessoas falam sobre nós, mas dou fé: muita gente de bem quer conhecer seu lado que tem sabor. Não precisa mostrar a todos, não precisa dar pérolas ao suínos. Mas mantenha-se atento e não desperdice oportunidades de realmente se mostrar ou de conhecer alguém na dimensão que vale a pena.