O machismo disfarçado de compreensão

Ontem assisti só a 10 minutos do vídeo da Chimamanda, mas vi que era incrível e indiquei. Hoje terminei de ver. Meia hora de vídeo que vale muito a pena, concordei com tudo, o trecho em que ela fala que as mulheres são obrigadas a fingir que gostam de algo mesmo que não gostem – e depois não é uma surpresa que elas façam da capacidade de fingir uma arte, isso me trouxe lágrimas. Sempre critiquei as futilidade e falsidades femininas, nunca tinha parado pra pensar o quanto isso também é peso da cultura.

Abri o vídeo no Youtube, e fiz aquela auto-tortura que é ler a caixa de comentários. Homem dizendo que o vídeo é legal masssss tem o problema de ser muito centrado na Nigéria, e ela mesma fala dos perigos da “historia única”. Caralho. Qual o problema de ser centrado na Nigéria? Ela começa o vídeo explicando que vai focar na Nigéria, que é a realidade que ela mais conhece e o país do coração. Eu assisti ao vídeo inteiro não com um interesse antropológico, mas me identificando com tudo que ela falou. Sou uma brasileira neta de japoneses e concordo com tudo.

Daí aparece outro cidadão para comentar o trecho em que ela conta de uma vez que deu uma gorjeta para um guardador de carro, e o cara olhou pro amigo dela, que a acompanhava, e falou um “obrigado!”, bem emocionado – na suposição de que eles eram um casal, e que podia ser a mulher entregando o dinheiro, mas que com certeza o dinheiro era do homem. A Chimamanda também fala dos restaurantes em que os garçons só cumprimentam os homens e nem olham pra cara das mulheres – outra realidade brasileira, que já me fez pensar muitas vezes que é porque eu sou uma japonesa baixinha, o Cris é um europeu alto, e que é por isso que sou ignorada. Bom, voltando, o cidadão em questão comenta que essa coisa dos homens se cumprimentarem e ignorarem as mulheres é uma “forma de respeito por elas estarem acompanhadas”.

Esse homem não consegue entender o quanto essa historia de homens falarem com homens e ignorarem as mulheres é outra grande manifestação da desigualdade, o quanto as mulheres ou são cidadãs acéfalas de segunda classe, ou então são criaturas traiçoeiras e perigosas, e que se você puxar conversa com uma delas logo ela vai pular em cima de você, te agarrar e querer fazer sexo com você no meio de todo mundo e você vai ficar lá com aquela cara de bobo, se sentindo culpado por ter tentado conversar com ela.

Outro comentário equivocado do Youtube é sobre a historia da professora da Chimamanda ter lançado o desafio “quem tirar a nota mais alta neste teste poderá ser o monitor da classe”, e a nota mais alta foi da Chimamanda, que não pode ser o monitor porque o monitor só podia ser um menino, a professora não explicou porque achava que era óbvio. O comentário foi “e o mais incrível é que era uma professora, uma mulher”. Ha. Como se o fato de nascer mulher te livrasse dos condicionamentos culturais. Não livra. As mulheres podem ser tão machistas quanto um homem, tão equivocadas quanto os homens na visão do que é adequado ou não a uma mulher fazer. Porque é cultural.

Chimamanda fala que um amigo dela, negro, perguntou por que ela diz “eu, como feminista”, em vez de falar “eu, como ser humano”. Mas é a pessoa que fala “eu, como homem negro”. Precisamos de palavras específicas para tratar de temas específicos.

Me perguntaram por que feminismo deveria ser algo positivo, se machismo é algo negativo. Ora, não é óbvio? Porque culturalmente ser macho tem sido sinônimo de abusos de poder. E ser fêmea tem sido sinônimo de ser a parte abusada. Por isso as duas palavras têm significados tão antagônicos.

Ontem falei pro Cris que descobri que sou feminista, e que ler e escrever sobre o feminismo tem me trazido alegrias que o birdwatching nunca trouxe. Tantas coisas pra ler, assistir, me identificar, ver como é um terreno amplo para panfletar e tentar influenciar amigos e conhecidos. Como é bom encontrar pessoas que concordam com a ideia de que o silêncio e omissão são errados, que é preciso falar das coisas que são importantes, que conversando sobre isso podemos mudar a cultura e a vida das pessoas.

É um terreno árduo. Mesmo pessoas esclarecidas, cultas e descoladas ainda acham que feminismo é odiar homens, ou então dizem que não é preciso falar disso porque o mundo mudou e hoje todo mundo é igual. Não é. Mas talvez seja daqui a algumas gerações.