O discurso contraditório e maligno de Anderson Ferreira, deputado evangélico autor da proposta do Estatuto da Família

Não sabe o que é o Estatuto da Família? Proposta de lei para definir que família é apenas casal heterossexual. Casal homossexual não pode mais adotar crianças e provavelmente perde direitos civis, como programas pra família no SUS. Filhos de casais homossexuais são obrigados a declarar isso na escola. Volta da matéria “Educação Moral e Cívica”. Dia da família celebrado oficialmente nas escolas em 21 de outubro, pra humilhar qualquer criança que não tenha pais hetero. Ah, e olha a palhaçada de sempre: a proposta foi escrita por um deputado evangélico, Anderson Ferreira, arquivada, depois ressuscitada e tenta ser votada às pressas, graças a Eduardo Cunha, o excelentíssimo líder da Câmara e também evangélico, e a comissão designada para analisar a validade da proposta é composta por vários evangélicos, incluindo o presidente dessa comissão, o deputado Sóstenes Cavalcante  que já falou que considera a união entre homossexuais inconstitucional.

Mais informações aqui: http://claudiakomesu.club/entenda-a-imoralidade-do-estatuto-da-familia-escrito-por-um-deputado-evangelico-analisado-por-uma-comissao-evangelica/

Comentários sobre várias declarações de Anderson Ferreira

É preciso ter estômago para ler a entrevista toda, mas é importante ler as declarações diretas da criatura que quer implantar oficialmente nas escolas brasileiras a postura de ódio, recriminação e bullying contra crianças que não tenham pais heterossexuais, além de impedir que casais homossexuais adotem crianças e tenham os direitos civis que casais heterossexuais têm.

http://www.revistaforum.com.br/blog/2014/02/a-familia-e-um-casal-heterossexual-diz-autor-do-estatuto-da-familia-leia-entrevista/

Selecionei alguns trechos, tanto desta entrevista como de outros sites:

Anderson Ferreira – … Vamos lá, casamento homossexual: a maioria da população é cristã, 80% da população é cristã, então, 80% da população não concorda com o casamento homossexual…

O repórter da Fórum diz que ele está errado sobre a % da população que não concorda com o casamento homossexual, fala em 55% de aprovação – e Anderson Ferreira responde “Isso não é a realidade, essas pesquisas não representam a população”. As pesquisas que Anderson Ferreira diz que são mentiras são do Ibope e da Hello Research:

http://veja.abril.com.br/noticia/brasil/ibope-maioria-no-pais-e-contra-legalizacao-da-maconha-e-casamento-gay/ – 4/set/2014

“Os homens são os que mais rejeitam o casamento entre pessoas do mesmo sexo: 58% deles são contra. Já entre as mulheres, são 49% contra e 44% a favor. Há faixas do eleitorado que são majoritariamente favoráveis à bandeira da comunidade gay: 51% entre os mais jovens, com idade entre 16 e 24 anos, e 55% entre os mais escolarizados, com curso superior.”

http://exame.abril.com.br/brasil/noticias/quase-50-dos-brasileiros-sao-contra-casamentos-gays Pesquisa da Hello Research em maio de 2015

49% dos brasileiros são contra a união entre pessoas do mesmo sexo

21% declararam ser indiferentes ao tema e 30% totalmente a favor do casamento gay

“Fórum-  Mas o senhor considera as famílias homoparentais?

Ferreira – Tenho um princípio, sou representante de um segmento, o dos evangélicos, este é o meu conceito. (…)

Tudo isso ocorre numa desestruturação familiar. Uma família estruturada [obs minha: estruturada nesse caso significa ser um homem e uma mulher] não é alvo das drogas, da pedofilia, não é alvo da exploração sexual. O que nós queremos é que haja esse debate e que a sociedade possa ser ouvida.

Fórum – Mas, deputado, temos muito exemplos e relatos de famílias muito bem estruturadas que têm caso de drogadição, de pedofilia. A sua consideração é um tanto contraditória, não? 

Ferreira – Não, isso é posicionamento. Na vida, temos que ter posicionamento

Fórum – Hoje em dia temos muitos jovens que são filhos de casais homossexuais. Tendo uma matéria dessa, baseada no Estatuto que o senhor apresentou, não criaria um ambiente discriminatório para esses jovens dentro da sala de aula?

Ferreira – Depende do ponto de vista que você está enxergando. O conceito pra mim de família é um casal heterossexual.”

