O mocho-dos-banhados de Americana: martírio e poder dos inocentes

Textos: Claudia. Fotos: Claudia e Cristian, com Nikons D800, eu com Sigma 50-500 Cris com Nikkor 300 2.8 e tele 1.4, compartilhamos a Fuji X-E1

Logo faço um post pra discorrer sobre o que é passarinhar – um tipo de birdwatching. Observadores de aves mais sérios já reclamaram do tal “passarinhar”, amplamente adotado pelos birders brasileiros. Eu gosto porque, como bem disse o Guto Carvalho, tem um que de “vagabundear”, que é como me sinto nesses passeios. O Cris me explicou que outro motivo pra reclamar do passarinhar é que os verbos relacionados com aves nunca tiveram conotação muito boa: urubuzar, galinhar, peruar. O que dizer de passarinhar?

Bom, passarinhar é meu principal passatempo. É mais do que passatempo: é um estilo de vida, obsessão, eixo. Neste sábado, como em vários outros dias, fui passarinhar. Saímos meio apressados de casa, carregando nossas mochilas, tripés, protetor solar, repelente, chapéus e uma misteriosa embalagem térmica. Almoçamos rapidinho no Rascal e seguimos rumo a Americana – SP, cidade que ficou famosa no meio passarinheiro por ter sido escolhida por alguns mochos-do-banhado – uma coruja enorme, linda, ameaçada de extinção, como local para reprodução.

Licença poética pra explicar o mocho-dos-banhados: as fotos abaixo não são de Americana, foram feitas no Uruguai, numa área rural perto de Montevideo, tendo como guia o Alejandro Olmos, no final de 2012. No sábado em Americana não tivemos mochos de perto, nem com luz, então peguei estas fotos para tentar mostrar como o bicho é lindo:

Os mochos não apareceram agora em Americana. Faz dois anos que o Gustavo Pinto descobriu-os, e depois que passou a conversar com os moradores do bairro, soube que estão lá pelo menos desde 2004. Aparentemente há dois residentes e os outros só aparecem para reproduzir. Muitos birdwatchers já foram fotografar. Eu ainda não tinha ido porque sou uma fresca e em geral não faço parte das peregrinações. Veja bem: tenho meus motivos. Sou escrava das aves há cinco anos. Já vi mais de 1.100 espécies, contando Brasil e outros países. Não sou louca por lifers, nem por likes, nem por fotos impressionantes. Meu barato são as vivências. Cris: “Sei. Você não quer ir ver o ninho do gavião-de-penacho, que todo mundo está fotografando. Você quer encontrar seu próprio gavião-de-penacho”, eu: “é, mais ou menos isso”.

Semana retrasada um colega, o Henrique Coelho, mandou um relato pro Virtude-AG (um site que eu criei e administro, dedicado à divulgação do birdwatching), contando do passeio com as corujas. Ele descreveu cenas das corujas se alimentando, interagindo, e eu pensei “opa, isso me interessa”. Gosto muito de observar o comportamento dos animais.

Uns dias antes do passeio o Gustavo, o guardião das corujas, começa a reportar incêndios sucessivos nos locais de moradia e ninho das corujas. Acho que foram uns três ou quatro… em todos ele foi lá apagar os incêndios, afugentar as corujas. Foi ajudado pelos filhos pequenos, pelos amigos birdwatchers, por moradores do bairro. Numa das vezes os bombeiros responderam ao chamado, em outra não. Já havia acontecido um incêndio antes. Ligar pra Polícia Ambiental não adiantou: mandaram procurar a Secretaria do Meio Ambiente. Gustavo foi até a prefeitura e mandaram ele procurar a Polícia Ambiental. Estamos fazendo pressão na página do Facebook da Prefeitura, mas até agora nada de prefeitura ou polícia se comprometer em ajudar. Mesmo o Gustavo fazendo reunião, explicando que é uma espécie ameaçada de extinção.

O Gustavo descobriu três ninhos de mochos-dos-banhados. Numa área absurdamente pequena e cheia de casas. Dá o que pensar… um pouco é a “personalidade” do bicho, ele ser capaz de tolerar proximidade com as pessoas. Mas imagino que é principalmente perda de habitat. Ele não tem mais onde viver e procriar, tem que se virar com esses pedacinhos de campos, áreas pequenas, tumultuadas, estressantes, mas é o que sobrou.

Até sexta-feira parecia que nenhum mocho tinha morrido nos incêndios. Cinco adultos (tem um macho que é pai de duas famílias – também tem disso no mundo animal), e sete filhotes. Mas um dos filhotes aparentemente morreu de fome. Quando o Gustavo descobriu o ninho, reparou que entre os três filhotes, um estava mais fraco, ficava retraído no ninho. Ele colocava ratinhos em mourões perto, a mãe levava, mas só alimentava os dois filhotes mais fortes. O terceiro ela já tinha dado como perdido.

