O latido do esquilo: o Cris acha você feia

O que é beleza? O que é ser uma menina bonita, uma mulher bonita? Quando essas coisas passam a importar, e quando deixam de importar? O que você faz com pessoas amadas que falam coisas pra te machucar? Como não cair numa situação de engolir sapo, mas também não partir pra vingança ou infantilidades?

Sempre soube que não fazia parte do grupo das meninas bonitas e descoladas. Desde que eu tinha uns 12 anos eu sei conversar sobre muitas coisas com as pessoas, sei ouvir, vejo que as pessoas gostam de conversar comigo e me falam coisas pessoais, confidências. E nunca achei que isso significava alguma coisa. Pata. Idiota. Fucking padrão de beleza imposto pela mídia.

Saí de Limeira, fui pra faculdade, aprendi um monte de coisas. Recebi o aval da minha mãe pra namorar 🙂 Até então ela dizia que não podia, que atrapalhava os estudos. Mas daí quando sua filha vai chegando aos 20, e nada de apresentar um namorado, você começa a ficar preocupada que vai ter uma filha encalhada – uma ideia que me divertia bastante, confesso. Os anos de educação repressora pareciam bem vingados ante a preocupação de que sua filha não vai arrumar ninguém.

Mas eu não estava encalhada e sozinha, só não contava isso pros meus pais. Aos 20 e poucos anos eu já tinha feito a grande descoberta: o padrão de beleza não importa. Só homens idiotas ficam com alguém com base apenas na aparência. Tem muita gente procurando companhia e experiências, e eu tinha três grandes vantagens: saber conversar sobre muitas coisas, ser mulher, não ter medo de sexo.

Eu sabia que não era bonita como uma moça loira de olhos azuis é bonita, uma morena de longos cabelos e corpo cheio de curvas é bonita, ou uma ruiva de pele bem branca é bonita. Mas mesmo sendo uma japonesa baixinha de óculos e cabelo curto, eu me sentia bem na fita no meu nicho ecológico. Uma sensação boa de segurança, a ponto de só achar engraçado se um cara com quem eu estava saindo vinha me contar que fulana tinha falado mal de mim “ela falou que eu estou saindo com uma japonesa feinha”, eu sorria por dentro e pensava (mas não falava pra ele) “Inveja, sua gorda. Você é quem queria estar catando meu lolito”.

Hoje eu sei que quando comecei a namorar o Cris na consultoria, isso deixou várias pessoas pasmas. Por que um sócio-diretor recém-separado, descendente de europeus, 1,80m, vai gastar seu tempo com uma japonesa pobre, baixinha, feia, gordinha, sem graça? Por quê? Homens e mulheres se perguntavam isso.

Pois é. Estou recontando isso pra explicar o quanto eu estou acostumada e não me importo com os maldizeres sobre mim.

Muitas vezes já quis ter outra casca, já me senti uma Ferrari num chassi de Fusca, mas faz tempo que isso não importa mais. Há mais de 10 anos assumi um compromisso de fidelidade, e só tem uma pessoa cuja opinião sobre minha aparência conta. É o Cris. O cretino que é o amor da minha vida, e que em menos de um ano e meio conseguiu me fazer sangrar três vezes, ao falar coisas que ele disse que eram brincadeira mas machucaram muito. Ele é a única pessoa capaz de machucar tanto, porque é o meu amor. A única pessoa pra quem me importa se ele me acha feia ou bonita. E conseguiu três vezes me falar que estou velha ou feia.

Dói. Dói dele ter que aguentar minha fúria e se desculpar por horas. De me escorrerem lágrimas frias de ódio, de eu tremer de raiva e desgosto. Dói de na terceira vez eu falar “chega. É a terceira vez em menos de um ano e meio, é muita coisa. Eu não vou ser vítima disso, eu não quero me sujeitar a você. Vou parar de me importar com a sua opinião. Vou encontrar alguém que goste de mim como eu sou. Estou cansada de você me falar que eu sou feia, que as pessoas de Okinawa são feias e portanto que a minha família é feia, chega disso”.

Eu não sei bem o que eu ia fazer. Não estava pensando em separação, e sim em algo como voltar a usar roupas pra chamar atenção, talvez flertar por aí e me sentir paparicada por homens que iam gostar de papear com uma japonesa coxuda, relativamente peituda, de lábios carnudos, que gosta de fotografia de natureza, viajou pra vários países, sabe conversar sobre um monte de coisas. Recompor meu pedaço de amor próprio que meu amor-cretino é capaz de destroçar.