 

Nesta entrevista para a Época, Anderson Ferreira diz “As famílias hoje estão à mercê da grave epidemia das drogas e álcool, da violência doméstica, da falta de saúde e educação, da gravidez na adolescência.” http://epoca.globo.com/vida/noticia/2015/03/o-estatuto-da-familia-vai-bassegurar-direitosb.html

Epa. Na visão de Anderson Ferreira 80% da população é cristã e não concorda com o casamento entre homossexuais, então 80% da população brasileira só pode ser heterossexual. Em vários momentos ele fala como os homossexuais são uma minoria. Como ele pode relacionar homossexualidade com os problemas atuais da família brasileira? Aliás, os problemas atuais não são a prova de que o modelo atual não está bem calibrado?

Com certeza está mal calibrado. Nessa mesma entrevista, Anderson Ferreira diz “O arranjo familiar baseado no amor e no afeto é algo novo em nossa sociedade, não é o padrão”.

O arranjo familiar baseado no amor e no afeto não é o padrão. Mas se fosse o padrão, se esse fosse o ideal a ser buscado quando você decide com quem você quer casar, seja uma relação homo ou hetero ou sei lá o quê, com certeza haveria menos violência, drogas e problemas.

Aliás, dizer que a luta contra o casamento homossexual favorece a diminuição da violência e pedofilia é uma grande cara de pau porque a maioria dos casos de violência doméstica e pedofilia são praticados em famílias heterossexuais, por homens contra mulheres e crianças. Eu tinha uma noção por causa de seriados, depois fui ler um pouco e também achei esta notícia do Estadão de março de 2009:

“O perfil do agressor típico é o homem de 22 a 45 anos que tem laços de parentesco com a vítima. A maior parte dos agressores é padrasto da criança, seguido por pais, tios e avós”

http://www.estadao.com.br/noticias/geral,estudo-mostra-que-pedofilos-geralmente-sao-parentes-no-brasil,333365

 

No artigo da Época Anderson Ferreira também diz “Como estará a cabeça desse filho adotado daqui a dez, 15 ou 20 anos?” http://epoca.globo.com/vida/noticia/2015/03/o-estatuto-da-familia-vai-bassegurar-direitosb.html

Já existe a resposta pra isso. Estados Unidos, Inglaterra, Austrália pesquisam o assunto há décadas. Agora em junho um professor da Universidade de Oregon divulgou uma pesquisa que analisou 19 mil estudos e artigos relacionados com filhos de casais homossexuais, entre 1977 e 2013. A conclusão é que não há diferença entre crianças criadas por casais homo ou heterossexuais. http://nypost.com/2015/06/24/gay-parents-or-straight-parents-kids-are-equally-screwed-study/

Anderson Ferreira com certeza conhece os estudos feitos em outros países. Dizer que não sabe o que vai acontecer com uma criança criada por pais homossexuais é manipulação política.

 

Outro argumento: uma criança criada por um casal homossexual geralmente será uma criança tirada de um orfanato. Ela terá pais diferentes. Provavelmente ela vai sofrer algum bullying, talvez apanhe. Algumas morrem, como aconteceu recentemente. http://extra.globo.com/noticias/brasil/morre-adolescente-que-teria-sido-agredido-por-ter-pais-gays-15548894.html. (Situações totalmente revoltantes, e que são alimentadas por gente como Anderson Ferreira). Mas apesar das chances do sofrimento pela discriminação social, não tenho dúvida nenhuma de que a vida dessa criança será um milhão de vezes melhor do que a vida no orfanato.

 

Atualização em out/16: olha que notícia legal. O Dicionário Houaiss mudou a definição de “família”

antes era: “família  1. grupo de pessoas vivendo sob o mesmo teto (esp. o pai, a mãe e os filhos)”

agora é: “família 1. núcleo social de pessoas unidas por laços afetivos, que geralmente compartilham o mesmo espaço e mantém entre si uma relação solidária”

http://www.brasilpost.com.br/2016/05/09/dicionario-houaiss-palavr_n_9873224.html

 

Não consegui encontrar informações de como está a votação e a chance de aprovação, só uma de abril de 2016 dizendo que a bancada BBB (Bala, Boi, Bíblia) estava esperançosa de conseguir aprová-la ainda em 2016, já que apoiou o processo de impeachment de Dilma. Aliás, a bancada está na esperança de aprovar a legalização da discriminação sexual e do bullying, a alteração do Estatuto do Desarmamento, alterações nas demarcações de terras indígenas, e coisas como Estatuto do Nasciturno, que torna mais difícil ainda a vida da mulher que engravidou do estuprador. Essa bancada é só coisa boa.
http://brasil.elpais.com/brasil/2016/04/25/politica/1461616678_820806.html