Mochos adultos não morrem em incêndios, obviamente eles voam. Filhotes que já voam também não têm grandes problemas. Mas os que ainda não conseguem voar… De sexta pra sábado, de madrugada, houve outro incêndio na área do ninho em que os filhotes ainda são muito pequenos. No sábado o Gustavo ainda não sabia se algum filhote tinha sobrevivido. Me mostrou o local do ninho abandonado – não propriamente um ninho, é um mato meio amassado em forma de toca. De repente, pro nosso alívio, um dos mochos apareceu. Pousou no fio, depois no mourão. O Gustavo é fera: ficou observando o mocho e falou “ali. Naquele ponto, entre aquelas duas moitas, ele olhou duas vezes pra lá. Se ainda tiver algum filhote, foi pra lá que ele levou. Vou até lá, se tiver filhote lá ele vai me atacar”.

No momento em que sobrevoou o Gustavo várias vezes
No momento em que sobrevoou o Gustavo várias vezes

E pra nossa grande alegria, conforme o Gustavo se aproximava das tais moitinhas, o mocho saiu do fio e sobrevoou o local, várias vezes, cada vez mais baixo. Não chegou a atacar o Gustavo, mas provou que lá havia pelo menos um filhote vivo. O Gustavo não conseguiu descobrir onde estava, nem ouvir a vocalização, mas o comportamento do adulto nos deu a esperança de que pelo menos unzinho estava lá.

Um mocho-do-banhado em meio a um incêndio levando seu filhote pra longe das chamas, nas garras, com todo cuidado. Só de pensar nisso me dá vontade de chorar.

ATUALIZAÇÃO: escrevi este post no domingo. Na segunda-feira soube que o Gustavo foi monitorar a área, na madrugada do domingo e durante o domingo. É bem possível que o filhote do ninho (1), que estava vivo no sábado no fim do dia, tenha morrido, porque no domingo o Gustavo ficou horas observando o local e os adultos não apareceram mais, nem pegaram os ratinhos que tinham sido deixados nos mourões. Imaginamos que os pais conseguiram levá-lo para longe do incêndio, mas que o bichinho não resistiu à fumaça, calor, stresse.

Os incêndios não são altamente mortíferos na hora para os adultos e jovens. O principal problema é que as áreas que os mochos têm pra caçar são muito pequenas, e com os incêndios ficam cada vez menores. Teriam desaparecido se o Gustavo e outras almas boas não fossem lá, todas as vezes, apagar. Num dos dias pós-incêndio o Gustavo encontrou os filhotes maiores, emitindo aqueles piados de filhote com tom aflitivo, era choro de fome. Os pais não achavam mais o que caçar, muita área queimada. No desespero, o Gustavo foi até um açougue, comprou carne, e colocou nos mourões. Mas é uma medida de improviso. Carne não serve pra corujas: elas precisam de cálcio e outros nutrientes que só algo como um ratinho ou um calango engolidos inteiros podem fornecer.

Há criadouros de ratinhos-petisco. O abate é feito com um choque elétrico. Eles então são congelados e vendidos. Um dos colegas, o Angelo Amo, biólogo, tinha um lote pra doar, e era esse o conteúdo da minha misteriosa embalagem térmica. Tive ratos no meu congelador de sexta pra sábado. Primeiro o Cris fez um urch quando contei – mas depois concordou que era por uma boa causa.

Ratos são caros! Por enquanto o Gustavo só tem um fornecedor de São Carlos. Cada ratinho sai por R$ 4. O Gustavo não está fornecendo alimentação integral, só de manhã e à noite, para não desincetivá-las de caçar, para diminuir a chance delas ficarem domesticadas. São pelo menos 10 ratinhos por dia, ele ainda não tem certeza. O João Marcelo cuidava de uma suindara que foi apedrejada: cuidou dela até sarar, e depois reintroduziu na mata (é um processo em que a ave fica presa numa área de mata, depois você solta, mas a acostuma a saber que lá ela pode voltar lá para buscar alimento. Então, enquanto ela não aprende onde caçar sozinha, ela vai buscar alimento lá). Gastava mil reais por mês com ratinhos.

Por que tem uma criatura tocando fogo em tudo? Não temos certeza, mas a hipótese mais provável é que não tenha relação com ódio contra os mochos, e sim um cara pago para “limpar” os terrenos… Teoricamente é proibido colocar fogo para limpar um terreno, mas infelizmente é uma prática comum, qualquer um que anda pelo interior está acostumado com os incêndios. Também há a hipótese do piromaníaco: uma mistura de piromania com a vontade de ver o terreno livre do mato, mesmo sem precisar ser pago para isso. Alguém da polícia ambiental checou os números dos lotes, e disse pro Gustavo que esses terrenos são da prefeitura.

O habitat dos mochos é Cerrado e campos. São ambientes que muita gente acha que não tem nada – que natureza é Mata Atlântica e Amazônia. Quando veem aquela vegetação rala e baixa pensam que não tem nada de valor. Até a USP de São Paulo teve coragem de tratorar um remanescente raro de Cerrado, perto da Veterinária, para construir um Centro de Convenções. Mesmo tendo sido avisada do valor ambiental da área. Imagine então explicar pro cidadão comum que essas áreas de mato feio são fundamentais para a vida de muitas espécies?

