O mindinho do Daniel Craig

Como digo por aí, nunca escondi que gostei da refilmagem do Cassino Royale. Não importa que na pasta não coubessem os … 10? 100? um bocadinho de milhões dólares. Gosto do Cassino Royale porque foi capaz de despertar meu interesse pelos dois protagonistas. Até lamentei a morte da Vesper, apesar de entender que herói não pode ter par romântico sério.

Lembra quando o cara a sequestra e ameaça “não se aproxime, ou eu a mato!”, e o 007 murmura algo como “ah, não, permita-me…” – ele acabou de descobrir que ela roubou os milhões.

E quando ela descobre que a senha para acessar os xxx milhões de dólares era “vesper”. Ela fica muito brava, ele orgulhoso e zombeteiro, mas ela fala que se dele não sobrasse nada, apenas o mindinho, ainda assim ele seria muito mais homem do que a maioria dos homens que ela conhecia. “Isso porque você sabe o que eu posso fazer com esse mindinho”.

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Pensando só na parte sexual da imaginação, o que eu queria era reclamar do quanto o erotismo barato que domina o mundo por aí despreza os mindinhos e outras alegrias. Propagando coito, felação, sm de vitrine, e filmando e escrevendo como se as únicas partes eróticas das pessoas fossem as relacionadas com o aparelho reprodutivo, e os seios. Femininos.

Quer ver outro que faz estrago com o mindinho? Robert Redford. Sei que ele envelheceu, enrugou, fez filmes degradantes, mas pra mim ele sempre será o cowboy de Montana, ou um homem rico em aventura na África, ou um milionário (e que não precisa da Demi Moore, de jeito nenhum!). No Encantador de Cavalos, quando vai fechar um botão do vestido da sortuda-nascida-virada-pra-lua Kristin Scott Thomas (que deve ter feito pacto com o diabo pra ter sido par romântico de tanto homem bonito), e ela se molha. Um botão, nas costas, perto da nuca. Muito mais erótico do que milhões de porcarias que circulam em tela ou impressas.

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Ou a massagem erótica nos lóbulos, em Intocáveis. A cara do Philippe quando está lá aproveitando, e depois quando aparece o massagista errado.

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E não é só o problema de sermos, como público, tratados como idiotas, nos dando estímulos toscos e medíocres. O problema é acreditar que o bom caminho é fantasiar um menage, ou ir pra um hotel com um desconhecido, em que seguirão a sequência: beijo na boca -> beijo nos peitos um do outro -> felação – > sexo vaginal – > sexo anal.

A pobreza dos textos eróticos amadores. Certo, há anos não leio, mas aposto que continua a mesma porcaria. E só passei os olhos pelos 50 tons, mas achei tão ruim que não deu.

Tinha um amigo de internet com quem gostava de conversar. Uma vez ele me mostrou um conto que ele tinha escrito: sexo com duas garotas loiras de cabelo comprido, lençóis de cetim creme, luz difusa do amanhecer. E pra eu falar pra ele que o texto era ruim, que ele ia pro mal caminho em se fixar nessa xaropada? A gente acabou perdendo o contato (espero que não tenha sido pela minha resposta sobre o texto, que tentei falar da forma mais branda possível), e voltamos a nos falar uns anos depois. E uma das primeiras coisas que ele quis me contar é que depois entendeu, só depois conseguiu ver como o texto era ruim.

E digo mais: acredito que essas ideias pobres sobre prazer sexual fazem mal pro mundo, porque as pessoas passam a acreditar que viver algo incrível é ter um menage com duas peitudas. E assim não conseguem enxergar a vida oferecendo a chance de um mindinho, um roçar de joelho, um beijo no canto da boca, olhares petrificantes, pontas dos dedos sobre a pele, textura do cabelo, carícias nos pulsos.

Ninguém, muito menos a TV e os livros baratos, têm o direito de te dizer (e limitar) onde é gostoso. Tem que viver.

 

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