Horas discutindo. Não uma discussão. Eu vociferando, ele tentando apaziguar, explicar, se desculpar. Num dos momentos eu queria ter jogado ele pela janela do trem, se estivéssemos num trem “eu não sei por que faço isso. Fico envergonhado”. Envergonhado? Envergonhado? Constrangido? Aborrecido? Ah, mas vá pra putaqueopariu, enfia o constrangimento no cu. Não falei, só pensei, me sentia cansada demais pra xingar.

Por fim, o que trouxe a paz pra nos deixar dormir foi ele falar que desde criança ele fala coisas pra machucar as pessoas. Que ele não sabe por que faz isso, mas faz. Dizer que ele tem orgulho de ver que o Daniel se preocupa em ser gentil e falar coisas legais pras pessoas, e que ele sabe que isso tem uma boa influência minha. Que eu faço ele querer ser uma pessoa melhor, e que se a gente é uma família feliz e unida, é por minha causa, que ele não sabe como seriam as coisas se eu não estivesse. Eu falei como foi horrível ele dizer que estava envergonhado, e usamos uma das famosas técnicas de reconciliação, que é perguntar pro outro o que você devia ter falado. Diga “me perdoa. Você é o meu amor e não sei por que falei isso, preciso que você me perdoe”. Ele falou que queria ter falado isso, mas achava que ainda não podia, que ainda não merecia.

Porque ele estava sinceramente arrependido, e porque eu sei que é sério e verdade essa história de gostar de machucar as pessoas, eu perdoei. Dormimos. Acordei moída, tive os sonhos típicos de insegurança (sonhar que você não se formou na faculdade. Verdade verdadeira é que eu não sei se peguei meu diploma na USP, então é um motivo a mais pra sonhar com isso, mas eu sei por que esses sonhos acontecem). Já estávamos bem a ponto de nos abraçar, de não haver mais uma névoa de gelo ao meu redor deixando todas as outras pessoas do lugar levemente desconfortáveis.

Agora está tudo bem, como se nada tivesse acontecido?

Claro que não.

O Cris é o amor da minha vida, a pessoa com quem espero viver a vida toda, até o fim. Mas o papel de vítima passiva nunca combinou comigo. Uma coisa é você ser destroçada porque o amor da sua vida deixou de te amar, ou mudou de país, ou mesmo morreu. É uma dor horrível, mas é algo que acontece porque você amava muito, uma dor diretamente proporcional ao tamanho do seu amor. Outra coisa é você se sentir destroçada porque seu amor tem um lado sádico, e ele sabe qual é o ponto que é como enfiar a mão dentro de você e torcer suas entranhas.

Não tenho vontade de me vingar. Não é uma vontade de também causar uma dor grande – detesto vê-lo sofrer com qualquer coisa, seja dissabores do trabalho, ou alguma coisa do poker, ou mesmo quando tem um ponto de sangue no queixo porque ele se cortou fazendo a barba.

Não sei. Castigo talvez. As três vezes que ele fez isso foi na frente de outras pessoas, eu só fiquei quieta e depois quebrei o pau em particular. Não sei se vou mudar de opinião, mas neste momento a ideia de falar do assunto na frente de qualquer um se ele voltar a fazer me agrada. De estabelecer algum castigo. Algo como três meses sem poder ir ao clube de poker, e o dinheiro que ele iria gastar com os torneios ele tem que entregar pra mim, pra eu fazer o que eu quiser, pra eu gastar comigo ou doar pra quem eu quiser. Não temos questões com dinheiro. Eu gasto o que eu quero, ele gasta o que ele quer, porque somos dois capricornianos comedidos que nunca gastam demais. Mas a ideia da abstinência de uma das coisas que ele mais gosta de fazer pode ser o tchans.

Não sei. Alguma coisa pra não me sentir mais vítima… ele passou um bom tempo dizendo que era sem querer, que nós sempre brincamos sobre muitas coisas e que eu não me importo. É verdade que eu não me importo quando ele fala coisas zoeiras sobre eu ser burra, vileira, suburbana, não saber fazer contas, confundir palavras, não ler rótulos – nada disso me ofende e essas coisas só são faladas porque nós dois achamos engraçado, nós dois nos divertimos com isso. Mas ele sabe que a questão da aparência é algo que dói como o inferno, porque levou muitos anos pra eu aprender a gostar de mim, e eu não vou deixar que nenhum homem, muito menos o amor da minha vida, banque o sádico com o meu amor próprio.