Pior. Quando você queima uma área, afugenta os ratinhos, que eram alimento dos mochos. Ora. Pode-se concluir que então é melhor queimar tudo, para diminuir a quantidade de ratos perto da casa das pessoas. Num pensamento simplista sim, mas o fato é que o fogo não mata os ratos, só os afugenta daquele terreno, eles continuam nas redondezas. A ratoeira com asas é a coruja. E a boa notícia é que os moradores do bairro gostam dos mochos. Faz dois anos que o Gustavo faz um grande trabalho de educação ambiental na área, explicando para as pessoas sobre as corujas, levando crianças para ver as corujas, com binóculo. Todos do bairro o conhecem, conhecem os mochos, e têm reparado na quantidade de gente camuflada que vai lá fotografar os mochos. Que bairro não teria orgulho? Num dos incêndios, uma das moradoras que conversava com o Gustavo chorou ao pensar que algum dos mochos poderia ter morrido.

mochos_americana_gustavo-pinto_04As áreas dos mochos estão com placas bonitas assim: mas isso não impediu que o piromaníaco incendiasse tudo.

 

Acho que não é certo os mochos estarem lá… queria muito não me preocupar com incêndios em terrenos baldios. Incêndios são ruins, há riscos de sair do controle, podem danificar rede elétrica, em beiras de estrada podem causar acidentes, as cinzas pioram a vida das pessoas que têm problemas pra respirar e deixam as donas de casa enlouquecidas de raiva. Cresci em Limeira, ninguém gostava de ver incêndios em terrenos baldios ou beiras de estrada, mas até então nunca tinha pensado na questão dos animais que dependiam daquele terreno baldio.

Se os mochos estão ali, naquele lugar apertado, cheio de gente passando, carros, incêndios… é porque eles não têm lugar melhor para ficar.

Se houvesse boa vontade por parte da Prefeitura de Americana ela poderia iniciar um diálogo com o Gustavo e os observadores de aves, verem locais que poderiam ser habitat pros mochos, fazer campanha em jornal, TV, rádio a favor dos mochos. Dizer com orgulho que uma espécie ameaçada de extinção escolheu Americana como local para se reproduzir. A questão dos terrenos perto de casas é mesmo complicada, mas há fazendas, parques. Além da campanha em geral, poderíamos conversar com os proprietários de sítios e fazendas, que talvez estejam tratorando as áreas de campo sem saber que com isso destroem o habitat do mocho. O bicho não precisa de uma área grande: de repente um pedacinho da fazenda, que vai ficar com “aquele mato feio”, mas com uma placa honrada, dizendo que lá é local de abrigo e reprodução de uma espécie que precisa da nossa proteção para continuar a viver.

Estamos na esperança que a Prefeitura tome uma atitude e reconheça que pode ajudar, e que essa ajuda ao mocho beneficia sua imagem.

Por enquanto, tudo que conseguimos fazer é ajudar o Gustavo. As lindas fotos do mocho-dos-banhados circulam pra milhares de pessoas no Facebook. A história dos incêndios também. Muita gente se manifestando. Eu, bicho ruim como sempre, me manifestei em vários posts “quer ajudar? Escreve pro Gustavo, pede o número da conta dele e deposita dinheiro. Não importa que você só possa doar pouco, é nossa prova de que ele realmente não está sozinho nessa luta. Quem luta pela natureza precisa muito de mais do que palavras”.

Gustavo e André
Gustavo e André

A beleza dos mochos e seu martírio com os incêndios tem chamado a atenção de toda comunidade de birdwatchers brasileiros, mesmo pessoas de outros Estados estão atentas a o que acontece em Americana. A médio e longo prazo, quem sabe surja um interlocutor na Prefeitura… sabemos que é mais complicado ainda do que poderia-se esperar. Não basta termos o tumulto de ano eleitoral: o prefeito de Americana foi cassado por corrupção, e parece que seu substituto ainda não conquistou a confiança da população. Neste cenário conturbado, quem vai dar atenção para o mocho?

Por enquanto queremos ajudar o Gustavo a alimentar os mochos que sobreviveram. Se vamos conseguir um lar mais adequado, se eles voltarão a se reproduzir em Americana, tudo ainda é muito imprevisível. Se os mochos não voltarem à cidade no ano que vem, ficaremos apenas com a lembrança do seu jeito manso de plainar, a beleza dos seus intensos olhos amarelos, o desenho e a sensação de maciez de suas penas. Com sua imponência e porte, o mocho-dos-banhados se torna uma figura inesquecível, tanto para birdwatchers como para os moradores do bairro.

Pena que já acabava a luz. Mas o bicho é sempre lindo de ver.

A luz já tinha acabado, mas de repente um caracará passou perto do mourão do mocho, e ele deu mais alguns voos.