Não engoli a história do sem querer, ou isso é uma questão sua. Ele sabe muito bem que minha aparência é uma questão pra mim, meu calcanhar de Aquiles, e recentemente já tinham acontecido dois incidentes em que o céu caiu na cabeça dele porque ele me falou uma frase ruim. Três ou quatro palavras com repercussões terríveis. Você sabe que isso machuca muito. Se você “esquece” que não pode falar aquilo, mesmo que ache que está num contexto de brincadeira, ou você é uma pessoa desalmada ou um idiota completo. Nenhuma das alternativas prestava. Ou melhor, se fosse isso, era algo pra considerar a separação. Porque eu não quero viver com alguém pra quem os sentimentos dos outros não importam, ou que é um idiota completo. Mas acredito que algumas pessoas fazem coisas pra machucar as outras… ainda mais se é algo que acontece desde a infância. O prazer sádico de saber que você pode falar algo que vai machucar muito. Isso eu entendo. Entendo, mas não quer dizer que vou aceitar tranquilamente. Ele vai ter que lutar pra mudar isso. E sempre que fizer isso vai ter minha espada sobre ele, tanto na forma de horas de sermão, como em algum outro mecanismo punitivo pra aprender a não fazer mais.

Estou expondo algo tão pessoal num texto comprido assim, e se você chegou até aqui, imagino que tem interesse no assunto. Por ser vítima ou abusador. Compartilho no blog meu lado mais frágil porque espero que este post te ajude a lidar com o seu lado mais frágil. A reconhecer que ele existe. E não permitir que as pessoas te maltratem, mesmo que seja o amor da sua vida, mesmo que sejam quatro palavras. Se doeu, tira a limpo. Exija perdão. Não deixe que o outro te diga que você está exagerando ou que aquilo é uma bobagem. A gente sabe onde dói. Não é uma questão de ser hipersensível, ficar ofendida com tudo, você entende que é um outro patamar, o patamar de lágrimas frias de ódio. Não permita que as pessoas façam isso com você. Se afaste da pessoa, ou se é como meu caso, alguém que você ama e não quer se afastar, no mínimo discuta o assunto à exaustão, e procure formas de ajudar a evitar que aconteça de novo.

No estágio de evolução moral, somos capazes de fazer ou não fazer coisas porque temos empatia e sabemos que aquilo vai agradar ou machucar alguém. Mas há um estágio anterior, em que deixamos de fazer algumas coisas só pelo receio da punição. O Cris sabe que me falar que eu sou feia me machuca como o inferno. Se isso não é o suficiente pra ele lembrar que não pode falar, a gente volta pro estágio punitivo. Três meses sem H2.

Por causa desse incidente, não consegui fazer o post de retrospectiva 2015, ou contar que consegui mesmo publicar o livro sobre o blog, ou agradecer pelos emails bonitos, desculpem. Mas esse era o assunto pungente do momento, e queria compartilhar aqui. Não seja vítima. Não deixe as pessoas te machucarem por prazeres sádicos. Se afaste da pessoa. Se não puder se afastar, encontre uma forma de discutir o assunto e procurar formas de diminuir as chances de voltar a acontecer. Aja com honra e justiça. Obrigada por acompanhar o blog, obrigada pelo carinho, nos vemos em 2016.

Quase esqueci do PS: o latido do esquilo é uma ideia boa de um livro do Rick Riordan (sempre dou uma passada de olhos nos livros do Daniel, pra saber o que ele está lendo, pra poder papear com ele sobre o livro. Nesse livro do Magnus Chase, mitologia viking, ele fala de um esquilo que guarda a árvore que leva aos portais dos nove mundos. O esquilo não só tem dentes e garras mortíferas, ele tem um latido que faz cada pessoa ouvir as coisas mais dolorosas possíveis, pra cada um é diferente. Eles dizem que o latido é pior do que a mordida do esquilo. Pensei que era uma ideia muito boa. Algo que faz você descobrir qual é a coisa que mais te dói. Acho que só por algum mecanismo mágico eu poderia ter certeza de que “você é feia”, falado pelo Cris, é a coisa mais doída que eu posso ouvir de alguém. Mas nesse momento parece ser. E pensar bastante no assunto, escrever sobre o assunto, publicar na internet, já faz doer bem menos.

Você é o amor da minha vida, Cris. Mas ninguém vai bancar o sádico comigo. Se o seu lado negro aparecer de novo, vai encontrar de novo a minha espada, na forma de horas de sermão – que eu sei que é um perrengue no porte de sabugo enfiado no cu. E provavelmente mais algum castigo, pela reincidência. O melhor é não deixar acontecer de novo. Mas se acontecer eu estarei preparada.

PPS: contei pro Cris sobre o castigo. Comentários contraditórios de sentimentos conflitantes. Dizer que eu era muito boazinha em pensar em três meses em vez de um ano, e depois dizer que três meses já era muita coisa. Garanti que não era. “E se eu não cumprir o castigo?”, “Penso num pior”, “E se eu não concordar, não cumprir?”, “Então a gente se separa”, “Imagina! Só estava brincando”. Eu não estava. Amo muito o Cris. Mas também me amo muito, e não serei vítima de abusos. Se ele perpetuar situações de me machucar, ele não merece mais o meu amor.